Marido por acaso

The Tycoon's Baby

Leigh Michaels

Sabrina n? 051  A Cegonha Chegou!



Copyright  1999 by Leigh Michaels
Originalmente publicado em 1999
pela Harlequin Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Ttulo original: The Tycoon's Baby
Traduo: Nancy Alves
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Copyright para a lngua portuguesa: 2000 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.





Projeto de F para Fs, sem fins lucrativos.
Digitalizado por: Palas Atenia
Revisado por: FairyBlue



RESUMO

Ele era um pai solteiro Ela, a mulher ideal!

Guilherme Copeland no tinha problemas em gerenciar um negcio de sucesso, mas, como um bom pai solteiro com uma adorvel filhinha de quinze meses de idade, realmente encontrava problemas em lidar com todas as mulheres que pareciam estar determinadas a se casar com ele!
O que Guilherme precisava para desviar as atenes? 
Uma esposa de aluguel! Margheritte era perfeita para isso e estava precisando de dinheiro. Mas to logo Margheritte recebeu sua aliana e pegou sua filhinha nos braos, Guilherme comeou a desejar que aquilo no fosse um arranjo temporrio!






















CAPTULO I


O som da risada alegre de uma criana ainda pequena preenchia a sala. Guilherme ergueu-se nos cotovelos para olhar melhor a menininha que, vestida num pijama de bolinhas, estava deitada de costas no felpudo tapete oriental diante da janela.
Baixando a cabea, ele mais uma vez brincou, tentando fazer ccegas em sua barriga, enquanto a garota ria ainda mais alto, agarrando-se a seus cabelos.
Numa poltrona prxima, uma mulher de branco observava a cena, sem sorrir. Impaciente, acabou por sugerir:
 Sr. Copeland, acredito que j esteja na hora de colocar Annebelle para dormir.
Guilherme pensou por instantes antes de responder. No se importava com o adiantado da hora, e sabia que Annebelle, com certeza, tambm no.
 Vejo minha filha apenas vinte minutos por dia, sra. Wilson  observou, por fim.  Ser que no poderamos adiar seu momento de ir para a cama?
A expresso da sra. Wilson era sisuda.
 Bem, eu diria que o senhor j fez isso.  Fez um esgar de desagrado.  J a agitou tanto que vou levar mais de uma hora para faz-la aquietar-se de novo.
Guilherme respirou fundo, jurando para si mesmo que, no dia seguinte, conseguiria sair do escritrio mais cedo, no importando quais fossem as conseqncias.
 Est certo, sra. Wilson.  Entregou a ela a menina.
 Muito bem, Annebelle, a brincadeira acabou. D um beijo no papai antes de ir repousar. 
Os olhos grandes de Annebelle, muito semelhantes aos de sua me, pareceram entristecer-se. Guilherme abraou-a e levantou-se com ela nos braos, beijando-a vrias vezes, e depois entregando-a  enfermeira, que fazia vezes de bab. Ficou, depois, observando-as afastarem-se pelo piso frio de mrmore at a grande escadaria, onde, aos poucos, desapareceram em direo ao andar superior da residncia.
A mulher mida que se encontrava sentada junto  lareira no deixou de admirar as chamas. A luz trmula provocada por elas criava espectros estranhos em seu rosto enrugado.
 No sei como consegue suportar essa mulher  murmurou ela, referindo-se  sra. Wilson.
 Porque ela  a melhor enfermeira e bab do condado.  Guilherme no disfarava a contrariedade. Camila Copeland suspirou ao replicar:
 No sei quem foi que lhe disse isso
 A sra. Wilson me foi muito bem recomendada.
  rgida demais.
 Vov, eu mesmo j ouvi voc dizer que toda criana precisa ter horrios
 Eu me lembro de ter dito que elas precisam de segurana e estabilidade. Isso no significa que seja a favor de disciplina militar. 
Guilherme ajeitou o colarinho e o n da gravata.
 Por favor, no comece de novo.  Porm, sabia de antemo que no seria atendido.
 Annebelle tem apenas quinze meses de idade, Guilherme. No acha que  cedo demais para que viva como se estivesse num internato, cheia de regras e hora para tudo? 
Ao encarar o neto, acrescentou, firme:
 Essa garota precisa de uma me!
Guilherme deixou-se cair numa poltrona prxima. Queria estar confortvel para enfrentar a mesma discusso que vinham tendo havia tempos.
 Sei o quanto voc sofreu, meu querido. Quero dizer quando Sybil se foi.
 No pode imaginar o quanto, vov.
 Mas, meu anjinho, j faz mais de um ano que ela morreu, e acho que j est na hora de voc retomar sua vida.
 J fiz isso. No entanto, no tenho a menor inteno de me casar outra vez. Nunca mais, vov.
 Meu amor, sei que tudo tem sido muito difcil desde aquele terrvel acidente, mas no deve imaginar que, mesmo no tendo se interessado por mulher alguma no ltimo ano, isso no possa vir a acontecer no futuro. Voc  jovem,  fogoso
Mesmo aborrecido com a conversa, Guilherme no pde deixar de sentir vontade de rir. Sua querida av tinha um jeito muito especial de colocar as coisas. E estava um tanto corada pelo que acabara de sugerir. Ou seria aquele tom rosado em seu rosto apenas um reflexo do tric que fazia e que tinha um belo tom de vermelho? Camila deu de ombros e comeou uma nova carreira com as agulhas.
 No tenho dvida de que, um dia, ainda vai encontrar uma moa maravilhosa  observou ainda, para ter a palavra final, pelo menos por enquanto.
Guilherme imaginava se valeria a pena comentar que no descartara a idia de outra jovem, mas, sim, de outro casamento.
 E ser mais fcil para Annebelle aceitar uma madrasta agora, quando ainda  to pequena  a av resolveu acrescentar, como reflexo de pensamentos posteriores.
Guilherme voltou-se, surpreso. Poderia saber de cor o contedo daquela conversao, pois j a tivera com Camila inmeras vezes. Contudo, aquela derradeira observao dela soava como algo novo.
 Vov, s porque pensa que, um dia, voltarei a me casar, acha que devo fazer isso agora? Esteja eu pronto ou no? S porque Annebelle est com a idade apropriada para poder aceitar uma nova me?
 Bem, creio que no deva descartar essa possibilidade.
 Certo. Vamos supor, ento, que eu aceite seu conselho e me case logo, providenciando, assim, a madrasta para Annebelle
 No disse que voc deva pensar apenas em sua filha, menino.  Fitou-o, sria.   evidente que deve considerar a si mesmo.
 Oh! Quanta generosidade! Que bom que minha opinio ainda vale alguma coisa
 No seja mal-educado, Guilherme!  Camila admoestou-o, recolocando o tric na cestinha em que sempre o trazia.  Bem, a campainha do jantar j tocou, e acho que no poderemos continuar esta discusso enquanto comemos.
"Porque o mordomo ouviria tudo", pensou Guilherme, um tanto aliviado.
 No entanto, quero que me prometa que vai pensar no que falamos.  Camila aceitou o brao que o neto lhe oferecia como apoio.
 Tem minha promessa, vov. Vou considerar essa idia com carinho, est bem?
Camila olhou-o nos olhos, percebendo que havia certa ironia naquelas palavras.
 Voltaremos a falar sobre isso, Guilherme Copeland. 
Guilherme percebeu, sem esforo, que ainda no estaria livre daquele tormento.


J se aproximava das trs horas, e os alunos que estavam presentes ao salo de conferncias comeavam a mostrar os primeiros sinais de impacincia. Ento, no meio do desenvolvimento de uma idia, o professor pareceu dar-se conta do adiantado da hora.
 Avaliao na semana que vem.  Fechou seus livros, que estavam sobre a mesa.  Depois do feriado de Ao de Graas.
Os estudantes comearam a se precipitar para a sada, num burburinho familiar a todos. Margheritte Griffin, porm, permaneceu em seu lugar, no canto esquerdo da sala, terminando suas anotaes e esperando que a maior parte dos colegas se retirasse. No gostava de multides e sabia que, dentro de dois ou trs minutos, poderia sair com tranqilidade.
No corredor, uma garota loira esperava por ela, trazendo os livros abraados junto ao peito. Passou a caminhar ao lado de Margheritte e quis saber:
 Tem tempo para tomar um caf comigo? Margheritte meneou a cabea.
 Precisarei entrar no servio daqui a uma hora, Ellen. Venha at minha casa comigo, se quiser, e ento conversaremos enquanto me troco.
 Est bem, eu vou.
 O que houve, Ellen? Est com problemas com seu namorado de novo?
 Dennis  sempre um grosseiro, voc sabe. Mas isso no  novidade. No posso acreditar que tenha arranjado esse outro emprego, Margheritte.
 Por que no? Sou esforada, e, dentro de um ms, estarei livre. Talvez, at, receba um aumento.
 Sei. E mais uma daquelas horrveis mquinas que cheiram a graxa.
 Bem, algum tem de lidar com as partes engraxadas dos carros, queridinha, ou seu lindo automvel vermelho no seria seu meio de transporte, mas sim um mero peso de papel.
Ellen procurava acelerar os passos para acompanhar a amiga.
 Mas por que esse algum tem de ser voc? Acho que, mesmo que ficasse com as mos mergulhadas em gua e sabo por um ano, no conseguiria tirar essas manchas da pele. No posso acreditar que ainda no tenha se demitido!
 Meu salrio  bom, e o horrio de trabalho  compatvel com minhas aulas. Alm do mais, o que eu iria fazer se no trabalhasse l? Ser garonete? Sinto muito, mas prefiro o cheiro de graxa ao de gordura de cozinha. Isso para no falar dos fregueses engraadinhos
Mesmo com o comentrio, Margheritte no pde evitar a comparao entre os clientes atirados e os trabalhadores da linha de produo. E Ellen pareceu ter lido sua mente:
 Os homens ainda a esto perturbando?
 H ocasies em que sim.  Margheritte tirou da bolsa as chaves do apartamento que ocupava, num poro no lado antigo daquele bairro.
 E por que ainda no os denunciou a seus chefes?  Ellen seguia Margheritte escada abaixo.
 Isso no adiantaria nada. Seria vista como encrenqueira, e no  o que quero. Pelo menos enquanto estiver cumprindo meu perodo de experincia. E depois, as coisas que eles me falam ou fazem no so to agressivas assim, do contrrio os supervisores j teriam percebido.
 Pois acho que deveria ir logo  diretoria e denunci-los, Margheritte.
 Claro. Deveria chegar ao escritrio de Guilherme Copeland e anunciar que ele tem um grupo de machistas revoltados em sua linha de produo. Tenho certeza de que Copeland me promoveria no mesmo instante em vice-presidente da firma e me colocaria como responsvel pelo treinamento para sensibilidade de funcionrios.
Margheritte girou a maaneta. O local parecia estar pior do que nunca, com as roupas de Kasey, a amiga com quem dividia as despesas, espalhadas por todos os cantos.Ellen olhou ao redor.
 Kasey anda saindo com algum policial? Devo dizer que isto aqui parece ter sido revistado numa batida daquelas!
Margheritte sorriu de leve.
 No sei nem se fico aborrecida. Os trajes esto espalhados sobre os mveis, mas acho que Kasey, pelo menos, tem mais bom gosto para se vestir do que o senhorio para a moblia
 Sabe de uma coisa? No entendo voc. Trabalha num lugar horrvel, estuda como uma louca, mora num buraco
 Ellen, por favor
 Mas  verdade! E detesto pensar que se esfora tanto para ter isto!
Margheritte notava que a indignao de Ellen era verdadeira. Mesmo porque havia lgrimas aparecendo aos montes em seus olhos.
  bom para o esprito que nos mantenhamos sempre ocupados, Ellen. E depois,  este o preo que tenho de pagar por no ter feito a faculdade na poca certa. Ganhei algum dinheiro ao parar de estudar para trabalhar mas foi um erro, mesmo assim. Margheritte ofereceu a ela uma caixa de lenos de papel.
 Talvez papai pudesse lhe emprestar algum
 Nem ouse pedir a ele, Ellen! Mesmo que possa me fazer um emprstimo, seu pai nada tem a ver com minha situao. Ademais, no vou pedir nada a ningum, a no ser que tenha alguma boa garantia para oferecer em troca. Olhe, querida, sei que tocou no assunto porque se importa mesmo comigo, mas ficar lembrando meus problemas no far com que eles desapaream, sabe? Apenas acabo me sentindo mais triste, e no quero ter autopiedade.
 Voc jamais seria capaz de sentir tal coisa.  Ellen fitou Margheritte, cheia de admirao.
 Que bom que ainda no d para perceber!  Margheritte brincou, tentando aliviar o clima que pairava sobre ambas. 
Foi at seu minsculo dormitrio, onde colocou a cala velha de brim e a camisa xadrez que costumava usar. Removeu a maquiagem, que, embora leve, iria desaparecer no calor da fbrica, e depois prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo no alto da cabea, pois temia que eles pudessem ficar presos nas engrenagens. 
Ento, olhando-se no espelho, tentou afastar da memria o que a conversa com Ellen fizera ressurgir. No era como se estivesse sendo forada a viver daquela maneira. Preferira sacrificar seu padro de vida e estar empregada num local do qual no gostava porque precisava pagar dvidas que contrara no passado. 
Dentro de mais dois anos estaria formada e muito mais qualificada para arranjar um emprego melhor em seu campo de atividade. No entanto, precisava de dinheiro tambm para os estudos, e tinha conscincia de que a situao estava cada vez mais complicada. Era necessrio economizar muito agora para poder pagar os ltimos estgios da faculdade, que eram os mais caros. Isso significava que teria de continuar lidando com as mquinas da Copeland Products por, pelo menos, mais dois anos.
Vinte e quatro meses de barulho ensurdecedor, de graxa e de servio duro. Vinte e quatro meses ao lado de rapazes que no estavam acostumados a ter mulheres como colegas e que eram, muitas vezes, bastante mal-educados. Seria preciso, at l, continuar chegando em casa quase  meia-noite, tendo de lidar com os afazeres domsticos inadiveis e dormindo muito pouco. Esse perodo iria durar uma eternidade, estava certa disso. Respirou fundo, ainda mirando seu reflexo, e procurou sorrir. Precisava viver dia aps dia, com calma e perseverana. E tudo passaria.


A Copeland Products era muito bem iluminada e barulhenta demais, uma vez que, mesmo durante as trocas de turnos, o maquinrio permanecia ligado. Ao passar pela fbrica em direo a seu supervisor, Margheritte j tinha colocado os protetores auditivos eletrnicos, que no eram muito confortveis, mas que diminuam sobremaneira os rudos que tanto mal causavam  sade, enquanto permitiam que a voz humana fosse ouvida com clareza. Margheritte, porm, no gostava muito daquela inveno tecnolgica. Seria melhor se usasse os tradicionais, que deixariam no vazio as vozes de seus colegas. Pelo menos de alguns deles, os quais no queria escutar. 
Chegou a seu posto com um minuto de antecedncia, e o homem que operara a mquina no turno do dia deu um passo para o lado, afastando-se.
 Ela est meio maluca hoje, Griffin  advertiu ele.  Fiz alguns ajustes, mas continuou atirando os rebites, ao contrrio de solt-los no encaixe correto. At pensei que, talvez, o ao que estamos usando no seja dos melhores e que o problema no esteja, de fato, na mquina.
Margheritte olhou para as correes que o homem fizera e, quando ele se afastou, puxou um banquinho alto, para que pudesse visualizar melhor as partes internas. Se ia ter de bancar a bab daquela coisa enorme, pelo menos queria estar confortvel para faz-lo. Um outro rapaz chamou-a e observou:
 Eu tambm gostaria de poder fazer isso sentado. 
Margheritte ergueu a cabea para v-lo. Quem estava ali no era o funcionrio que sempre gostava de tecer comentrios desagradveis. Devia ter sido substitudo por aquele que lhe falava agora. Sentiu-se aliviada, embora soubesse que aquele deveria ser um arranjo temporrio e que o outro iria estar de volta na noite seguinte.
Apesar do aviso do outro funcionrio, a mquina funcionou em perfeitas condies na primeira metade do turno. Margheritte colocava as peas necessrias ao alcance das engrenagens de maneira repetitiva, mecnica, pois sua ateno estava longe, no se afastara da palestra  qual estivera presente naquela tarde e na avaliao que faria na semana seguinte.
Faltavam poucos minutos para seu intervalo de descanso quando o maquinrio comeou a apresentar os problemas que o operrio descrevera. Assim, Margheritte diminuiu seu ritmo, tentando controlar seus movimentos. Em seguida, levantou o visor do capacete para ver melhor o que se passava. 
Estava abrindo a parte superior de uma das engrenagens quando o colega do lado sugeriu que coordenassem seus horrios de intervalo para poderem ir at seu carro e l terem uma atividade muito mais agradvel do que a que estavam tendo naquele momento
Margheritte ficou to surpresa e chocada com a objetividade com que ele descreveu o que pretendia que no pde evitar voltar-se para encar-lo. Naqueles poucos segundos, as fagulhas de metal incandescente produzidas dentro do motor vieram em sua direo, atingindo a parte lateral de seu pescoo.
Margheritte sentiu o calor muito antes da dor. Com a mo ainda envolta pelas grossas luvas de proteo tocou o local ferido, sentindo a pontada de dor se espalhar por seu corpo, numa intensidade cada vez maior.
O supervisor aproximou-se em alguns segundos Griffin!  chamou-a, entre contrariado e aflito.  amos completar um ms sem nenhum ferimento na seo, e agora voc acaba de estragar tudo!
O responsvel por tudo aquilo voltou-se de novo, agora fingindo uma bondade extrema:
 Foi bom eu ter acabado de perguntar sobre sua famlia, Griffin. Se no tivesse se voltado para mim, aquele pedao de metal teria atingido seu rosto em cheio!
Diante da dor que sentia e daquela hipocrisia toda, Margheritte nada conseguiu dizer.
 E por que abriu seu protetor, afinal?  o supervisor continuava a admoest-la.
Por trs de Margheritte veio uma voz grossa, que os fez se voltar:
 Senhores,  melhor tratarmos primeiro do machucado para depois averiguarmos as causas do ocorrido.
Margheritte j vira Guilherme Copeland antes, uma vez que ele andava pela linha de produo com freqncia, embora quase nunca naquele perodo. Entretanto, jamais estivera assim to prxima dele.
Notava agora que Guilherme Copeland era bem mais alto do que lhe parecera antes. Ou talvez fosse o palet que usava e que o fazia parecer maior e ter ombros to largos. Era estranho, mas os olhos dele mostravam ter a mesma cor do ao que ela manuseava todos os dias, embora no parecessem to frios. Sua expresso era severa, apesar de no se poder negar que havia amabilidade nela. 
Foi ento que Margheritte percebeu algo muito estranho: o cheiro de leo naquele ambiente era to forte que sabia que jamais conseguiria sentir outro odor enquanto estivesse ali dentro. Contudo, mesmo a alguns passos de distncia de Copeland, era-lhe possvel sentir o perfume da colnia que ele usava.
  melhor ir at a enfermaria agora mesmo, sem perda de tempo. Precisa tratar dessa queimadura. Na verdade, eu mesmo irei at l com voc.
Margheritte gostaria de ter dito que iria sozinha, que no precisava ser levada como alguma espcie de pacote ou encomenda, mas algo a fez calar-se e aceitar com mansido a companhia do dono da empresa.
Assim que se afastaram das mquinas e o barulho forte foi ficando para trs, Margheritte retirou os protetores eletrnicos. A ala comercial aparecia diante deles, seu silncio era tamanho que parecia machucar os tmpanos tanto quanto o rudo infernal de at ento.
 Nem mesmo sei onde fica a enfermaria  Margheritte comentou, sentindo-se um pouco tonta.
 Se essa  sua maneira de me falar que no est acostumada a se ferir no servio, no precisa se importar em esclarecer nada.  Guilherme esboou um meio sorriso.  Se isso fosse um hbito seu, eu decerto j saberia.
 No, no  nada disso!  apressou-se a explicar.  o que quero dizer  que a nica vez em que estive neste setor da Copeland foi no dia em que me contrataram.
 E quando foi isso?
 H dois meses.
Margheritte imaginava se, tal qual ela, seu patro estaria imaginando que ainda faltava um ms de experincia a ser completado. Desse modo, talvez ponderasse que operrios que no se do bem com as mquinas ou que se ferem muito tm grandes chances de serem demitidos nesse nterim. Sentia-se pssima. No s quebrara o recorde da seo quanto a acidentes de trabalho como o fizera diante do dono da empresa! No contente, acabara de demonstrar o quanto era inexperiente.
Uma senhora vestida de branco saiu de uma porta ao final do corredor.
 O supervisor interfonou, avisando que estavam a caminho, sr. Copeland. Vamos dar uma olhada nesse ferimento.  Observando a queimadura de perto, a senhora pde constatar melhor sua gravidade.  Segundo grau Bem, no  muito grande, mas precisa ser muito bem tratada. Vai doer bastante durante algumas semanas, e talvez deixe uma cicatriz. Entre, querida. Limparei a rea e cuidarei disso bem depressa para que no piore.
Ao entrar na enfermaria, a ligeira tontura de Margheritte piorou, fazendo-a cambalear. Guilherme logo a amparou, ajudando-a a aprumar-se.
 Esses sapatos pesados tambm no colaboram muito, no ?
Margheritte queria sorrir, mas estava sentindo muita dor.
 Desculpe-me, no sei como me senti to fraca de repente. Quanto aos sapatos no me importo de us-los. Acredite em mim quando digo que posso operar as mquinas, sr. Copeland
Ele percebia o medo que Margheritte tinha de ser demitida. Recostou-se a um dos armrios e comentou, com a maior naturalidade:
 Achei que iria falar disso.
A enfermeira aproximou-se, interrompendo-o por alguns instantes.  Vou colocar um antiinflamatrio e um medicamento contra bactrias. Doer um pouco.
A dor aguda que a encheu fez Margheritte chorar. Guilherme Copeland abriu um dos armrios e espiou dentro dele. Se ele estava agindo assim para deix-la mais  vontade enquanto chorava, ela agradecia pela gentileza.
 Ainda tem anticidos por aqui, Nadine?
 Na gaveta da direita, sr. Copeland  informou, sem deixar de cuidar de Margheritte com percia e agilidade.
Guilherme achou as pastilhas e colocou trs delas na palma da mo.
 Sinto muito se estou fazendo seu estmago revirar, senhor.
 No que se refere a minha azia, senhorita, posso garantir que no  preo para minha av. A propsito, como  seu nome?
Mais uma vez, Margheritte se culpava por chamar a ateno dele sobre si mesma.
 Griffin.Pronto! Agora Guilherme Copeland nunca mais esquecer meu nome"
 Poderia me contar o que, exatamente, aconteceu na produo, srta. Griffin?  pediu ele, soando mais incisivo do que tencionara.
Margheritte procurou explicar da melhor forma possvel o que vira de errado no motor. Enquanto isso, Nadine terminava seu servio impecvel, colocando uma atadura sobre o machucado. Depois, ps alguns analgsicos num envelope e entregou-o a Margheritte, dizendo-lhe que deveria voltar  enfermaria dali a dois ou trs dias para que ela averiguasse o progresso da cura.
Margheritte agradeceu, pegou seus protetores de ouvido, suas luvas e levantou-se, esforando-se por manter o equilbrio que a dor forte quase lhe tirara minutos atrs. Afinal, fora apenas vtima de uma queimadura pequena, e precisava voltar ao servio.
Guilherme Copeland acompanhou-a pelo corredor, mais uma vez. Margheritte no o fitava. Por fim, achou melhor dizer algo:
 Foi muito gentil ter ficado comigo, sr. Copeland. Obrigada.
 Na verdade, sou eu quem deve agradecer, senhorita. J tinha esgotado todas as minhas desculpas por ficar trabalhando at tarde, e agora voc me forneceu mais uma.
Margheritte no compreendeu. Por que ele precisaria de motivos para ficar em sua fbrica at mais tarde? Por que no queria voltar para casa mais cedo?
Caminharam juntos at a produo. L, o supervisor verificava as condies do equipamento de Margheritte.
 Demorou  repreendeu-a assim que a viu de volta.  No parece haver nada de errado com isto aqui, portanto, a menos que me d uma boa razo para no coloc-la no relatrio de descuido em servio, Griffin
Margheritte baixou a cabea, pensativa. Sabia que, de fato, fora descuidada. Tivera culpa.
 Se no tem nada a dizer, volte ao trabalho  ordenou o supervisor.
Por trs de Margheritte, a pouca distncia, Guilherme interferiu:
 No vai haver nenhum relatrio sobre o que houve. Essa mquina vai receber uma etiqueta de "fora de servio" e ser levada para maiores averiguaes. Est fora da linha. E, j que est, a partir de agora, sem mquina para trabalhar, a srta. Griffin no voltar  lida esta noite, mas ir para casa. Agora.
O supervisor entreabriu os lbios, sem saber o que dizer. O funcionrio ao lado, voltou a seu servio torcendo a boca, em desagrado. 
Margheritte se manteve calada. Estava certa de que no precisava argumentar, e fraca e dolorida demais para isso. Pegou seu casaco e a bolsa e, sem olhar para ningum, deixou a produo, seguindo Guilherme Copeland at a rua. J estava na calada quando ouviu:
 Acredito que no tenha, um carro.
 O nibus no demora, sr. Copeland.  E, segundos depois, no se conteve: 
 Eu preferia que no tivesse feito aquilo, senhor.
 A que se refere?
 A tudo. Porque vai haver muitos comentrios.
 Sobre o qu, senhorita?
 E bvio que no conhece muito bem os funcionrios daquela ala.
Margheritte ainda sentia muita dor, em especial quando falava. E no sabia se devia ou no alert-lo de que os homens de sua seo fariam brincadeiras maliciosas sobre os dois. Ademais, era tarde para poder salvar o emprego que parecia estar lhe escapando por entre os dedos.
 No faz mal. Olhe, detesto parecer avarenta ou coisa parecida, mas serei descontada por estar saindo mais cedo hoje?
 Se no  sua culpa, no,  bvio. Venha, vou lev-la at sua residncia. No me parece muito inteligente ficar esperando por um nibus num frio destes.
Guilherme se voltou e comeou a caminhar, sem ao menos voltar-se para ver se Margheritte o acompanhava. E ela o fez, como num reflexo muito forte e inexplicvel. Quando viu o automvel elegante e discreto, lembrou-se do comentrio que ele fizera e, sem querer, murmurou:
  por causa da av.
 O qu?  Guilherme abriu a porta.
 Ah, desculpe,  que imaginei que sua av talvez achasse mais fcil entrar num veculo assim. No poderia ser esportivo, desses rebaixados.
Guilherme estudou-a durante alguns segundos, pensativo.
 No conhece minha av, conhece?
 Claro que no.
 Bem, onde mora?
Margheritte explicou-lhe o caminho, imaginando se no seria melhor dizer-lhe para que a deixasse no campus. Depois, ponderando melhor, decidiu que no faria diferena para Guilherme Copeland onde e de que maneira ela vivia.
Guilherme estacionou junto ao meio-fio, observando o aspecto horrvel das casas daquela rua.
 Esperarei at que entre.
 No precisa, senhor. Estou acostumada a andar dois quarteires, todas as noites, e num horrio muito pior do que este.
Mesmo assim, Guilherme aguardou at ver que uma luz se acendia no poro de uma das residncias velhas. Ento, recostou-se ao banco de couro, e um leve sorriso aflorou em seus lbios. "Ela  perfeita!"


Assim que chegou  fbrica no dia seguinte, Margheritte soube que a situao seria ainda pior do que pensara. Olhares esquivos, sorrisos maldosos, cochichos
Na sala em que guardava suas coisas, ouviu muitas indelicadezas.
 O patro a levou  enfermaria  dizia um. 
 E depois para casa  completava outro. 
 Ser que passou a noite l?
 No, ele no fez isso!  respondeu Margheritte, sem suportar mais aquele tipo de atitude.
 Claro que no! Copeland nem precisaria ficar tanto tempoE todos caram na risada.
Aborrecida, Margheritte pegou seus protetores de ouvido e seu equipamento, e j estava saindo dali em direo  produo, quando uma senhora de culos interpelou-a:
 Voc  a srta. Griffin?
 Devo admitir que sim.
A mulher no pareceu abalar-se com a resposta incomum, e prosseguiu:
 Ento, queira acompanhar-me, sim? Sou a secretria particular do sr. Copeland, e ele deseja falar-lhe agora mesmo.
Naquele momento, Margheritte teve certeza de que seu emprego estava perdido. No se importou, porm. Tinha certas coisas que tambm gostaria de dizer a seu patro.
Seguiram as duas, em silncio, at um local que Margheritte desconhecia. Quanto mais avanavam, mais amplos e luxuosos se tornavam os ambientes. Mais carpetes, papis de parede finssimos, moblia cara E cada pessoa pela qual passavam parecia ainda mais aturdida com a presena de ambas.
Margheritte percebia que o contraste entre ela e sua acompanhante deveria ser chocante para todos ali. Uma usava as roupas apropriadas para o trabalho duro nas mquinas, enquanto a secretria se mostrava trajada com muita elegncia.
Quando, afinal, alcanaram um lugar distante o suficiente para que os motores no pudessem ser ouvidos, a secretria parou diante de uma porta de carvalho e bateu de leve antes de abri-la, indagando:
 Sr. Copeland, a srta. Griffin est aqui. 
Margheritte foi conduzida a um enorme escritrio muito bem decorado, e logo viu Guilherme, que levantava-se devagar por trs da escrivaninha antiga, em estilo clssico. Mais uma vez Margheritte notou-lhe a elevada estatura e, ao mesmo tempo, achou que tal constatao era ridcula em vista da situao que estava prestes a enfrentar ali.
 Sente-se.  Guilherme apontou para duas poltronas que ficavam diante de uma imponente lareira, a um cantos.  Gostaria de ter uma conversa com voc.
Em silncio, Margheritte obedeceu, mas sentou-se, de propsito, sem o menor refinamento. Tambm queria deixar s claras algumas coisas quele homem, embora sua figura grande e imponente inspirasse respeito. Achou que Guilherme Copeland fosse repreend-la por causa do delicado tecido de seda que cobria as poltronas, mas ele apenas sorriu e comeou, gentil:
 Na verdade, quero fazer-lhe uma pergunta.  Acomodou-se tambm, diante dela, ajeitou o vinco impecvel da cala e recostou-se de maneira mais confortvel, antes de continuar: 
 Srta. Griffin, o que acha da idia de ser minha noiva por algum tempo?



CAPTULO II


O olhar de Guilherme Copeland era to firme, seu sorriso to sincero e sua voz to direta e clara que, por alguns segundos, Margheritte no soube o que pensar.
No mnimo, aquele homem deveria estar louco. Como lidar com uma situao assim? Deveria rir da brincadeira? Deveria tentar faz-lo ver que aquilo que propunha era absurdo? Poderia sair correndo e nunca mais voltar? Afinal, o que estava acontecendo?!
 Noiva  conseguiu murmurar.  Decerto, no est se referindo a o que se costuma fazer antes de um casamento.
 Para ser franco,  exatamente a isso que me refiro, mas sem que precisemos nos casar. Alis, este  o ponto a que quero chegar.
Margheritte meneou a cabea, sem entender.
 Poderia explicar-se melhor, por favor?  Antes, porm, resolveu pedir: 
 Teria alguma cafeteira por aqui? Acho que vou precisar de um gole de caf
Guilherme sorriu.  Louise poder providenciar isso em alguns minutos. Quer acar ou adoante?
 Acar, obrigada.
Guilherme foi at a porta e chamou pela secretria. Ao v-lo de costas, Margheritte deu asas  imaginao. Ela sentia uma vontade imensa de escapar dali, mas algo dentro de seu peito parecia avis-la de que, caso fosse possvel faz-lo, passaria o resto de sua vida arrependendo-se, querendo ter ouvido o que havia de to interessante na proposta que Guilherme Copeland iria lhe fazer.
Sim, porque, com certeza, a indagao que ele lhe fizera havia pouco era, no mnimo, intrigante.
Guilherme retornou trazendo duas canecas fumegantes, nas quais se podia ver o logotipo da empresa.
 Bem, vou explicar melhor minha pergunta, senhorita.  Ele tornou a sentar-se.  Direi o comeo de tudo: h pouco mais de um ano, minha mulher sofreu um acidente com seu carro, numa rua coberta de gelo, e faleceu. Nossa filhinha, Annebelle, tinha menos de dois meses quando tudo aconteceu. Annebelle agora  muito bem cuidada por uma enfermeira. Alm disso, minha av mudou-se para nossa casa para administr-la melhor.
Guilherme fez uma pequena pausa para beber um gole.
 Na verdade, senhorita, esse est sendo o maior problema. Vov est convencida de que devo me casar outra vez para que Annebelle volte a ter uma famlia. E ela  bastante insistente quanto a isso
Margheritte encarou-o por alguns segundos, antes de dizer o que achava:
 Sr. Copeland, quer mesmo que eu acredite que, com uma empresa deste tamanho e com tanto poder de deciso quanto o que demonstra ter aqui, no consegue dizer a sua av para que ela cuide da prpria vida e o deixe cuidar da sua?
 Ora, mas eu j a fiz entender isso! Porm, vov  muito persistente. A ltima ocasio em que falamos sobre o assunto foi h trs semanas, mais ou menos. E, desde ento, no acho que minha residncia seja um lugar muito digamos seguro para que eu possa ficar em paz. Ser que me entende?
 Sua av ficou zangada?
 No. Longe disso. Vov est determinada e acabou fazendo de minha casa um centro de reunies sociais. E o interessante desses eventos  que ela apenas convida suas amigas solteiras, com menos de trinta anos e bastante atraentes. Se resolvo ir para l mais cedo, para brincar por alguns minutos com minha filha, acabo encontrando alguma dessas amiguinhas de minha av e sou obrigado a ficar em sua companhia.
  por isso que esteve aqui at to tarde ontem?
 Isso mesmo. Voltei para casa cedo, mas vi que havia uma moa loira conversando com vov. Ento, girei nos calcanhares de novo, antes que me vissem.
Ento, as palavras de Guilherme na vspera comearam a fazer sentido. Margheritte compreendia o problema dele.
 Como v, estou numa situao bastante delicada, senhorita. No posso entrar em meu prprio lar sem ser oferecido numa bandeja a uma mulher que mal conheo. No entanto, desejo muito partilhar momentos que so preciosos com minha filhinha.
 J pensou em mandar sua av embora e dizer-lhe que receba suas amigas longe de suas vistas?
Guilherme riu, mas no com muito humor.
 Voc, de fato, no a conhece, Margheritte. O que preciso fazer  dar-lhe aquilo que tanto quer.
 Acho que no estou entendendo. Vai se casar para evitar que sua av continue tramando para que se case?
 No. Vou apresentar a vov a jovem que escolhi para ser a futura madrasta de Annebelle.
 Continuo confusa.
 Voc  perfeita para o papel. Minha av vai odi-la. 
Margheritte fitou-o, muito sria.
 Porque sou muito diferente das outras que ela costuma escolher?
 Exato. Na verdade, vov vai ficar horrorizada.
Margheritte quase conseguia visualizar a velhinha enfurecida por Guilherme ter encontrado algum que fugia a seus padres.
 E ento, depois de algum tempo de farsa, voc desmanchar o noivado.
 Acertou de novo, senhorita. E vov vai ficar to aliviada, que
 se sentir animada a recomear a luta. No vejo como pode imaginar que v conseguir alguma coisa com essa fantasia, sr. Copeland.
 No, ela no vai recomear tudo de novo, porque, assim que perceber at onde sou capaz de ir, no mais se atrever a me pressionar.
 Est me dizendo que contar a ela que tudo no passou de uma trama?
  evidente que no! Vov tem de acreditar que tudo foi real, ou toda a operao no valer de nada. Isso significa,  claro, que dever ser voc a romper o compromisso.
 Sei, sei. Vou deix-lo com o corao partido E isso lhe daria algum tempo, certo?
Guilherme ergueu as sobrancelhas, numa expresso de apoio a tais afirmaes.
Margheritte pensava. Afinal, ele no lhe pedira que criticasse seu plano, apenas que o ajudasse a lev-lo a cabo. Cruzou os braos, imaginando o que o futuro lhe guardava.
 E o que vou ganhar com isso, sr. Copeland? Porque, se me disser que meu emprego estar em jogo caso aceite ou no, eu
Guilherme pareceu chocado diante de tal possibilidade.
 Imagine! Isso seria assdio sexual!
 Ah! Que bom saber que algum nesta firma, enfim, entende o que esse termo significa!  desabafou, quase sem sentir.  Desse modo, o est me oferecendo, sr. Copeland?
 O que tem em mente?  ele rebateu. Margheritte terminou seu caf com calma, colocou a caneca sobre a mesa de centro e disse, fria:
 Dinheiro,  claro.
De repente, os olhos dele se tornaram cinzentos como uma tarde de inverno. Afinal, o que esperava, perguntou-se Margheritte, um tanto divertida. Sentia que Guilherme a via como algum ignorante, sem escolaridade, incapaz de freqentar ambientes mais sofisticados. Por que no poderia ser tambm interesseira?
 E h de ser bastante.  Encarou-o, desafiadora, citando uma cifra bastante alta, que o fez engolir em seco e comentar apenas:
 , sem dvida, mais do que imaginei.
Margheritte no se sentia nem um pouco  vontade com aquela situao, mas a proposta que lhe fora feita no parecia muito honesta, tampouco. Por que no pedir que lhe pagasse bem pelo papel que teria de representar? Guilherme Copeland era muito rico, podia se dar ao luxo de ser generoso.
Algo dentro dela, porm, fazia-a vacilar. No era do tipo de pessoa que tirava vantagem de tudo. Seus princpios morais falavam sempre mais alto. Ento, uma idia lhe ocorreu, e apressou-se em exp-la:
 Digamos que seria uma espcie de emprstimo sem juros que estaria me fazendo, sr. Copeland. E que, dentro de mais ou menos trs anos, eu possa comear a lhe pagar.
 Trs anos? Bem  Guilherme parecia no acreditar no que ouvia.  E por que deveramos esperar esse tempo todo? Para que precisa desse emprstimo?
Margheritte deu de ombros.
 No acho que seja de seu interesse o modo como vou gastar essa importncia. Se tem medo de que no lhe devolva, acho que vai ter de confiar em meu carter. No me parece ter outra escolha.  Sorriu, com suavidade.  E lgico que, se os termos no lhe agradam, podemos encerrar este assunto agora mesmo.
Guilherme permaneceu em silncio por longos minutos, o que a levou a imaginar que pudesse ter ido longe demais. Fosse como fosse, no deveria ter desperdiado aquela oportunidade. Jogara e perdera, ao que parecia, e no tinha por que sentir-se desapontada, no estava pior agora do que quando entrara naquela sala.
De repente, Guilherme estendeu-lhe a mo direita.
 Negcio fechado.
Margheritte mal podia crer. Estava contente e aliviada, mas um pouco temerosa com a nova tarefa que a aguardava.
 Quero que comecemos de imediato, srta. Griffin. Contarei a novidade a minha av esta noite, e voc poder jantar conosco amanh, para conhec-la. s sete e trinta.
Margheritte, meneando a cabea, interrompeu-o:
 No posso, lembra-se? Trabalho no turno da noite, na produo.
Guilherme ergueu as sobrancelhas.
 Achei que, com todo o dinheiro que vai receber, iria deixar o trabalho aqui na fbrica.
Ela poderia, com certeza, j que a quantia seria suficiente para pagar o que devia, bem como seus estudos atuais, alm de mant-la sem muito luxo at o fim da faculdade. No precisaria mais enfrentar seus desagradveis colegas, as mquinas perigosas, o nibus tarde da noite
Por outro lado, no possua garantia alguma de que colocaria mesmo as mos no dinheiro de seu patro. Isso iria depender por completo do sucesso do plano, portanto, era melhor no abandonar a segurana de seu pagamento a cada final de ms. Com ele tambm conseguiria saldar as dvidas, embora muito devagar.
 Acho que continuarei trabalhando aqui mais um pouco. Guilherme respirou fundo, mas no argumentou.
 Est certo. Combinamos para o almoo, ento. 
Margheritte refletiu. O dia seguinte seria quarta-feira, vspera de Ao de Graas, e todas as aulas da tarde tinham sido canceladas.
 A uma hora?  sugeriu.
 timo. Eu a pegarei em casa, ento.  Guilherme levantou-se, como que dispensando-a.
Margheritte, no entanto, permaneceu sentada.
 Como devo me vestir para enfrentar sua av? O olhar dele passeou, devagar, por todo seu corpo.
 Que tal seu macaco e os sapatos pesados? Depois do almoo, eu a trarei at aqui.
 No acha que isso seria um tanto bvio, senhor? Achei que eu devesse me pintar e me arrumar toda com um traje social ou coisa parecida.
Guilherme achou graa. Era a primeira vez que Margheritte o via sorrir daquele jeito, e isso pareceu deixar o rosto dele mais bonito.
Mas era melhor no perder tempo com tais observaes, j que Guilherme acabara de contrat-la para um servio, e no receberia o pagamento em sorrisos
Assim que Margheritte se foi, Guilherme chamou Louise.
 Mande isto para o departamento de pessoal  ordenou, entregando o arquivo de Margheritte.  E, por favor, ligue para minha av e diga-lhe que quero conversar a ss com ela esta noite. Portanto, seria melhor se no houvesse nenhuma noiva em perspectiva em minha residncia.
Um leve sorriso surgiu nos lbios muito bem pintados da secretria.
 Devo dizer exatamente isso?  Louise perguntou e saiu, sem esperar, uma resposta.
Guilherme puxou sua cadeira mais para trs e apoiou os ps sobre a mesa, olhando, atravs da vidraa, para fora do prdio.
Tudo parecia estar indo muito bem at o momento. No podia ter escolhido uma garota melhor para o papel. Margheritte era esperta, tinha sempre boas respostas na ponta da lngua, no fazia muita questo de ser gentil e parecia no ter tato algum, qualidades estas que garantiriam o espanto e o total repdio de Camila Copeland.
E Margheritte era tambm muito bonita. No linda como as mulheres que Camila costumava escolher para seu propsito mais imediato de casar o neto. Mas, mesmo com as roupas simples que usava para trabalhar, Margheritte era bastante atraente. Alta, magra, com as curvas nos lugares certos e grandes olhos castanhos. Alm,  claro, do delicado queixo sempre altivo, dos cabelos ondulados, suaves, de cor natural.
Na verdade, a primeira idia que ocorreria a Camila seria: "Como essa garota to comum conseguiu chamar a ateno de Guilherme?" 
Havia certas moas, Guilherme ponderava, que sua av jamais acreditaria que tivessem sido capazes de faz-lo voltar-se para um segundo olhar. Margheritte no era uma delas. No entanto, assim que Camila se visse diante daquela boca pequena, das frases agudas, da falta de verniz
E Margheritte iria manter seu emprego tambm, assim como ele esperava que fizesse. E a idia de ter uma neta que trabalhasse no turno da noite da produo iria deixar Camila roxa de raiva e vergonha. Guilherme sentia-se cada vez mais seguro de que fizera a escolha certa. Margheritte era mais que adequada. 
Levantou-se, pegou o palet que deixara pendurado num cabideiro ao lado e preparou-se para sair. Louise j deveria ter feito a ligao que pedira, assim, j podia ir para casa, brincar com sua filhinha e alvoroar sua av com a novidade. Para ser franco, estava ansioso por fazer isso.


Todos naquela parte da fbrica sabiam que Margheritte estava atrasada naquele dia porque havia sido convocada pelo patro. E, como Margheritte no podia contar a eles o que conversara com Guilherme Copeland, o melhor era ficar calada e suportar os comentrios que a acompanhavam conforme caminhava.
E, mesmo quando no respondia, as observaes ficavam mais sugestivas e desagradveis, mas nenhuma delas foi cruel. Ademais, se antes esperava estar livre daquela gente em dois anos, agora tinha o nimo renovado, com a perspectiva de deixar a Copeland dentro de muito menos tempo, ao ser to bem remunerada pelo que iria fazer.
Esquecera-se de perguntar a seu patro por quanto tempo ele pretendia levar a mentira adiante, mas tinha certeza de que no seria por vinte e quatro meses. E, assim que tudo terminasse, teria dinheiro bastante para resolver todos os seus problemas. Poderia dedicar-se de corpo e alma a seus estudos, sem o peso de tanto esforo, que a esperava todas as noites.
Precisaria devolver todo o dinheiro,  claro, e o faria, no importava como. Sentira que Guilherme Copeland no acreditara nessa sua inteno, mas Margheritte agora encarava aquele emprstimo como se tivesse sido feito de um banco. Imaginava-se no futuro, j acertando as contas com Guilherme ao mesmo tempo que teria um outro emprego, do qual gostasse muito. Visualizava a expresso de Guilherme ao ser ressarcido, mal podendo crer que Margheritte falara srio quando lhe prometera devolver cada centavo. 
E assim, o tempo foi passando sem que notasse. Deu-se conta, de repente, de que, embora o barulho das mquinas continuasse, as vozes j se haviam calado. Era estranho, porque, quase  meia-noite, as pessoas costumavam fazer ainda mais rudo, animadas, na troca de turnos, com a perspectiva de estarem voltando para seus lares.
Margheritte olhou ao redor, buscando uma explicao para aquele silncio incomum, e quase teve de sufocar uma imprecao ao ver Guilherme Copeland caminhando em sua direo, as mos enfiadas nos bolsos da cala elegante. Ela voltou-se para seu equipamento, ignorando-o de propsito.
 Tem alguma idia dos problemas que me causa com o pessoal daqui cada vez que chega perto de mim?  indagou, ainda sem olhar para ele.
Guilherme deu de ombros.
 Vim apenas para lev-la embora e para dar-lhe isto.  Ele tirou uma caixinha de veludo do bolso do palet e abriu-a, estendendo o brao em direo a Margheritte.
Era um belssimo anel de brilhante. Os funcionrios mais prximos esticaram os pescoos para poderem ver melhor o que se passava.
 Por favor, diga que isto  zircnio, e no um diamante.  Margheritte sentiu um aperto inexplicvel no peito.
 E de que adiantaria mentir?  Havia um meio sorriso nos lbios de Guilherme.  Alm do mais, o joalheiro que acabou de me vend-lo no ficaria nem um pouco lisonjeado se eu dissesse tal coisa.
 E onde encontrou uma joalheria aberta a esta hora da noite?  Margheritte surpreendeu-se.  Bem, pensando melhor, nem quero saber.
 Na verdade, ele j estava em casa, assistindo a seu esporte preferido pela tev, mas, quando falei o que desejava, no fez objeo nenhuma em me encontrar na loja em poucos minutos. No gostou? Eu a teria levado para escolher, mas acho que minha av acabaria fazendo indagaes demais se voc no estivesse usando um anel amanh.
Margheritte encarou-o. No parecia estar vivendo algo real.
 Se gostei ou no, no interessa. Precisava ter comprado uma pedra assim to grande?
 Vov desconfiaria se eu no o tivesse feito.
E claro que Guilherme fazia tudo para convencer a av, mas Margheritte no conseguia entender a parte em que ele falara em considerar seu gosto na escolha da jia.
 E por que, afinal, trouxe isto aqui?
 Por que no? Achou que nosso noivado iria permanecer em segredo?
Margheritte observou os companheiros, e avistou mais de uma centena de olhos cravados nela, com crescente interesse. , parece que no
Agora que j contei a novidade a vov, ela vai se espalhar como fogo em palha seca.
Era tarde demais para voltar atrs, Margheritte concluiu.  E contar a ela foi to divertido quanto esperava?
Guilherme fitou-a por alguns segundos antes de responder:
 Para falar a verdade, foi, sim. Bem, vamos sair daqui, e lhe contarei tudo em detalhes.
Margheritte teria adorado pedir-lhe que a esperasse no carro, mas o colega que a renderia no servio j estava parado ao lado da mquina, com a boca entreaberta, absorvendo cada segundo daquela cena. Ento, Margheritte preferiu apanhar suas coisas e pegar o casaco.
Guilherme deixara o automvel diante da placa de "No Estacione", em frente  sada da fbrica.
 Vov perdeu a fala  dizia ele, conforme abria a porta para Margheritte.  Eu disse a ela, durante o jantar, que tinha encontrado a mulher de meus sonhos e, aos poucos, vov pareceu despertar do torpor em que ficou a princpio.
 Que bom! Seria terrvel para voc ter de viver com um ataque do corao na conscincia, no? A propsito, tem conscincia, no tem, sr. Copeland?
Mas Guilherme no pareceu escutar. Continuou falando, enquanto colocava o veculo em movimento:
 Vov quer que o almoo se d no Frango ao Vinho. Disse que  o nico restaurante na cidade digno de preparar uma comemorao de um noivado.
 Sr. Copeland, para ser sincera, no estou disposta a ir a um estabelecimento luxuoso sem um vestido apropriado e
 No acha que j deveria estar me chamando de Guilherme? De qualquer modo, no tem com que se preocupar. Falei a vov que voc preferia ir at nossa casa para almoar e para passar algum tempo com Annebelle. E, como minha av est um tanto preocupada com o fato de voc no conhecer minha filha muito bem
 Muito bem?! Jamais a vi!
 Eu a trouxe ao escritrio algumas vezes para exibi-la Coisas de pai-coruja. No a viu?
 No me recordo de nada disso. E, olhe, espero que s haja uma criana presente amanh, porque eu detestaria pegar outra por engano e sair brincando com ela.
 Pois, se tiver alguma dvida, procure pelos mais belos e maiores olhos castanhos que puder encontrar, e no se enganar. Bem, agora que acertamos tudo quanto ao encontro e Annebelle, ser que h algo mais que precisamos acertar?
 Sim. Quanto tempo espera que essa farsa dure?
 Por qu? Est ansiosa para receber seu dinheiro? Vejamos estamos no meio de novembro. O que acha do Natal?
 Encantador. Sua av vai adorar seu presente deste ano: no contar comigo como sua futura neta.
 Isso mesmo. E no ter sequer de embrulhar o presente  Guilherme acrescentou, alegre.  Ah, me lembrei de outro detalhe: precisamos coordenar nossas histrias.
 E sua av vai procurar pelos detalhes, no vai?
 Embora vov no costume ser muito intrometida, nunca se sabe. Entretanto poderemos passar por cima de algumas coisas. S o que disse a ela at agora  que voc trabalha na Copeland Products e que nos conhecemos l.
 E como reagiu a isso? A meu emprego, quero dizer.
 No revelei em que setor voc trabalha. Achei melhor deixar para amanh.
 Que tal se mantiver toda a graxa em minhas mos at l? Assim no ter de dizer quase nada
Guilherme olhou-a com certa tristeza.
 Fui grosseiro demais quando lhe pedi para usar suas roupas de operria, no ? Olhe, quero apenas que se sinta  vontade. Fique o mais perto possvel da realidade. Sempre achei que assim seria mais seguro. Voc age, e eu a sigo, certo?
 Segue e pega os pedaos, no ?  Margheritte acrescentou, um tanto amarga.
Quando j chegavam diante de seu prdio, voltou a falar:
 Obrigada pela carona. Assim vou ter mais tempo para passar alvejante nos cabelos e pintar minhas unhas de verde.
Margheritte saiu logo do carro, sem esperar para ver se Guilherme iria ou no responder a tal farpa de ironia.


O apartamento no tinha campainha, ento Guilherme apenas bateu  porta, observando os pequenos pedaos de tinta seca que caam conforme o fazia.
Quando Margheritte abriu, j vestia o casaco, e isso o fez sentir uma certa ansiedade. Haviam ambos feito brincadeiras bobas sobre a maneira como Margheritte deveria se vestir, mas, embora seus cabelos estivessem um tanto mais claros agora, ela, com certeza, no os alvejara.
 Poderia t-lo esperado do lado de fora, mas achei que este anel no combinava muito bem com a vizinhana  Moveu a mo direita para indicar as casas de pssima aparncia ao redor.
 O que houve com o esmalte verde?  Guilherme brincou, notando suas unhas limpas e bem-cuidadas. No entanto, parecia um tanto aliviado por no ver nenhuma tonalidade estranha nelas.
 Sinto desapont-lo, mas minha colega de quarto acabou com o vidrinho ontem, antes de eu chegar. No entanto, me emprestou a roupa, para compensar o que fez.
J se encaminhavam para o automvel quando Margheritte comentou, mais para ter o que dizer do que pelo significado das palavras:
 Estou surpresa por no ter trazido sua av para ver onde moro. Ou est reservando isso para o caso de precisar nocaute-la mais tarde?
Guilherme percebia que Margheritte estava tensa. Mesmo uma mulher que soubesse o que a esperava estaria nervosa diante de um encontro com Camila Copeland.
 Por que reside aqui, afinal, Margheritte? Sei que no lhe pago uma fortuna, pelo menos no ainda, mas sei que seu salrio  razovel.
 Porque os dois bairros mais elegantes da cidade estavam sem casas para alugar quando decidi me mudar para c. A zombaria era, parecia bvio, um modo de no dizer-lhe seus motivos, Guilherme notou. 
Margheritte, com certeza, no se orgulhava do local em que morava. Devia ter dvidas. No fosse por isso, no lhe teria pedido aquela quantia enorme de dinheiro pelo "servio".
Isso, contudo, no somava pontos a favor de sua determinao em pagar cada centavo, como dissera que iria fazer Mas tal fato no importava, j que Guilherme no levara a srio essa promessa.
Considerando-se as diferenas regionais, a distncia no era to grande assim entre a rua pobre onde ficava o edifcio de Margheritte e a imensa manso vitoriana que os Copeland ocupavam havia geraes, por mais de cem anos.
Guilherme estacionou diante da entrada principal, na elegante curva do jardim, e voltou-se para ver a reao de Margheritte. Tudo que pde ver foi sua nuca, onde os cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo, pois Margheritte olhava pela janela, quase engasgada diante de tanto esplendor.
Saindo do veculo, Guilherme foi at o outro lado, para abrir-lhe a porta.
 Um tanto impressionante, no? Eu mesmo acabo me esquecendo disso, mas lembro quando fico fora por alguns dias.
Por instantes, Guilherme achou que ela no o ouvira. E, mesmo quando Margheritte conseguiu desviar a ateno da construo e encar-lo, ainda parecia extasiada.
  incrvel!
A ansiedade que o acompanhara desde aquela manh pronunciou-se mais. No s porque Margheritte ia encontrar sua av, mas tambm porque temia pelo que pudesse acontecer quando ambas estivessem frente a frente. Receava que a garota altiva e esperta que contratara acabasse se tornando um fracasso logo no primeiro teste.
Tocou-lhe o brao, com suavidade, imaginando se Camila poderia estar a observ-los por trs de alguma vidraa.
 Ora, vamos, no fique to deslumbrada! E no tenha receio de nada. Procure ser voc mesma.
 Ser que posso tomar isso como um elogio? "timo! A velha ironia est de volta!" Guilherme sentiu-se aliviado. Margheritte parecia voltar a ser a mesma, afinal.
O mordomo foi receb-los assim que ambos se aproximaram e, com uma leve mesura, ofereceu-se para guardar-lhes os casacos. Margheritte pareceu no notar isso. Deu trs passos adiante, no enorme hall de entrada e, voltando-se, admirada com o luxo que via, comentou:
 Espero que no se zangue, mas jamais, em minha vida, esperei ver uma casa assim!
Guilherme no estava certo se ela falava com ele ou com o mordomo, mas no se importou em averiguar. 
Tocou a gola do agasalho dela e sussurrou-lhe ao ouvido:
 No exagere, est bem?
Mais uma vez, Guilherme no soube se ela o ouvia ou no, pois parecia eufrica demais por conta da riqueza dos detalhes da enorme escadaria em caracol. 
Naquele momento, Camila apareceu  soleira da entrada que dava para a sala de msica.
 Venha, querida  Guilherme chamou, numa voz bastante carinhosa.
Margheritte pareceu, enfim, voltar  Terra. Camila j se aproximava, com a mo direita estendida.
 Estou to feliz em conhec-la, Margheritte!  exclamou, sorrindo.
Guilherme sentiu uma ponta de remorso por estar enganado a av, mas passou logo, assim que relembrou as situaes embaraosas nas quais Camila o envolvera nos ltimos tempos, com aquela srie infindvel de pretendentes que trazia para conhec-lo melhor.
Por hora, sentia-se satisfeito com o fato de tudo estar correndo bem. A nica coisa que o preocupava um pouco era a atitude de Margheritte. Ela precisava representar de maneira muito convincente.
 Que belo casaco!  Camila observou e, pela primeira vez Guilherme deu-se conta do que Margheritte vestia: saia e blusa simples, mas elegantes.
A saia talvez um pouco mais curta do que a moda atual ditava, o que deveria significar que tinha, no mnimo, mais de dois anos de uso. Camila iria notar isso em segundos. Como deveria j ter percebido que o tecido da blusa era um tanto fino e deixava ver a renda do corpete que Margheritte usava por baixo e que evidenciava suas formas. Era incrvel, mas Camila no tivera ainda um ataque por ter notado tal impropriedade.
Quanto ao comprimento da saia, Guilherme ponderava que qualquer jovem com um par de pernas como as de Margheritte no tinha de ter receio de mostr-las, estivesse na moda ou no.
 Obrigada.  Margheritte passou a mo ao longo das roupas.  Vou dizer a minha colega de quarto. Ela me emprestou tudo, porque achei que no teria nada  altura desta ocasio.
O sorriso de Camila pareceu se congelar em seu rosto. 
Guilherme estava em jbilo. Poderia ter aplaudido as palavras de Margheritte. No entanto, preferiu atenuar a situao:
 Aposto que nem mesmo tem um vestido, no , Margheritte? Nunca a vi usando um. Ah, vov, voc deveria t-la visto praticando andar de saltos altos. Jamais vi algo to engraado! Depois de usar aquelas botas pesadas na produoGuilherme se interrompeu, como se estivesse surpreso com a expresso atnita de Camila.
 Esqueci-me de contar-lhe, no , vov? Margheritte trabalha na Copeland Products.
Camila mal sabia o que dizer. Guilherme voltou-se para Margheritte, para ver se ela tambm estava apreciando a situao, mas notou que havia certa irritao em seu olhar.
 Que interessante!  Camila falava sem entusiasmo algum.  Venha para a sala de msica, minha querida. O almoo ainda vai demorar alguns minutos e, enquanto isso, poderemos conversar e nos conhecer um pouco melhor.
Margheritte comeou a segui-la, mas parou alguns passos adiante, antes de entrar no ambiente.
  incrvel, no?  Margheritte virou-se para Guilherme.  Um local to amplo, e as vozes no fazem eco.
  um truque arquitetnico. Mas os detalhes so um tanto complicados, acho que no gostaria de ouvi-los. Ela voltou-se e encarou-o. Mesmo sem saber por que, Guilherme sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, e deu-se por satisfeito por Camila j estar no outro cmodo, acomodando-se em sua poltrona favorita junto  lareira, incapaz de ver a frieza com que Margheritte o observava.
 Complicado demais para mim, no acha?  murmurou entre os dentes.  Pensa que eu no poderia entender nada
 No  bem isso. Apenas achei que no  o tipo de coisa que
 Tambm deve achar que no entendo o fato de que, embora esta manso seja em estilo vitoriano, sua arquitetura se mostre extraordinria no s pela maravilha acstica aplicada por Henry Bellows, quando a desenhou, mas tambm porque foi a primeira residncia que ele projetou com armao feita em ao. Mas, tem razo, sim, Guilherme. Tudo isso est muito alm do que posso compreender. Dizendo isso, Margheritte deu-lhe as costas, indo para a sala de msica.












CAPTULO III

Mesmo antes de se aproximar do local onde Camila Copeland a esperava, Margheritte j chegara  concluso de que chamar a ateno de Guilherme diante de sua av no fora a atitude mais esperta que poderia ter tomado. No entanto, sentia-se bem melhor agora. Aceitou a poltrona que a senhora lhe indicava e disse, esticando os braos para o calor aconchegante do fogo:
 As chamas de uma lareira so sempre to convidativas num dia frio como o de hoje!
 Pelo visto, tambm no gosta muito dos aquecedores modernos! Eu os detesto!  Camila esboou um sorriso.  Entretanto, como no sou eu quem tem de trazer a lenha para dentro ou as cinzas para fora, acho que sou um tanto suspeita para comentar o assunto. E, voltando-se para Guilherme, que acabava de entrar, pediu:
 Por que no oferece um clice de xerez ou de qualquer outra bebida a Margheritte, querido? Tenho certeza de que sabe muito bem quais so os gostos dela.
Margheritte ergueu os olhos para v-lo chegando e, pela expresso em seu semblante, compreendeu que poderia muito bem ser envenenada fosse pelo que fosse que ele viesse a lhe servir.
 Obrigada, mas no gosto muito de bebida alcolica, e o servio com as mquinas acabou me deixando cuidadosa em excesso.
Camila assentiu, e se voltou para o enorme anel que Margheritte usava.
 Deve tomar muito cuidado com essa jia tambm, suponho.  Pegou as agulhas e a l que estavam numa cestinha a seu lado e, com muita calma, comeou a tricotar o trabalho j comeado.
Margheritte fitou a enorme pedra. Ali, diante das labaredas, ela possua um brilho novo, suave, quase misterioso.
  claro que eu no colocaria algo to valioso em risco  observou, em voz baixa.
 No foi isso o que eu quis dizer, meu anjo. H muitos anos, meu sogro quase perdeu um de seus dedos quando uma mquina prendeu seu anel, que foi destrudo. Quanto ao dedo, ficou muito machucado.
Guilherme colocou uma bebida alaranjada em um clice e depositou-o sobre o aparador, perto da av.
 Vov teria tido muito mais compaixo se a pea destruda pelo maquinrio tivesse sido a aliana de casamento dele, em vez da jia que representava seu clube de golfe.
Margheritte no compreendeu muito bem a observao, mas tentou sorrir. Guilherme, no entanto, mantinha-se srio, e sua expresso ainda parecia aborrecida. Margheritte sentia que ele a estudava, ali, recostado  parede, os braos cruzados sobre o peito largo. E desejou ter aceitado o clice de xerez. Assim teria alguma coisa nas mos e saberia onde coloc-las agora. Camila bebericou e retornou ao tric.
 Que bom que gostou da casa, Margheritte! Seria horrvel ter de viver num local que no a agradasse. E tenho certeza de que Guilherme jamais sairia daqui.
Margheritte sentiu-se tensa de repente. Estaria sendo sensvel demais ou havia algo por trs daquelas palavras? A primeira imagem que Camila tivera dela fora quando olhava, encantada, para os detalhes arquitetnicos. Teria ouvido alguma coisa da pequena discusso que tivera com Guilherme antes de vir para a sala de msica? Impossvel. Precisava se acalmar e imaginar como a garota deslumbrada que Guilherme pensara ter contratado responderia a tal observao.
 Ah, este lugar  muito inspirador. Parece um museu.
 Lembro-me de ter sentido o mesmo quando vim para c, quando era noiva.  As pupilas de Camila brilhavam com intensidade ao encar-la.  Pareceu-me, h pouco, que voc havia feito um estudo sobre a obra de Henry Bellows. Ele  muito querido por ns, claro, mas, comparado aos grandes arquitetos de Chicago, talvez seja um tanto desconhecido.
Margheritte sentiu que sua garganta se fechava. Subestimara a acstica do hall, que, era evidente, evitava ecos, mas era tambm capaz de elevar o som de um murmrio. Parecia bvio que Camila ouvira o que dissera a Guilherme.
A velhinha prosseguiu, sempre muito tranqila:
 A arquitetura  um dos assuntos favoritos de Guilherme. E esse gosto deve estar nos genes, desde que seu bisav encomendou a construo desta manso. Foi o amor pelas construes que aproximou vocs dois? E como, eu gostaria de saber, tal assunto pode ter aparecido na linha de produo da fbrica?
Margheritte tentava se controlar. Seu noivado poderia vir a ser o mais breve da histria daquela cidade. Esperava que Guilherme dissesse algo, qualquer coisa que, sem dvida, a deixaria mais destruda do que o anel que seu bisav perdera na mquina.Mas ele mantinha-se quieto, como se no quisesse interferir de propsito, deixando-a lidar com a situao embaraosa por puro prazer. Tinha de encontrar uma resposta, e rpida, porque no havia como se fingir de surda diante de Camila.
 Meu orientador na faculdade de arquitetura adora o trabalho de Bellows, sra. Copeland. Est sempre se referindo a ele e usando exemplos de seu trabalho. H alguns meses, quando estvamos estudando engenharia acstica, meu professor quase se tornou potico ao descrever o hall desta residncia. Guilherme fez um esgar enigmtico, porm, nada agradvel.
 Quando ouvi sobre esta casa pela primeira vez, jamais imaginei que, um dia, viria a entrar nela.
 Pois eu acho que Guilherme deve lev-la para conhecer todos os cmodos depois do almoo.  O sorriso de Camila se alargou ainda mais.
Guilherme afastou-se da lareira de imediato.
 Por que no comeamos j, ento? A sra. Wilson, nossa enfermeira, que cuida de Annebelle, deve estar ansiosa por tirar a tarde de folga. Ento, podemos ir buscar minha filha e lev-la conosco.
Entendendo que aquilo era mais uma ordem do que um convite, Margheritte levantou-se devagar.
 Estou ansiosa para conhecer o quartinho dela  explicou, sentindo a mo de Guilherme j em torno de seu brao.
Saiu com ele dali quase tendo de correr para acompanh-lo.Guilherme parecia ter aprendido a lio de no cochichar no hall, porque conduziu-a, no mais absoluto silncio, at o andar superior, onde entraram num pequeno dormitrio.
L, Guilherme soltou-a e, encarando-a, colocou as mos na cintura, como se esperasse por uma explicao.
 Como eu podia imaginar que ela iria ouvir?  Margheritte comeou, na defensiva.
 E acha que isso  uma desculpa?
 Bem, voc tambm no fazia idia, fazia?
 Mas, afinal, o que aconteceu? Deu uma olhada a seu redor, apaixonou-se pela manso e decidiu levar tudo adiante de um modo mais real? Ou ser que j tinha pensado em agir assim antes mesmo de virmos para c?
 O que quer dizer com "um modo mais real"? Acha que pensaria em me casar com voc de verdade s para vir morar aqui?! No, mesmo! Nem uma obra-prima de Bellows valeria o sacrifcio de suport-lo, sabia?
 Voc mentiu para mim!
 De jeito nenhum. Jamais perguntou alguma coisa sobre mim, Guilherme. Apenas imaginou, baseado em meu trabalho, que eu era uma pobre-coitada sem cultura nenhuma. Suas frases, alis, foram perfeitas prolas: "Margheritte nem deve ter um vestido!" "Deveria t-la visto tentando se equilibrar nos saltos altos!" O que pretendia dizer ainda? "Estou pensando em ensin-la a ler e a escrever"?
 Quanta bobagem! De onde tirou isso?
 Seja franco, Guilherme, foi isso o que imaginou. Guilherme parecia um tanto envergonhado de si mesmo.
 Est certo. Admito que era o que queria que vov pensasse, e acho que exagerei. Mas o que aconteceu com sua parte na representao do plano?
 Olhe, no preciso ser muito inteligente para notar que h milhares de diferenas entre ns. Isso, contudo, no quer dizer que eu deva ser uma ignorante. Sua av, ainda assim, vai me detestar.
Guilherme no parecia muito convencido. Naquele momento, uma senhora apareceu num dos muitos corredores. Usava um casaco pesado e trazia uma menina num lindo vestidinho de veludo vermelho-escuro.
 Sra. Wilson, eu ia mesmo buscar Annebelle!  Guilherme exclamou, saindo do quarto em direo  enfermeira.
 J no seria sem tempo, sr. Copeland  a mulher respondeu, sem procurar ocultar o azedume.  Pensei que tivesse se esquecido de que tenho esta tarde de folga, e no apenas duas horas.
 Sinto muito. Acabamos nos distraindo l embaixo. Margheritte no podia acreditar no que ouvira. Guilherme Copeland estava se desculpando?!
Ele tomou a menina dos braos da sra. Wilson. A pequena enlaou-lhe o pescoo, parecendo muito feliz por estar com Guilherme. Enquanto isso, a sra. Wilson, de cenho franzido, colocava suas luvas. Seu olhar passou por Margheritte, de cima a baixo, com certo desprezo, at que disse:
 J que no estou saindo na hora combinada, vou voltar um pouco mais tarde.
 Sinta-se  vontade para estender seu tempo de folga o quanto quiser. Sem lhe dar ouvidos, a sra. Wilson deu-lhe as costas e se ps a descer a escadaria.
Annebelle olhou, um tanto cautelosa, para Margheritte, ainda com os bracinhos em torno do pai. Seus olhos no eram apenas grandes e bonitos como ele dissera, estavam cheios de curiosidade agora.
 Ol!  Margheritte cumprimentou-a, com suavidade, e Annebelle escondeu o rostinho.  Ela fala, Guilherme?
 Costuma pronunciar as palavras de modo separado, mas no faz isso muitas vezes. Ah, sua palavra favorita  "no".  Sorriu.
O som delicado de um sinete chamou-lhes a ateno,
 Esse  nosso chamado para o almoo, Margheritte.  melhor descermos antes que minha av mande algum nos buscar.
Margheritte no se moveu.
 Bem, e qual  o estratgia? Finjo no saber para que serve o guardanapo? Bebo o caf do pires?
Guilherme virou-se, colocando o peso da menina no outro brao.
 Por que est me perguntando? No  voc quem tem as grandes idias? Mas tenha uma coisa em mente: no estrague o que combinamos. Assumiu um negcio comigo e vai honrar sua parte at o fim!
 Por qu? Porque  tarde demais para que consiga uma substituta burra o suficiente?
Guilherme nem se preocupou em responder. Desceu os degraus enquanto Margheritte o seguia e, numa atitude bastante infantil, mostrava-lhe a lngua. Annebelle, voltada sobre o ombro do pai, achou graa. Margheritte, vendo que a agradara, tentou outra careta, e isso fez a garotinha rir ainda mais.
Guilherme voltou-se a tempo de ver a brincadeira de Margheritte, que se comps, ento, e foi at seu lado.
 Vou prosseguir com isso desde que me trate como um ser humano, Guilherme.
Sabia que ele tinha de morder a lngua para no lhe dar a resposta que queria, e achou timo no poder ouvir seus pensamentos.
Aps o almoo, voltaram todos  sala de msica, para tomar um caf e, l, Camila quis saber quando seria o casamento.
 Ainda  um pouco cedo  Guilherme se adiantou, firme.
 No podem esperar muito para marcarem a data, querido. Haver muitas coisas a preparar. As empresas que organizam recepes e os msicos precisam ser contratados com meses de antecedncia, voc sabe.
Margheritte deixou de olhar para os cubos plsticos que Annebelle alinhava em seu colo. Ergueu a cabea para Guilherme,  espera do que diria. Como ele se mantivesse calado, resolveu se pronunciar:
 Guilherme no quer uma comemorao muito grande. Depois, como quase no tenho famlia
 O que meu neto quer no conta.  Camila parecia decidida.  A escolha  apenas sua, meu bem.
 Nesse caso, talvez pudssemos  Margheritte olhou de relance para Guilherme e, notando seu semblante carregado, achou melhor mudar de ttica: 
 Na verdade, no temos pressa nenhuma, sra. Copeland. Queremos dar uma oportunidade a Annebelle para que me conhea melhor.
Camila virou-se para a bisneta, que agora entregava os cubos de plstico, um a um, para Margheritte.
 No me parece que Annebelle esteja muito preocupada com isso, Margheritte. Alm do mais, acredito que ela possa se acostumar a voc com muito mais facilidade se a vir mais amide. No concorda, Guilherme?
Da porta, Albert, o mordomo se fez perceber ao pigarrear, anunciando em seguida:
 Sr. Copeland, sua secretria est ao telefone. Parece que quer falar-lhe sobre algo importante.
Guilherme consultou o relgio e imprecou, baixinho.
 Tenho um compromisso inadivel na firma, mas vou lev-la para casa primeiro para que possa se trocar para o trabalho, Margheritte.
 Pelo amor de deus, Guilherme, no!  Camila protestou de imediato.  Voc est sempre indo quele escritrio e deixando seu lar! Agora vai ter de levar Margheritte tambm?! Margheritte achou melhor intervir. No sabia ao certo se seria temerrio ficar a ss com Camila, mas sabia que um dia isso teria de acontecer. Ento, que fosse logo.
 No quero causar-lhe problemas de espcie alguma, Guilherme. Posso muito bem pegar um nibus. No  to longe assim, e ainda tenho tempo para chegar  fbrica.
 Sendo assim, est acertado! Voc pode ir para seu compromisso, filho, e deixar Margheritte mais um pouco aqui.
Guilherme vacilava, mas sabia que sua presena no escritrio era muito importante. Desse modo, decidindo deixar tudo por conta do destino, voltou-se para a sada.
 No est se esquecendo de nada, querido?  sua av chamou-o.
Guilherme encarou-a,  espera.
 Sou uma mulher de idade avanada, meu rapaz, mas aprendi, no correr da vida, que pessoas prestes a se casar costumam se beijar quando se despedem
 Eu no quis constrang-la, vov.
 Ora, no sugeri que jogasse Margheritte sobre o tapete e a devorasse de beijos vorazes diante de mim! Apenas sugeri que, caso queira beij-la, no deve se sentir embaraado com minha presena. Alm do mais, seria bom para Annebelle acostumar-se a v-los trocando carcias, no acham?  Pareceu ponderar por um momento. Depois, acrescentou, num tom estranho: 
  evidente que, se no tiver vontade de acariciar sua noiva
 Sempre tenho vontade disso, vov.
Margheritte sentia-se um tanto tensa, embora soubesse que um leve beijo em nada poderia perturb-la, ou a Guilherme. Muito menos a Camila ou  menina.
Ele se curvou sobre a poltrona que ocupava e tocou-lhe o rosto com a ponta dos dedos, que pareciam estranhamente frias. Seus lbios se tocaram muito de leve, num carinho que poderia ter parecido real do outro lado da sala, mas que no passou de uma iluso.
No entanto, quando Margheritte j imaginava que Guilherme se ergueria e iria embora, Margheritte sentiu-o aproximar-se outra vez, e agora sua boca apoderou-se da sua de maneira muito diferente. Margheritte manteve-se parada, quieta, sentindo um frio enorme percorrer-lhe a espinha, at que a nica coisa de que foi capaz foi senti-lo beijando-a.
A mo de Guilherme caminhou at sua nuca, apertando-a de leve, como se ele lhe dissesse para corresponder, para fazer aquilo parecer convincente. Margheritte, ento, colocou seus dedos com delicadeza sobre o rosto dele, agindo mais sob presso da insistncia de Guilherme do que por sua prpria vontade. Sentia-se tensa demais para isso. 
Naquele instante, Annebelle, bastante enciumada, subiu mais para o colo de Margheritte e interps seu pequeno corpo entre ambos, erguendo os bracinhos para o pai.
Guilherme se afastou de leve e, sem graa, Margheritte baixou os olhos para a menina, comentando:
 E por isso que devemos dar mais tempo a Annebelle para se acostumar com a idia.
Quando conseguiu fitar Camila, para ver se tinha sido persuasiva o suficiente, surpreendeu-se com o sorriso que viu no rosto enrugado da velhinha. No era uma expresso romntica, encantada, de algum que presenciou uma cena de amor. Era diferente disso, e Margheritte no conseguiu decifr-lo no momento. No entanto, uma coisa parecia certa: Camila estava triunfante.
Camila pediu a Albert para chamar um txi, mesmo sob os protestos de Margheritte, alegando no permitir que a futura mulher de Guilherme andasse de nibus pela cidade.


Margheritte chegou a sua casa, querendo apenas deitar-se e esquecer tudo o que acontecera, em especial o que a fazia lembrar que Guilherme Copeland existia.
No entanto, no conseguiu ficar s nem por poucos minutos, pois a amiga com quem dividia as despesas estava esparramada sobre o sof, assistindo a sua pera favorita, e Ellen, sentada numa cadeira prxima, aguardando, ansiosa, por sua chegada.
 Espero que no se importe, Margheritte, mas Kasey disse que voc tinha um almoo de negcios e voltaria logo. Por isso ento, resolvi esperar. Querida, por favor, no me diga que foi a uma reunio profissional com essa roupa
 O que tem de errado o que estou vestindo, Ellen? E tome cuidado com o que vai dizer, porque, na verdade, o traje no  meu, mas de Kasey.
 Ah, menos mal! Isso explica por que a cor lhe cai to mal! No deve usar cinza, sabia? Pode ficar muito bem em Kasey, mas no em voc. Seus cabelos so mais claros, acho que bege ou creme ficaria lindo!
Kasey sorriu, sem desviar os olhos da tela.
 No adianta falar, Ellen. Eu disse a Margheritte a mesma coisa!
 E essa blusinha de renda, por baixo
  um corpete.
 Certo, que seja. Seus colegas de almoo devem ter se maravilhado com a viso por baixo da blusa, no  mesmo? Muito chamativo!
Margheritte respirou fundo. Guilherme nem sequer notara o que vestia. De repente, pareceu-lhe que os olhos de Ellen haviam sofrido uma atrao irremedivel e se voltado para sua mo, onde o anel de brilhante brilhava mais do que nunca.
 Deus do cu! Que tipo de almoo de negcios foi esse?  Ellen exclamou, sem se conter.
 Bijuterias?  Margheritte arriscou.  Vou sair com isto em meu dedo e logo terei vendido dzias dele. No acredita em uma s palavra, no ?
  lgico que no. Vamos, diga logo: quem  o sujeito? 
 Ellen, vamos fazer um trato: se isso ainda estiver acontecendo daqui a dois ou trs dias, eu lhe contarei, est bem? Caso contrrio, acredite, no  uma histria que gostaria de ouvir. E, alm disso, agora no tenho tempo para estar explicando nada, porque tenho de ir para o trabalho.
 E eu achando que eu tinha problemas com os homens!  Ellen no deixou de murmurar.
Margheritte gostaria de convidar a colega a trocar de lugar consigo, mas preferiu calar-se. Sentia algo estranho que no conseguia identificar. No era referente a Guilherme, nem a Camila. Teria at gostado da velhinha em outras circunstncias. Tambm nada tinha a ver com Annebelle, a qual, depois da partida do pai, brincara muito com Margheritte e acabara dormindo em seus braos. No sabia o que pensar. Na verdade, estava muito confusa.


No foi com surpresa que Margheritte ouviu o que dizia seu supervisor assim que chegou  produo:
 H um recado do escritrio central para voc: o patro quer v-la agora mesmo.
Ela deveria ter imaginado que no conseguiria trabalhar suas oito horas sem que Guilherme a chamasse. A nica dvida que tinha era quanto ao motivo, dessa vez. Iria avis-la de seus planos para a seqncia da farsa ou acabaria com tudo? Esperava que Guilherme no cancelasse o que combinaram. Precisava demais do dinheiro que iria receber. Na verdade, considerando-se o atraso que j tinha acumulado em seu servio na fbrica, iria Precisar dele ainda mais
Voltou  sala de equipamentos para recolocar seus protetores l, e ouviu:
 Ei, Griffin!  Era o supervisor de novo.  Se decidir continuar trabalhando aqui,  s me avisar, certo?
Margheritte engoliu a resposta mal-criada e dirigiu-se ao setor mais elegante da empresa. 
Na ante-sala, a secretria de Guilherme cumprimentou-a, sorridente, e ofereceu-lhe uma caneca de caf. Margheritte agradeceu e entrou no escritrio, sem ao menos bater primeiro. Guilherme parecia absorvido em alguns papis sobre sua escrivaninha, e isso a fez lembrar-se, de repente, de como seus cabelos eram macios, o que percebera ao toc-los durante o beijoSeus dedos apertaram mais a caneca ao recordar.
 Ah, sinto muito  disse ela, irnica.  Acabei me entrosando to bem em meu papel de garota ignorante que at deixei de bater antes de entrar.
 Pare com isso.  Guilherme fechou a pasta que examinava e apontou para as duas poltronas adiante.  No tivemos oportunidade de terminar nossa conversa de hoje.
 Verdade? Pois achei que j tnhamos dito tudo o que era preciso.
 Pelo contrrio.  Ele estava muito srio.  Ns mal comeamos.
Margheritte agora era uma pessoa bastante diferente daquela que entrara em seu escritrio da ltima vez, Guilherme ponderava, conforme a via movimentar-se de l para c. Apesar de usar os pesados sapatos de costume, havia uma elegncia nica na maneira como se movia, ondulando devagar os quadris bem-feitos.E, apesar da cala velha de brim, Margheritte sentava-se com a fineza de uma mulher que estivesse usando uma saia bem cortada. Mesmo vestindo a camisa surrada de flanela, que cobria o corpete, a pele branca e suave na base do pescoo podia ser vista e, o que era mais inquietante, aquilo que no era mostrado, mas apenas imaginado, parecia ser muito mais convidativo.
Margheritte no era como Sybil,  claro, e isso deveria t-lo distrado a princpio. Mas a verdade era que havia bem poucas mulheres to femininas quanto Sybil fora. No entanto, algo o perturbava: teria sido ele prprio quem mudara desde a vspera? Teria olhado para a mesma mulher antes sem conseguir notar o que lhe parecia to bvio agora?
Isso, entretanto, poderia no ser to importante; o que importava era que estava, de certa forma, ligado a ela. Sentou-se e comeou, procurando parecer bastante convincente:
 Precisamos decidir como vamos seguir a partir daqui, j que voc jogou a idia original pela janela esta manh, sem ao menos me consultar.
 Ns vamos continuar? Porque achei que, depois de ter sado de sua manso, quisesse reconsiderar
 Reconsiderei. E cheguei  mesma concluso de antes: no tenho outra opo a no ser seguir adiante com o que planejei. Mesmo se anunciasse agora mesmo que o noivado estava desfeito, teria minhas mos amarradas por meses antes de poder pensar em resolver a situao e tentar outra vez.
 Entendo Se levasse outra garota para casa na semana que vem, Camila iria desconfiarNo havia como disfarar a vontade que Margheritte sentia de rir.
Guilherme, porm, achava que Margheritte poderia, pelo menos, tentar levar a srio o que estavam fazendo. Entretanto, ela parecia divertir-se por v-lo sem sada. Arrependia-se por no ter considerado antes quanto poder estava colocando nas mos dela.
 Alm disso, enquanto eu no encontrasse outra candidata, minha av voltaria  carga com suas provveis noivas.  Guilherme suspirou, percebendo que Margheritte se divertiria cada vez mais.
 Ser que ela acharia alguma que fosse tola o suficiente para querer voc?  Margheritte sorriu e afastou uma mecha de cabelos que lhe escapava por baixo do bon que ainda usava.
 Obrigado!  muita gentileza sua! Onde est seu anel?
 Bem, depois da histria sobre seu bisav, no sou to idiota a ponto de us-lo no servio. Alm do mais, h regras quanto ao uso de jias na produo.
 No o deixou em seu apartamento, no ?
 E que alternativa tenho? Desde que todos na fbrica o viram, a melhor maneira de afast-lo da curiosidade geral  mant-lo longe daqui, no acha?
Guilherme ergueu as sobrancelhas. Gostaria de imaginar que todos os seus empregados eram honestos, mas no se podia arriscar.
 No precisa se preocupar, Guilherme. A jia est segura.
 Posso saber onde?
A insistncia de Guilherme a irritava. Afinal, mesmo vivendo num lugar muito modesto, sabia como proteger seus pertences, e ele no confiava em seu discernimento.
  uma pena eu no ter pensado em penhor-lo, mas o melhor que consegui fazer foi jog-lo num pote de iogurte em minha geladeira.  A ironia estava presente, mais uma vez, nas palavras de Margheritte.
 Est querendo me dizer que colocou um solitrio carssimo dentro de um pote de iogurte em sua geladeira?
 De ma, para ser mais precisa. A moa com quem divido o apartamento detesta esse sabor. Portanto, no h possibilidade de que Kasey o pegue.
Margheritte o enfrentava, e parecia sentir um imenso prazer nisso. E no havia nada que Guilherme pudesse fazer a respeito. Antes de tudo aquilo estar acabado, ele, decerto, a teria estrangulado.
 E, embora eu ache que  discriminatrio de minha parte generalizar  ela prosseguia, sorrindo  duvido que os assaltantes locais comam iogurte. Ento
 Est certo! No precisa ir adiante com isso. Confio em voc, mas quero que saiba que  responsvel por aquele anel.
 E o que far se eu o perder? Vai me algemar a uma das mquinas at que eu consiga pagar por ele? Isso vai levar apenas uns vinte anos
 No. Na verdade, esperarei at que receba seu primeiro grande salrio como arquiteta e a farei reembolsar-me pelo dano. E,  claro, se no desempenhar sua parte em nosso acordo da maneira como espero que o faa, garantirei que no receba salrio algum como arquiteta, pode estar certa disso.
Margheritte no pareceu se impressionar. Bocejou, cobrindo os lbios com os dedos, e aguardou pelo que ainda teria de ouvir.Guilherme resolveu mudar de ttica:
 Diga-me: minha av levou-a para conhecer a manso toda depois que sa?
 No.  Margheritte parecia desapontada.  No houve tempo. Eu precisava voltar para trabalhar. Ela consultou o relgio da parede, de propsito.
 Bem, j que estou aqui, sem desempenhar minhas funes, talvez tivesse podido ficar mais algum tempo l com ela.
 Quando soube sobre a casa, afinal?
 No ano passado. Mas meu professor no mencionou quem era o proprietrio, nem em que parte da cidade estava situada. No tinha idia de que era sua at estacionar diante dela hoje. Por qu? Achou que eu tivesse decidido no ano passado que seria a garota ideal do ponto de vista de sua av e que a faria me ajudar a agarrar voc de verdade? Porque, se cr nisso, saiba que  ridculo e irracional. Se eu quisesse, e no quero, seria impossvel para mim fazer com que sua av agisse a meu modo. O que, como sabemos, no  o seu caso.
Aquela provocao foi suficiente para Guilherme. Margheritte, de fato, no era seu tipo de mulher. E esperava que Camila percebesse isso tambm.
 No entanto  Margheritte prosseguia, indiferente a impresso que causava  parece no compreender que sua av no  tola, Guilherme. E o que fiz foi tornar sua histria no to bvia, o que, a meu ver, transformou-a em algo mais verossmil. S isso.
Ela se levantou e esticou os braos para as chamas da lareira, como se sentisse frio. Deu prosseguimento ao que dizia, sem olhar para Guilherme:
 Afinal, que diferena faz se Camila me acha aceitvel ou no porque no sei usar os talheres corretos ou porque no hesito em discutir com ela os trabalhos de Henry Bellows? Henry no era infalvel, voc sabe. Ou porque posso parecer uma aventureira em busca de dinheiro e ela quer uma madrasta carinhosa para Annebelle? O que tem importncia de fato  que devo ser inaceitvel. E sua av ficar felicssima quando voc lhe contar que rompeu comigo.
 Pode ter certeza disso.
 E tenho.  Margheritte se voltou para v-lo, tendo notado que sua voz estava por demais fria.  Pelo amor de Deus, Guilherme, at a enfermeira que cuida de Annebelle se deu conta do quanto somos diferentes! No acha que sua av tambm notou?
Ele no respondeu. Esperou alguns segundos, pesando as possibilidades.
 Na verdade, vov me ligou pouco depois que voc saiu.
 E?
 Quase nunca telefona para c e, quando o faz, sempre tem algo importante a dizer. Dessa vez ela falou o seguinte: "No admira que tenha ficado trabalhando at mais tarde nos ltimos tempos".
Margheritte engasgou, arregalou os olhos e mordeu o lbio.
 Talvez Camila tenha sido sarcstica  sugeriu, no muito segura de si. Guilherme a encarou, aborrecido:
 E, se no bastasse, vov me pediu para convid-la para passar conosco o feriado prolongado de Ao de Graas. Portanto, vamos definir muito bem as coisas: o que dizia mesmo sobre ela vir a odi-la?

















































CAPTULO IV


Margheritte encarou-o por alguns segundos, procurando evitar a gargalhada que insistia, teimosa, em escapar-lhe. No entanto, isso foi impossvel, e teve de entregar-se a ela at que suas costelas doessem.
 Espero que essa sua histeria no se torne um hbito.  Guilherme disse, frio.
Margheritte tornou a sentar-se, secando as lgrimas que o riso intenso provocara.
 No  histeria, Guilherme.  divertimento. Quem poderia imaginar uma coisa dessas?!
 Bem, fico feliz que tenha achado o convite de minha av to agradvel, mas
 Aposto que Camila estava tentando parecer bastante sincera, no?
 De fato. Por qu? Duvida disso?
 Ora, pelo amor de Deus, Guilherme! Ser que no sabe nada sobre as mulheres? Por quanto tempo esteve casado?
 Pouco menos de um ano.
Margheritte voltou a ficar sria de repente. A pergunta fora sem maiores intenes, mas a resposta causara-lhe uma estranha tristeza. Guilherme estava ainda em lua-de-mel quando perdera sua esposa. No era de admirar que ainda no se visse preparado para substitu-la por outra companheira.
 E isso nada tem a ver com o que estamos conversando agora  ele acrescentou, ainda mais soturno.
 Talvez tenha, sim  Margheritte insistiu, mas em imensa suavidade.  Imaginei que tivesse sido por pouco tempo, ou ento saberia como ns, seres do sexo feminino, pensamos e agimos. No percebe o que Camila est fazendo? Sua av acabou de me propor um desafio!
Guilherme fitou-a, parecendo no compreender.
 Convid-la para passar o fim de semana conosco  um desafio? No vejo como.
 Pois saiba que Camila acabou de mostrar que terei de conquistar meu lugar na famlia, se quiser mesmo fazer parte dela. E, alm disso, no terei nenhum tipo de ajuda de sua av. No entanto, ela no vai querer fazer o papel de vil nessa histria. No pretende deixar claro para voc que sua escolha foi pssima, porque isso apenas o incitaria a prosseguir com o noivado. Ento, vai facilitar o caminho para mim.
 Mas voc mesma disse que vov no vai ajud-la
 Digamos que far parecer a voc que est tornando tudo tranqilo para mim para que, quando eu fizer as coisas de maneira errada, no seja acusada de ter sido m ou intolerante. Ver por si mesmo o quanto sou inadequada para ser sua companheira. O que Camila far, de fato, Guilherme, ser me sabotar da melhor forma possvel. Guilherme ergueu as sobrancelhas, admirado e surpreso com tudo aquilo.
 E conseguiu compreender toda essa situao apenas com o convite que vov fez para este fim de semana?
 Isso e o fato de t-lo usado como mensageiro. Camila poderia ter me ligado, mas, com sua atitude, far parecer a voc que  muito generosa convidando uma estranha para o aconchego de seu lar. E eu j devia esperar por isso, visto que sua av comeou a campanha esta tarde.
 Como assim? Vov me pareceu muitssimo amvel com voc.
 Guilherme, no prestou ateno ao tom de voz dela? E, se est julgando o comportamento de Camila por aquela cena de cham-lo de volta para que me desse um beijo de despedida bem, se acreditou que aquilo foi uma demonstrao de aprovao,  porque no viu o jeito malicioso, cheio de triunfo, que surgiu no rosto dela. Mas fomos descuidados, tenho de reconhecer. Devamos ter esperado por isso. Sua av  uma senhora muito cheia de estilo, Guilherme. E no perde um s lance do jogo
 Seja como for, a situao ainda no me parece to engraada quanto para voc.
 E no seria, mesmo, caso o que houvesse entre ns fosse real. Haveria de ser, at, desagradvel, com Camila criando situaes para que eu me fizesse passar por tola. E enquanto estivesse perdendo tempo tentando consertar alguma bobagem que tivesse feito, para no desagradar voc, ela j estaria passos  frente, preparando outra situao constrangedora.
 Ento, considerando-se que queremos, de fato, que voc parea inconveniente
 Exato!  claro que ela no sabe disso, e  a que vejo o humor da situao. Vou me divertir muito agindo como bem entender, e sua av ficar arrepiada de horror ao ver o papel que estou fazendo, e contar os minutos para se ver livre de mim. Era bvio que, aps a separao, Camila recomearia com sua interminvel lista de pretendentes para Guilherme, antes que imaginasse que ele poderia vir a se interessar por outra garota inferior a seu nvel, mas Margheritte sabia que aquele no era um problema seu. Ele que remediasse a situao, ento.
 Que tipo de situaes acha que vov ser capaz de armar contra voc?  Guilherme quis saber.
 Acho que vai mandar servir alguns pratos exticos, esperando que eu no saiba como com-los, o que,  provvel, no saberei, mesmo. Jamais me vi diante de uma alcachofra, e espero jamais ter de comer uma. E, alm disso, h o bvio: Camila vai me apresentar a uma de suas antigas namoradas, apenas para ilustrar o contraste que existe entre mim e elas. Depois, ir se desculpar comigo, perto de voc, por ter sido rude ao falar sobre pessoas e lugares que jamais conheci. Assim, ns dois poderemos estar cientes do quanto eu no perteno ao mundo em que vocs vivem.
 Acha mesmo que vov seria capaz de agir de maneira to dissimulada?
 Guilherme, voc parece um garotinho de seis anos de idade que acabou de descobrir que Papai Noel no existe. Lembra-se de que estamos falando da mesma mulher que vem passando uma lista de candidatas a futura sra. Guilherme Copeland diante de seus olhos, arranjando aqueles jantares ntimos que voc tanto detesta por no permitirem que fique por mais tempo com sua filha?
 Mas arranjar situaes que possam deix-la embaraada
 Imagine! Camila tem muita classe, e no far nada abertamente. Poderia me liquidar como a um inseto, mas no quer isso, pode estar certo. Seria bvio demais. Sua av pretende que seu neto querido perceba a verdade e que parta dele a deciso de me mandar embora de sua vida para sempre. Talvez at faa parecer que sou apenas uma caadora de fortunas.
 O que, de certa forma, voc .
As palavras dele doeram, mas Margheritte achou melhor passar por cima delas.
 No posso negar. O preo da faculdade  bastante alto. No que eu esteja me colocando na defensiva quanto  parte que me toca no trato, mas ainda sou uma excelente opo para voc. Vai sair muito mais barato, mesmo com o dinheiro que pedi, do que manter uma esposa. Margheritte se levantou mais uma vez.
 E, por falar nisso, preciso e gosto demais de dinheiro. Portanto,  melhor que eu volte ao trabalho bem depressa, antes que o supervisor acabe me substituindo. Ento? Quando nosso fim de semana comear?
 No acha que poderia arranjar uma desculpa para no ir?
 Camila conseguiria algo ainda pior, creia-me.
 . Talvez tenha razo. O almoo vai ser  uma hora, para que os empregados possam tirar a tarde de folga. Apanharei voc ao meio-dia.
 timo. Leve sua av at minha casa para bebermos alguma coisa antes de irmos para a manso. Eu e Kasey no temos xerez, mas minha amiga sempre mantm um bom estoque de latas de cerveja na geladeira. Tenho certeza de que Camila iria adorar.
 Quero apenas fazer com que vov me deixe viver em paz, Margheritte, no que tenha um ataque.
 Nesse caso, seria melhor deixar este meu convite para o grand finale. E, Guilherme, no se preocupe com os detalhes. Confie em mim.Tudo o que tem a fazer  parecer surpreso de vez em quando.  Ela sorriu.  Do jeito que est agora, por exemplo.


Camila tivera de ir a uma festa, e s chegou quanto Guilherme j tinha dado banho em Annebelle e a colocava no bero.
 Pensei que a sra. Wilson j devesse estar de volta.
 Eu disse a ela que poderia voltar quando quisesse esta noite, vov.
 Por qu? Submete-se demais  vontade dessa mulher, menino.  claro que quando voc e Margheritte se casaremCamila fez uma pequena pausa, o que deu ensejo a Guilherme de se lembrar das afirmaes de Margheritte naquela tarde sobre sua av consider-la uma caa-dotes que no saberia desempenhar o papel de me. Achou que poderia aproveitar a chance para levar seu plano adiante mais depressa ainda.
 Vou ter de suportar a sra. Wilson por um bom tempo ainda, vov. Margheritte no poder levar Annebelle para assistir s aulas com ela.
 Sei, sei  Camila limitou-se a menear a cabea, no entanto, Guilherme pareceu notar um brilho de satisfao em seu olhar.
De fato, Camila andara agindo por conta prpria com as tais candidatas nos ltimos meses, mas isso fora bvio demais. Entretanto, agora estavam diante de um plano arquitetado e que poderia, caso perdessem o controle, magoar algum.
Guilherme esperava que Margheritte soubesse o que estava fazendo. Bem, afinal, por que se preocupar com ela, j que a estava pagando, e muito bem? Se Margheritte acabasse ferida no processo, no seria responsabilizado pelo "acidente de trabalho".
Guilherme sentou-se na cadeira de balano do quarto de Annebelle, tendo a garotinha nos braos.
 O que achou dela, vov?
 De Margheritte?  Camila pareceu pensar por instantes.  Ʌ interessante. Claro que  muito diferente de Sybil. Ela acariciou os cabelos de Annebelle e deu um beijo leve no rosto do neto, deixando o s com a filha.
No silncio, quebrado apenas pelo chiar suave da antiga cadeira, que ia e vinha, Guilherme permaneceu abraado  filhinha, observando-lhe os traos suaves at que adormecesse. Annebelle seria uma linda mulher, como sua me.
Fechou os olhos e pde ainda rever o semblante da esposa, to claro como no dia em que ela morrera. " muito diferente de Sybil", sua av falara sobre Margheritte. Guilherme permaneceu ali, balanando-se de l para c, at bem depois que Annebelle adormeceu. Ento, a porta se abriu, e a sra. Wilson espiou para dentro, dizendo, baixinho:
 H quanto tempo ela est dormindo?
 Eu j lhe disse inmeras vezes que ficar acordada at mais tarde no lhe far mal algum  Guilherme respondeu, no mesmo tom de voz, adivinhando-lhe a inteno da questo.
 Claro que no! Como tambm no faz mal adormec-la no colo, com esse balano  a enfermeira acrescentou, repreensiva.
Guilherme acabou por sentir-se culpado. Mas gostava tanto de ficar com a Annebelle no colo que no pudera evitar. Levantou-se e acomodou-a no bero. A menina iniciou um breve resmungo, mas parou logo, e voltou a dormir.
 Ela vai acordar pelo menos duas vezes esta noite querendo o senhor  continuou a repreender a sra. Wilson. Sempre faz isso quando a coloca na cama.
Guilherme franziu a testa.
 A senhora nunca me falou isso.
 Porque consigo resolver o problema sem incomod-lo.
 Da prxima vez, resolva o problema me incomodando. Aps acariciar os cabelos de Annebelle mais uma vez, Guilherme se afastou, nas pontas dos ps..
No andar de baixo, apenas as minsculas luzes do alarme contra roubo permaneciam acesas. A grande escadaria encontrava-se mergulhada numa penumbra desconcertante. A porta do quarto de Camila estava fechada, o que significava que ela j se recolhera.
Em seu quarto, a cama j estava preparada. Decidira deixar a sute principal desde a morte da esposa. Havia ainda muitas coisas dela l, seu perfume e as lembranas
O carro de Sybil deslizara e batera de frente, no inverno anterior. Era sempre muito difcil controlar um automvel numa estrada coberta de gelo. O BMW se chocara contra o muro de concreto, deslizara pela pista e fora jogado precipcio abaixo. Guilherme fora chamado  meia-noite, mas no conseguira chegar ao hospital a tempo.
Agora, ainda eram onze e meia, e ele sentia-se inquieto, olhando pela janela, para o imenso ptio dianteiro da manso. Fazia frio, mas no nevava. Com certeza, as estradas estavam secas e seguras.
O turno da produo, na fbrica, seria trocado logo. Margheritte estaria saindo de l em alguns minutos e encaminhando-se para o ponto de nibus. Pelo menos, no estaria usando o anel. To tarde assim, muitas pessoas j haviam sido mortas por estarem usando objetos muito menos valiosos.
Sem que sentisse, a idia de que a jia fora guardada num vidro de iogurte o fez sorrir. Camila tinha razo: Margheritte no era, de fato, em nada parecida com Sybil. Sem pensar mais, Guilherme apanhou o palet e desceu os degraus, cruzou a cozinha e foi para a garagem. Se corresse, chegaria  Copeland a tempo de peg-la no porto.
A ultima surpresa que Margheritte esperava ter era ver o carro de Guilherme estacionado  sada dos funcionrios. Por alguns segundos, imaginou se no estaria tendo uma miragem, por ter, no fundo, desejado tanto no precisar esperar pelo nibus, sentindo o vento cortante. No entanto, ele estava l de fato.
Margheritte parou de andar de repente, e um homem acabou tropeando e quase caindo por sobre ela, reclamando que no tinha um patro com um veculo confortvel para lev-lo para o doce lar.O comentrio malicioso, porm, no a afetou. Caminhou at o carro e entrou, sem protestar.
 Pensei que tivesse dito meio-dia, no meia-noite, Guilherme.
 E disse, mas achei que iria gostar de ter uma carona.
 Sabe, vai acabar criando uma srie de problemas para voc mesmo.
 Bem, se no quiser que eu a leve
 No  isso, mas logo algum vai comear a falar em discriminao.
 Ningum pode me acusar de levar minha noiva aonde quer que seja.
 Porm, eles vo comear a reclamar do tratamento especial que venho tendo, por exemplo. Meu supervisor j anda bastante irritado, e quanto aos outros operrios
 Eu no ficaria aborrecido caso voc deixasse de trabalhar. Sabe disso.
Margheritte tambm no ficaria, j que as observaes que vinha tendo de escutar de seus colegas estavam cada vez mais abusadas, mas no podia dar-se ao luxo de abandonar o emprego, pois, caso o plano de Guilherme falhasse em algo e no viesse a receber a quantia que ele lhe prometera, seu futuro estaria comprometido.
 Mas se eu deixasse a fbrica o pouparia de me dar uma carona.  Margheritte achou melhor levar a situao na brincadeira.  Pretende tornar isso um hbito?
 No sei. Vou ter de faz-lo?
 Ningum lhe pediu que o fizesse.
Guilherme preferiu no responder ao tom agressivo dela.
 A que horas chega quando toma o nibus?
 De modo geral, s quinze para a uma. Por qu?
 Ento dorme pouco. Depois vai para a universidade e volta para a fbrica s quatro da tarde. Quando estuda e faz suas tarefas da faculdade?
 Entre as aulas.
 Entendo. Como voc mesma disse, o curso  bem caro, e isso em muitos aspectos. Eu no deveria ter feito aquela insinuao sobre gostar tanto de dinheiro.
 Isso significa que acredita, afinal, que no estou tentando me casar com voc?
  melhor que no esteja, mesmo. E no confunda o que estou afirmando. Apenas sinto um pouco de culpa porque, alm de tudo o que j faz, aceitou me ajudar em meu projeto.
Margheritte olhou-o por alguns segundos. Depois, sem conseguir evitar, acariciou de leve os cabelos dele e respondeu:
 No se aflija, Guilherme. Se eu mudar de idia quanto a me casar com voc, ser o primeiro a saber.


O relgio marcava quase meio-dia, e Margheritte ainda no conseguira ajeitar os cabelos como queria. Kasey entrou no quarto, com uma rosquinha numa das mos e uma caneca de caf na outra.
 Quer levar consigo a receita de minha me para preparar o peru recheado? Vai uma quantidade to grande de bebida nele que a velhinha ficaria chocada
 No, obrigada, Kasey. A propsito, no ia almoar com seus pais hoje?
 E vou, mas estou adiando o mais que posso, porque no  s o peru que fica muito recheado de bebida por l
Margheritte olhou com certa preocupao para a colega, mas ela no parecia importar-se muito com o que dizia.
 Se eu pudesse, levaria voc comigo.
 No levaria, no  Kasey rebateu.  S est se fazendo de boazinha para que eu me sinta miservel.
Acostumada s brincadeiras da companheira, Margheritte apenas riu.
 Voc deve estar certa. Mas agora no tenho tempo para discutir o assunto.
 Ok, Margheritte. Ento vou cobrar uma descrio detalhada de tudo o que acontecer por l. Quando disse que vai estar de volta? No domingo?
 Acho que sim. O convite no foi muito especfico. Referia-se, apenas, ao fim de semana. Mas que droga! Ele j est batendo na porta, e ainda no terminei de me arrumar! Quer, por favor, atender e pedir a Sua Alteza que me espere um pouco?
 Deixe comigo.
Kasey se foi, e Margheritte pde ouvir o murmrio de vozes, embora no compreendesse o que estava sendo dito. Terminou de se maquiar, pegou a pequena valise que preparara e a mochila cheia de livros, e saiu para encontrar Guilherme. Ele estava parado no meio da sala, e trazia Annebelle no colo. 
Margheritte estranhou. Guilherme afirmara que seu maior motivo para estar fazendo tudo aquilo era ter mais tempo com sua filhinha, mas nada que tivesse feito na vspera mostrara mais o quanto era um pai afetuoso, do que quando deixara Annebelle em seu quarto a maior parte do tempo. Durante o almoo, fora Camila quem supervisionara o que a garota comia, avisando que ela j havia comido algo antes de descerem. E, mais tarde, embora Annebelle andasse de um adulto a outro enquanto brincava com seus cubos, fora ela prpria, Margheritte, quem parecera ter chamado mais a ateno da menina. Na verdade, Annebelle no demonstrara cime at o momento em que seu pai beijara Margheritte
E agora, quando pensava no assunto, Margheritte compreendia que tudo se encaixava. Uma criana que pouco via o pai no poderia, de fato, trat-lo de maneira diferente.
Ele mesmo falara que j levara Annebelle  firma diversas vezes, mas naquela ocasio Margheritte estava por demais preocupada em enfrentar Camila para prestar ateno a esse detalhe de sua conversa. Assim, sua imagem de Guilherme como um pai distante acabara sendo reforada quase sem que sentisse.
Entendeu que no poderia basear de novo sua opinio apenas em aparncias, porque o fato de Guilherme ter trazido a menina para um passeio at seu prdio no significava que fosse algum muito dedicado ao beb.
Guilherme estava vestido de maneira informal: cala esporte, camisa aberta no pescoo e uma jaqueta de couro que pareceu a Margheritte suave como seda.
 Perdoe-me pelo atraso, Guilherme. Nem mesmo tenho a desculpa de no saber o que usar, porque o que tenho  basicamente isto.  Margheritte fez um gesto ao longo do corpo, mostrando a cala simples e a blusa de l que emprestara de Kasey.  No gostei quando disse que eu no tinha um vestido para usar, mas hoje tenho de admitir que no tenho mesmo.
Guilherme nada respondeu, apenas sorriu de leve. Margheritte notou que ele parecia cansado. Talvez tivesse trabalhado logo cedo.
 Ol!  Margheritte cumprimentou Annebelle, tocando de leve o rosto rechonchudo.
 Quer que eu leve sua mochila.
 E vai carregar Annebelle tambm, Guilherme? No, deixe, estou acostumada. Espero que Camila deteste jeans, porque vou us-lo o tempo todo em que estiver em sua casa.
 Vov nunca disse nada quanto aos meus, embora no tenha muito tempo para us-los. Tambm no acho que Sybil tivesse uma cala de brim que fosse.
Sybil Esse era o nome da me de Annebelle. Como Margheritte poderia esperar um nome comum, afinal? Sybil deveria ter sido uma moa cheia de glamour, mistrio e elegncia. Uma jovem refinada, da alta sociedade. Do jeito exato como Margheritte jamais poderia ser.
E esse era, sem dvida, o motivo pelo qual haviam firmado aquele acordo. Para que ficasse bem claro o contraste entre ela e tudo o que Guilherme merecia ter numa esposa.
 Mais alguma coisa?  Guilherme referia-se  bagagem.
 No Ah! O anel! Quase esqueci!
Margheritte foi depressa at a cozinha, que era, na verdade, apenas um canto daquele cmodo, separada por uma estante velha, e abriu a geladeira. Com o auxlio de um garfo, retirou a jia do fundo do pote, deixando Guilherme atnito ao ver o formato bizarro que a jia adquirira por estar coberta com a camada espessa de leite coalhado.
 Sinto que tenha de ver isto.  Margheritte colocou o solitrio sob o jato da torneira da pia.
Instantes depois, entravam no automvel. Aps ajeitar-se no banco e colocar o cinto de segurana, Margheritte voltou-se para Guilherme e inquiriu:
 H algo que eu deva saber antes do fim de semana?
 Como o qu, por exemplo?
 No sei Detalhes que sua av poderia esperar que voc tivesse me contado, ou que eu poderia ter insistido em saber. Como o aniversrio de Annebelle.
 Final de setembro.
 E o seu?
 Maro. Portanto, nem precisa se preocupar em organizar uma festa surpresa para nenhum de ns.
 Que pena! Seria uma oportunidade perfeita para chocar sua av.
 Como? Colocando uma danarina nua que sai de dentro de um imenso bolo?
 No. Eu teria pensado em algo mais original e pior do que isso. Ela e Sybil se davam bem?
  claro.
A surpresa na voz dele, a maneira como erguera as sobrancelhas, parecendo to atnito com tal questo, irritaram Margheritte.
 Mas, naquela poca, Camila no morava com vocs, no ? Voc me parece ter dito que sua av se mudou depois do acidente, para supervisionar tudo, por causa de Annebelle.
Sentada na cadeirinha de segurana, no banco traseiro, Annebelle soltou um gritinho ao ouvir seu nome. Margheritte voltou-se para sorrir para a pequena,
 Ento, elas no compartilhavam da mesma mesa no desjejum Devo dizer que isso pode fazer diferena. Podemos adorar uma pessoa e, ainda assim, no sermos capazes de conviver com ela.
 Elas gostavam muito uma da outra. Os pais de Sybil eram muito amicssimos de minha av.
"No me diga!", Margheritte gostaria de ter dito, mas calou-se, ao pensar melhor. No era de admirar que Camila estivesse fazendo desfilar todas as suas conhecidas diante dos olhos de Guilherme: queria encontrar alguma parecida com Sybil para casar-se com ele.
E talvez estivesse apenas repetindo um procedimento que j tivera antes. Se houvesse arranjado o casamento do neto pela primeira vez com a filha de alguns amigos seus, por que hesitaria em tentar de novo?
Enquanto Margheritte fazia suas ponderaes, o caminho at a manso passou depressa.
Guilherme estacionou diante da porta principal e voltou-se para soltar Annebelle. Margheritte aproveitou esse hiato para maravilhar-se mais uma vez com o estilo de Henry Bellows. Quando entraram, avistaram Camila descer as escadas.
 Oh, Margheritte, querida, estou to contente por voc ter podido vir!  exclamou, assim que os avistou.
 Obrigada pelo convite, sra. Copeland.
 Ora, pode me chamar de Camila. Ser muito mais fcil quando voc for tambm uma sra. Copeland, no acha?  Olhou para a bisneta.  Isso me faz lembrar, e quanto a Annebelle?
Margheritte sentiu um arrepio percorrer-lhe a coluna, que se acentuou bastante quando Camila prosseguiu:
 Como quer que ela a chame? Em minha opinio,  melhor comear da maneira correta desde o princpio. Ento, o que vai ser? Mame? Mezinha?
O calafrio transformou-se logo em dor de cabea. Ento, Camila no iria se preocupar com coisas to simples quanto alcachofras ou antigas namoradas Iria direto  jugular, fazendo com que Guilherme imaginasse sua filhinha chamando Margheritte de me, no lugar que pertencia a sua querida e inesquecvel Sybil.
 M!  pronunciou Annebelle, de repente, chamando a ateno de todos ao balanar os bracinhos no ar, muito alegre.
Camila virou-se para Guilherme, sorrindo, e Margheritte poderia jurar que vira um ar de satisfao em seus olhos astutos. No era de estranhar que se sentisse vitoriosa, j que Guilherme estava ali, parado, embasbacado, sem saber como agir.







CAPTULO V


Margheritte procurava, desesperada, por algo para dizer. Precisaria fazer aquela criana cham-la de me quando no tinha a menor inteno de ocupar tal posio? Que direito teria de fazer tal coisa?!
Fosse como fosse, a palavra no deveria ter o menor sentido para Annebelle, que jamais soubera o que era ter uma me. Alm disso, aquela loucura no iria muito longe, no a ponto de deixar a menina com algum tipo de trauma, pois, dentro de alguns dias, semanas, talvez, Annebelle nem se lembraria mais dela.
Margheritte sabia muito bem que no deveria deixar que a pequena se apegasse a ela, bem como no haveria de se apegar  garotinha. De qualquer modo, aquela simples e significativa slaba pronunciada por Annebelle parecia-lhe preciosa demais para que fosse tomada em vo, em qualquer circunstncia.
 Bem, acho que, pelo menos por enquanto, seria melhor se ela me chamasse pelo nome  disse, por fim.
Camila apenas ergueu as sobrancelhas, e Margheritte achou que, quanto menos falasse a respeito, melhor. Explicaes eram sempre perigosas. No entanto, no pde evitar o comentrio:
 Mesmo sendo Annebelle to novinha, eu me sentiria desconfortvel em tentar tirar o lugar de Sybil.
A expresso no rosto de Guilherme parecia confirmar isso, Margheritte imaginou. Deu continuidade a seu raciocnio, sem saber ao certo se estava melhorando ou piorando tudo:
 Tambm no quero que Annebelle, um dia, venha a imaginar que tentei apagar a presena de sua me em sua vida.
Guilherme colocou a garota no cho e ps um ponto final na conversa, dizendo, muito srio:
 Acho que devemos deixar esse assunto para quando Annebelle conseguir decidir por si mesma.
Margheritte sentiu-se salva. Sorriu para ele, acrescentando:
 Ser chamada de me  algo que se conquista, no  imposto.  Inclinou-se para Annebelle e acariciou-lhe os cabelos.  Voc se preocupa muito com isso, no , querida?
 M!  repetiu o beb, sorrindo.
 Parece que ela j decidiu  Camila arregalou os olhos, divertida e calma.  Margheritte, meu bem, venha, vou mostrar-lhe seus aposentos. Albert cuidar de sua bagagem. E, sem ao menos olhar para a valise surrada e a mochila que Margheritte deixara do lado de dentro do hall, Camila tomou-a pelo brao, pondo-se a subir as escadas. Margheritte acompanhou-a, imaginando que chamar seus pertences de "bagagem" era o mximo da cortesia. Ao chegarem ao topo da escadaria, Camila apontou para o lado esquerdo do corredor de cima.
 Aquele  o quarto de Guilherme,  claro.
"E o que fao com tal informao? Aproveito para aparecer por l no meio da noite?", Margheritte indagava-se. Se esse fosse o caso, estaria Camila alertando-a para que no o fizesse, ou dando-lhe sua permisso?
Arriscando um olhar para a sute principal, cujas portas estavam abertas, Margheritte calculou que aquele cmodo deveria ter trs vezes o tamanho de seu apartamento inteiro.
 Esta  uma das tarefas a que teremos de nos dedicar durante este fim de semana.  evidente que voc vai querer redecorar o quarto principal, e essas coisas levam muito tempo, voc sabe.
 Ah, claro, Camila! Seria timo ter uma decorao completamente nova.  Margheritte, at ento, no conseguia entender muito bem as intenes da velhinha.  Tudo tem de ficar muito bonito, como era quando Sybil estava aqui. Acredito que ela deve ter sido uma mulher de muito bom gosto
 Era, sim.  Camila voltava-se para o outro lado do corredor.
Agora Margheritte conseguia alcanar o que ela deveria estar pensando: Sybil era refinada, mas ela, Margheritte, no. Por isso no falara mais nada, porque o fato parecia ser to notrio que no precisava ser rude a ponto de salient-lo.
Se a batalha que estavam travando fosse por algo real, Margheritte, decerto, estaria se sentindo pssima naquele momento. Se quisesse se casar com Guilherme e ocupar o lugar de Sybil, aquela pequena resposta no teria sido apenas uma punhalada, mas um golpe fatal. Entretanto, como estavam apenas representando, podia dar de ombros e dizer o que lhe vinha  mente:
 Acho que vai levar uma eternidade para redecorar esta sute  altura de Sybil. Pode ser que fosse melhor at adiar um pouco o casamento, mas a idia de esperar
Margheritte deixou a frase no ar, certa de que Camila saberia como complet-la: "Estou ansiosa por agarrar este homem, e ele no pode, de modo algum, mudar de idia quanto a mim".
 Sem dvida.  Camila sorria, e, cuidadosa, acrescentou em seguida: 
 Bem, a manso tem oito dormitrios e, se Guilherme estiver com pressa mesmo
Camila empurrou uma porta.
 Este  o quarto amarelo. Achei que voc gostaria dele por causa da vista para o jardim.
Margheritte mal a ouvia. Aquela senhora era mestre no que fazia. Camila no s contornara a situao como conseguira apontar a possibilidade de Guilherme no estar com tanta pressa assim. Foi afastar as cortinas para que Margheritte visse a paisagem.
 Apesar da proximidade do inverno, ainda acho que esta aqui  uma vista belssima.
  adorvel, Camila. Isso me faz lembrar da diferena que h entre um desenho a ponta de pena e uma pintura a leo. Na verdade, so ambos muito lindos, embora to diferentes.
Pelo reflexo no vidro, Margheritte achou ter visto um breve sorriso nos lbios de Camila, mas, ao se voltar, ele no estava mais l.
O ambiente no era enorme, mas confortvel e espaoso, com uma cama grande e duas cadeiras acolchoadas colocadas junto  vidraa.
 O banheiro  aqui  Camila prosseguiu explicando.  Quando verifiquei esta manh, tudo parecia em ordem, porm, se houver algo de que precise, estarei do outro lado do corredor.
Aquele sinete que soara na vspera tornou a ser ouvido, e Camila levantou um dedo avisando:
 Nosso sinal de que o almoo est servido. Albert parece estar um tanto adiantado hoje. Creio que deve estar ansioso para tirar a tarde de folga e ir para a casa de sua irm. Vamos descer?
Quando j saam do quarto, Camila apontou para a direita.
 O dormitrio de Annebelle fica naquela extremidade. 
Margheritte estranhou o fato. O quarto da menina no poderia ser mais distante do de Guilherme.
 Achei que o aposento dela fizesse parte da sute principal  comentou, quase sem querer.
Camila ergueu muito as sobrancelhas.
 Querida, com uma enfermeira para cuidar dela vinte e quatro horas por dia?!
Margheritte sentiu-se corar. Fora uma observao tola.
 Acho que sou um tanto inexperiente nesses assuntos, Camila. De onde venho, as pessoas costumam elas mesmas tomar conta de seus filhos. Tambm no gostam de andar muito no meio da noite para cuidar deles.
 E onde  isso, meu bem?  Camila perguntou, educada, conforme desciam os degraus.
 De onde venho? Elmwood, Illinois, uma cidadezinha da qual a senhora, na certa, jamais ouviu falar.  to pequena que esta manso no seria considerada apenas uma residncia l. Seria uma vizinhana inteira!
Camila, dessa vez, esboou um sorriso com sinceridade, o que deixou Margheritte um tanto aliviada..
 E o que seus pais faziam? Eles ainda so vivos?
 No. Ambos morreram h quase cinco anos. Minha me tinha uma pequena creche em nossa casa, e meu pai era carpinteiro. Acho que foi da que aprendi que no h nada de errado em se trabalhar com as prprias mos.
 Entendo  Camila comentou de modo vago; j no sorria.
A mesa da sala de estar comportava vinte pessoas, mas, como acontecera no almoo do dia anterior, estavam ali apenas os quatro. Guilherme sentava-se a uma das cabeceiras, Camila  outra, Margheritte,  esquerda, e Annebelle, em seu cadeiro,  direita.
Margheritte observava os bons modos de Guilherme, sua destreza em manusear os talheres. Annebelle herdara mos muito parecidas, com dedos longos e finos e unhas bem-feitas. Olhou para as suas prprias, entrelaadas uma na outra em seu colo. Nada havia de errado com elas que no pudesse ser consertado com uma longa imerso em gua com sabo seguida de uma boa manicure.
Ellen acertara: fora impossvel remover por completo as manchas de leo e graxa que haviam ficado de seu trabalho na vspera. E, para piorar a situao, quebrara uma unha, ficando sem outra opo a no ser cort-las todas bem curtas. E nessas mos de unhas muito curtas e sem esmalte, com leves manchas de leo, o enorme anel de diamante parecia bastante deslocado
Camila assentiu de leve ao mordomo, assim que provou seu primeiro pedao de peru. Albert inclinou-se, ento, e serviu-lhe um pouco de vinho branco.
 Convidei alguns amigos para beberem algo conosco amanh  tarde.
 Que bom, vov!  Guilherme no parecia nem um pouco animado.
 No achei que uma festa seria de bom-tom agora. Aquela expresso diferente, mas muito caracterstica, que Margheritte j notara vrias vezes no semblante de Guilherme e que comeava a conhecer, apareceu mais uma vez. Era como se ele se sentisse perturbado ou entristecido com algo.
 Bom-tom para o qu, vov?
 Seu noivado ser uma completa surpresa, voc sabe, para muita gente. Achei que seria interessante, digamos, deixar que a novidade flua Pensei em convidar apenas alguns amigos mais prximos. Assim que souberem, a novidade ir se espalhar, e poderemos deixar o anncio oficial para mais tarde, com uma comemorao mais apropriada.
 Vov, no acho que estejamos preparados para anunciar nada ainda. Pretendemos ter um longo noivado.
 Deixe de bobagem, querido!  Camila interrompeu-o. Margheritte j est usando um solitrio, e isso  mais do que uma evidncia, no acha? Aparecero em pblico juntos. No podem se esconder at o matrimnio, no importa quando venha a ser. Voc vai apresent-la a seus amigos, lev-la para jantar vo freqentar festas juntos. No podemos negar o bvio, e aqueles de nossas relaes ficariam ofendidos se o fizssemos.
Margheritte estava um tanto assustada com tudo aquilo, mas sabia que nada era de verdade. O compromisso no iria longe, e, nesse meio tempo, teria sempre a desculpa de haver seus estudos e no poder freqentar todos esses lugares com o noivo.
 No vai querer que Margheritte tire o anel e finja que esto saindo num encontro sem maior significado, vai?  Camila no esperou pela resposta: 
 Alm do mais, acho que seria educado de sua parte se comunicasse o futuro enlace aos pais de Sybil, em particular, antes que o fato se torne pblico.
Aquele parecia ser o ponto de apoio de Camila, Margheritte concluiu. Se os pais de Sybil no fossem comunicados, no poderia haver o anncio oficial do noivado. A av de Guilherme mostrava-se muito ansiosa em dar uma festa, mas apontava ao neto todos os problemas que ele teria de enfrentar caso quisesse, de fato, se casar depressa. E no era nada disso.
 Talvez voc deva levar Margheritte junto quando for fazer o comunicado a eles, Guilherme  Camila insinuou ainda, num golpe de mestre. Ela prosseguia, experiente em sua arte:
 Alm do mais, achei que nossa reunio de amanh  tarde seria apropriada, porque, com certeza, vai querer sair com Margheritte no sbado. H um concerto belssimo e duas peas imperdveis nos melhores teatros da cidade.
 Terei de estudar muito este fim de semana  Margheritte apressou-se em dizer.
 Ora, minha querida, voc no vai trabalhar esta noite e nem amanh, porque a fbrica estar fechada devido ao feriado, certo?
 Bem sim
 E como a firma s funciona nos fins de semana em que o servio est acumulado, e este no  o caso agora, no ter de ir  Copeland at segunda-feira. Sendo assim, poder se dedicar aos estudos nos momentos em que deveria estar trabalhando e aproveitar seu perodo de descanso!
  que eu no trouxe roupas apropriadas para sair  noite
 Suponho que isso signifique tambm que voc no tem nenhuma Camila falava como se ressentisse das prprias palavras.
 E verdade.
 Isso  fcil de ser resolvido. Iremos s compras! Vai precisar de muitas coisas antes do casamento, mas poderemos decidir isso mais tarde. No h sentido em aborrecermos meu neto com tais detalhes agora. Guilherme, querido, Margheritte me contou como desenvolveu seu gosto por construes. No acha que  fascinante?
O modo como Guilherme olhou-a, naquele instante, fez Margheritte estremecer. Sentiu-se, ao mesmo tempo, irritada. Ela lhe pedira que lhe desse um mnimo de base para poder lutar na batalha oral com Camila. Ele mal se importara com isso, e agora sua av estava prestes a encurral-lo contra a parede. Entretanto, ainda que aborrecida com seu parceiro de
mentira, Margheritte no se sentiu no direito de abandon-lo.
  uma das melhores lembranas que tenho de meu pai  explicou.  Era to bom ir com ele at os locais onde estava trabalhando, em casas e edifcios
Agora, se Guilherme no desse um tiro no escuro, referindo-se a seu pai como um encanador ou coisa parecida, estaria a salvo.
 As histrias de Margheritte so, de fato, encantadoras, no, vov? Eu poderia ouvi-las para sempre e no me cansar. Margheritte respirou fundo. Guilherme se sara muito bem.
Pouco depois, Camila pediu a Albert que servisse o caf e a sobremesa na sala de msica.
 Tenho certeza de que o doce deve estar uma delcia, mas acho que vou ter de recus-lo  Margheritte se adiantou, rpido. E, voltando-se para o mordomo:   lgico que voc est com pressa para sair e passar o feriado com sua famlia, certo, Albert? Por que ento no deixa tudo como est e vai? Eu e o sr. Copeland cuidaremos da loua.
Camila, que comeava a se levantar, tornou a se sentar, parecendo perplexa. Margheritte aproximou-se de Guilherme, num abrao pretensamente carinhoso, e segredou-lhe:
 Precisamos acertar alguns pontos. Guilherme sorriu e assentiu de imediato:
 Concordo! Albert, sirva o caf  sra. Copeland, e depois, pode se retirar.
O mordomo mostrava-se felicssimo.
 Como desejar, senhor!
Margheritte foi ate o cadeiro e ergueu Annebelle nos braos. A no ser pelo pouco de pur de batatas que havia em seus cabelos, a criana se comportara bem durante a refeio.
 Venha, meu anjo! Vamos explorar a cozinha. Voc gosta de lavar pratos?
Camila voltou a se erguer.
 Duvido que minha bisneta tenha, alguma vez, tentado  falou, sem expresso.
 Ento, j  hora de comear!  Margheritte exclamou, animada.  Estou morrendo de curiosidade de conhecer esse cmodo. Sabe, Guilherme, a coisa que mais me interessa nos planos de Henry Bellows para esta manso  justo a cozinha.
Assim que pegou dois dos pratos de porcelana, Margheritte notou que Camila parar  soleira. Continuou, ento:
 Ele nunca deve ter retirado os pratos da mesa, ou no teria desenhado todas aquelas entradas laterais que servem de armrios, mas que, na verdade, no funcionam com muita praticidade. E o caminho para se atingir a sala de jantar, alm de estreito,  tortuoso demais.
Margheritte parou assim que entrou. O labirinto de gabinetes que Henry Bellows havia criado no existia mais. O caminho entre a sala de jantar e a copa era amplo e reto. E a cozinha parecia muito prtica e verstil. "Se este  um exemplo do bom gosto de Sybil", pensou Margheritte, atnita. E mais atnita ainda ficou quando deu-se conta de que estava ali para ser comparada a Sybil, e que, sendo assim, no deveria se sentir desapontada se aquele trabalho de melhoria na casa tivesse sido idia dela.
No entendia o que estava acontecendo consigo, pois estava, de certa forma, tensa diante da hiptese.
Sentiu Annebelle a seus ps, puxando a ponta de sua blusa de l, e abriu algumas gavetas,  procura de um avental. Quando o achou, colocou-o na menina, dando vrias voltas para poder amarr-lo, to grande ficava nela. Depois colocou a menina sentada num banco alto, prximo  pia.
Naquele momento, Guilherme entrou, trazendo uma bandeja com os demais talheres e loua sujos.
 Ficou muito mais bonita assim! Bem mais prtica e eficiente.
Guilherme deu uma olhada ao redor, como se acabasse de encontrar uma nova perspectiva para ver o ambiente, ao ouvir Margheritte.
 . Mas, como era antes, ficava muito mais divertido brincar de esconde-esconde aqui. Eu tinha vrios lugares onde ningum conseguia me encontrar.
 No foi idia sua redecor-la, ento?
 Era uma questo de manter ou no uma boa cozinheira, disse minha av. E o nico modo de agrad-la foi fazer as mudanas necessrias, que ela tanto queria.
Enfim, algo que no fora feito por Sybil, Margheritte concluiu, satisfeita, ainda sem entender por qu.
 Bem, eu no sabia. Voc poderia ter me avisado, Guilherme.
 E como eu ia saber que iria comear a criticar este lugar? Vai mesmo insistir em lavar prato por prato?
 Assim teremos tempo para conversar.
 Tambm teremos se colocarmos tudo na lavadora e nos sentarmos  mesa, saboreando uma xcara de caf. Vov no vai perceber a diferena.  Ele deu-lhe as costas, ento, voltando  sala de jantar para buscar o que ainda restava l.
Annebelle esticou os bracinhos, querendo alcanar um copo sujo, mas Margheritte afastou-o e entregou-lhe um medidor de plstico, mergulhando-o numa bacia com gua e espuma. Contente, a garota deu incio a seu "trabalho" de lavar a loua.
Enquanto isso, Margheritte apenas a observava, prestando ateno aos detalhes daquele rosto to delicado.
Assim que Guilherme retornou, ela perguntou, sem olh-lo:
 Annebelle no se parece muito com voc, no ?
 No.  a imagem viva de sua me  foi a resposta um tanto seca.
"Ento, Sybil foi uma bela mulher."
 Sobre o que vamos conversar?  Guilherme quis saber,recostando-se  pia.  Acho que me sa muito bem na resposta sobre seu pai.
 No h dvidas, mas acho que poder ir muito melhor na prxima vez em que Camila comentar sobre algo se souber sobre o que ela estar falando.
 E como foi que vov ficou a par da profisso de seu pai?
 Ela perguntou, e eu dei a resposta.
 Ento, na prxima vez em que vov lhe indagar sobre o que quer que seja, conte-me.
 Foi pouco antes do jantar, quando Camila estava me mostrando a parte superior da casa. No houve tempo para lhe contar. E, apenas para que tudo fique esclarecido de uma vez por todas, papai era carpinteiro. E era excelente em sua profisso, diga-se de passagem.
 Costumava acompanh-lo em seu trabalho para qu? Para ajud-lo a pregar e martelar?
Margheritte voltou-se, percebendo a ironia.
 Papai no usava muitos pregos, na verdade. Seu servio era to bom que costumava usar a prpria madeira nas junes.
 Entendo. Seja como for, fazia-lhe companhia, ficava olhando, e acabou por desenvolver um gosto apurado por servios manuais, certo? No vai ser difcil falar sobre o assunto com minha av, ento.
 No? Pois pode esperar por algo mais complicado. Camila vai tentar de tudo, no tenha dvida. Minha cabea est doendo
 Por t-la por perto? Margheritte assentiu.
 Esperava uma batalha direta, e havia me preparado para isso. Mas, em vez de um canho, cuja bala eu poderia ver para me defender, Camila preferiu usar uma metralhadora, se  que me entende: algo destrutivo e impossvel de ser evitado.
 No sei de onde tira essas idias.
 Sei o que estou falando, Guilherme. E quer saber o que mais? Acho que sua av tem mais medo de mim do que eu imaginava.
Margheritte encontrou uma esponja macia e comeou a esfregar o primeiro prato. Enxaguou-o e, assim que o colocou no escorredor, Guilherme tomou-o para enxug-lo.
 Talvez no seja medo, mas vov pode estar digamos impressionada. Camila  uma mulher sria, que sabe o que quer. No acho, por exemplo, que encorajasse Annebelle a chamar voc deGuilherme interrompeu-se, fazendo-a perceber que, at para pronunciar aquela palavra, ele vacilava. Ainda deveria doer muito ter perdido a esposa to cedo. No queria ver a filha chamando de me uma outra mulher que no sua querida Sybil.
 Acho que Camila foi um pouco longe demais naquele momento, Guilherme. Contudo, tenho certeza de que no acredita que, com essa idade, Annebelle saiba o que a palavra "me" significa. A pequena no pode ter lembranas de Sybil e, se ningum ficar lembrando o tempo todo que perdeu a mame, talvez no se d conta do que houve.
 E quanto  reunio?  Guilherme resolveu mudar de assunto.  Chamar todos os amigos da famlia e anunciar o noivado faz parecer que minha av espera que continuemos juntos por mais tempo. Alm deste fim de semana, pelo menos.
 Contar a novidade aos conhecidos no ser pior do que o que voc fez na produo, me entregando o anel e fazendo com que todos ali o vissem. Alis, Camila afastou por completo a possibilidade de fazer uma grande festa. Ou voc no percebeu? Tudo o que tem a fazer, Guilherme,  no falar com os pais de Sybil, porque
 E como acha que isso ser possvel? No posso dizer a minha av que no vou avis-los.
 No ser difcil, voc vai ver. Eles devem estar viajando, e aposto que Camila no ignora isso.
 Eles no so o tipo de casal que viaja muito, posso lhe assegurar.
 Isso no importa. Ainda que estivessem apenas aproveitando a vida, freqentando um clube de golfe ou qualquer coisa parecida que os muito ricos fazem. A questo ainda  a mesma. Aposto que, mesmo que voc quisesse, no haveria possibilidade alguma de contar-lhes sobre nosso noivado, e sua av deve saber disso, ou no teria lhe pedido que falasse com eles. Camila  muito esperta, Guilherme.
 Talvez tenha razo
  claro que tenho! Ela apenas tocou no assunto Para assust-lo. Camila no est ansiosa para que todo o mundo saiba sobre ns. Deve ter tido muito cuidado ao escolher as pessoas que convidou para amanh.
Annebelle bateu com o medidor plstico na gua ensaboada e espalhou nuvens de espuma em vrias direes. Um delas colou-se  sobrancelha esquerda de Guilherme, fazendo com que Margheritte e Annebelle rissem muito dele.
Divertido, Guilherme soprou para cima, empurrando a espuma em direo ao rosto de Margheritte. E, de repente, estavam os trs envolvidos numa brincadeira frentica que deixou-os ensaboados por toda a cabea e ombros.
A gargalhada de Annebelle iluminava a cozinha, to feliz estava a menina e, de repente, Margheritte sentiu um aperto de melancolia no peito, ao recordar-se de quando era ainda uma adolescente e ajudava sua me a cuidar das crianas que eram deixadas na creche que ela mantinha.
Um menininho em particular cativara Margheritte e, quando ele se mudou com a famlia para uma cidade distante, ela sofreu demais. Lembrava-se ainda das palavras da me para confort-la: " difcil am-los sem esquecer que no nos pertencem, no ?".
"Como seria fcil apegar-me a Annebelle!" Embora Margheritte tivesse em mente que aquele beb jamais faria parte de seu destino. Voltou-se, evitando um contato maior com ela, deixando-a partilhar do momento de alegria com o pai. Guilherme, sim, tinha todo o direito de estar com ela e usufruir cada instante em sua companhia.
Margheritte procurava distrair-se, prestar ateno  loua que lavava, at que percebeu que Guilherme, apesar de continuar brincando com Annebelle, falava com ela:
 De qualquer forma, no  necessrio que voc a encoraje.
 Encoraj-la? A quem? Annebelle?
 E claro que no! Refiro-me a minha av.
 Mas do que est falando?
 Do modo como vem agindo. Voc faz muito bem o papel de inocente, no? Fingindo todos aqueles sorrisos, fazendo de conta que aqueles olhares esquivos so acidentais
 No acredito que esteja de volta a esse assunto, Guilherme! Acha, por acaso, que nenhuma mulher seria capaz de olh-lo sem cair a seus ps? Admito que voc  bastante atraente, sim, mas devemos convir que no  nenhum prncipe encantado. E, se eu estivesse  procura de um homem, o que no estou, seria um dos ltimos em minha lista, pode estar certo disso.
 Verdade? Pois acho que voc anda enviando mensagens um tanto equivocadas sobre isso. O que pensa do beijo do outro dia? No precisou fingir muito para mostrar-se ardendo de paixo apenas para enganar minha av
Margheritte sentiu todos os nervos se enrijecerem.
 Pois fiz o que achei que voc queria! Apenas fingi o suficiente.
 Eu, pelo contrrio, julguei seus carinhos bastante sugestivos
Margheritte afundou as mos na gua com tanta fora que o resultado foi quase o mesmo que Annebelle conseguira com sua brincadeira infantil. Ignorando, porm, a espuma e a gua que se ergueram, continuou protestando:
 Se me lembro bem, j houve uma vez em que sugeri que voc no tem grande conhecimento sobre as mulheres ou o modo como agem e raciocinam. Se acreditou que aquele beijo tinha algo de "sugestivo", ento, meu caro, ainda tem muito a aprender!
Guilherme no respondeu, e nem precisou. O modo como arqueou as sobrancelhas foi bastante claro para fazer com que Margheritte entendesse o que estava pensando.
Sem que desse a ele um nico momento para pensar e tendo as mos molhadas e ensaboadas, Margheritte tomou-lhe o rosto e encostou seu corpo ao dele para beij-lo com ardor. Se Guilherme queria provoc-la, teria de arcar com as conseqncias.
Margheritte beijou-o como se ele fosse o homem de seus sonhos e como se tivesse a mxima confiana em seus poderes femininos de seduo. Podia sentir o gosto seco do vinho que Guilherme acabara de beber, e agora um calor que Margheritte no sabia de onde vinha parecia unir ainda mais seus corpos, criando uma atmosfera nova e deliciosa. Sem querer, ela deixou que um leve gemido lhe escapasse da garganta, traindo o prazer que extraa do momento. Seu instinto de autopreservao pareceu alert-la uma frao de segundo antes de Guilherme deixar de ser apenas um modelo de demonstrao para tornar-se o agressor e, quando os lbios quentes dele buscaram os seus com mais intensidade ainda, Margheritte afastou-se, num rompante.
 Bem, isto foi um carinho sugestivo  disse ela, quase sem flego.
E, da soleira, Camila, em seu tom mais cido, completou:
 Sem sombra de dvida. Envergonhadssima, Margheritte voltou-se mais uma vez para a pia e recomeou sua tarefa.
Camila, dando alguns passos lentos cozinha adentro, prosseguiu:
 Senti-me um tanto constrangida por no estar ajudando no servio aqui. Portanto, achei que deveria, ao menos, trazer minha xcara de caf para c. Devo admitir jamais ter imaginado que lavar a loua poderia ser to estimulante.
Camila deixou a xcara sobre a bancada e, sem mais nem menos, deu-lhes as costas e se afastou.
 Nossa! Cronometragem perfeita!  Guilherme parecia estar com algum problema para respirar direito, pois suas palavras saram aos solavancos.
 Deve imaginar que arquitetei essa pequena interrupo, no?  Margheritte o encarou, irnica.  Guilherme, cheguei  concluso de voc jamais se sentir sozinho em sua vida, porque tem ego suficiente para duas pessoas! Bem, seja como for, volto a afirmar: este foi um "beijo sugestivo", e  melhor no se esquecer de como se deu, porque jamais ter outro assim de mim!
Margheritte tirou o pano de pratos das mos dele, enxugou as suas e saiu tambm, abandonando-o, atnito.




CAPTULO VI


A porta que ligava a cozinha  sala de jantar era do tipo vaivm. Isso era timo, considerou Guilherme, uma vez que a fora que Margheritte aplicou para empurr-la, no propsito de fecha-la atrs de si, seria suficiente para quebrar qualquer fechadura.
Sentiu um leve puxo na manga da camisa e baixou os olhos para ver Annebelle, com os cabelinhos ainda cheios de espuma, fitando-o, curiosa.
 M?  murmurou a criana.
Era a terceira vez que se referia a Margheritte dessa forma, e isso, por alguns segundos, irritou Guilherme.
 O nome dela  Margheritte  disse ele, com voz firme. Com os olhos bem abertos, Annebelle pareceu digerir a informao para depois dizer algo que parecia ser, depois de sria interpretao, "Margheritte".
 Isso mesmo, meu anjo! Agora voc entendeu. Annebelle bateu as mozinhas, muito alegre e, com esse movimento, uma gota de sabo voou at seu rosto. Gritando de dor e raiva, por ter o olho atingido, ela ergueu os braos para o pai, que tirou depressa o imenso avental que a protegia da umidade e tomou-a no colo. Para seu alvio, Annebelle soluou duas os trs vezes, e depois se acomodou em seu ombro, mais calma. 
A casa estava mergulhada em um estranho silncio. Costumava haver rudos que Guilherme nunca fizera muita questo de decifrar de onde vinham, sons dos criados, talvez, em seus afazeres, mas hoje no havia nada.
Guilherme imaginou se Margheritte teria ido em busca de sua av. Se tivesse, ele daria tudo para poder ouvir a conversa que iriam ter. "Voc tem ego suficiente para duas pessoas", dissera ela. E podia ser, ele admitia, que fosse verdade. Mas seu apreo por si mesmo no era vaidade, como Margheritte quisera fazer parecer, significava apenas precauo.
Guilherme sempre fora uma espcie de alvo, tanto antes como depois de seu casamento, e isso acabara deixando-o por demais sensvel. E que alvo fora! No era, portanto, egosta ao admitir isso, mas realista. O dinheiro e a posio social dos Copeland j seriam suficientes, e havia ainda o fato de que no era um tolo e muito menos tinha aparncia desprezvel. Assim, as mulheres costumavam aparecer aos montes. Agora, ento, considerando-se que era um vivo que qualquer uma gostaria de trazer de volta  alegria de viver, Guilherme via-se como o pacote ideal para muitas jovens que poderiam estar interessadas em bem mais do que apenas amor.
Alis, uma das razes que mais o tinham feito detestar a atitude de Camila trazendo aquele batalho de provveis candidatas a esposa era que ela estivesse, de fato, encorajando essa espcie de caada ao vivo rico. Sua situao j era desconfortvel o suficiente sem Camila tentando dirigir seus passos.
Margheritte, porm, era um pouco diferente da grande maioria, e talvez estivesse sendo um tanto injusto, suspeitando que ela pudesse ter seus prprios motivos para estar envolvida naquilo que ele mesmo lhe propusera. 
O que no podia negar era que Margheritte aceitara a proposta quase que de imediato, e Guilherme tivera apenas sua palavra quanto a uma srie de coisas: que ela no sabia com antecedncia que ele era o proprietrio da manso projetada por Bellows, aquela que Margheritte aprendera a adorar em seus estudos arquitetnicos. Que ela no deixara Camila saber de propsito, fingindo-se de inocente, que era muito mais do que uma operria da fbrica. Que Margheritte no mudara de idia e parar de fingir no trato que ambos haviam acertado e passara a fazer seu prprio jogo, desejando muito mais do que o valor que fora acertado um casamento de verdade, talvez.
Fosse como fosse, no existiam provas de que Margheritte estava sendo sincera agora, e Guilherme no tinha outra opo: ou aceitava o que ela lhe dizia, ou no. A nica coisa sensata a fazer era tratar Margheritte com o mesmo tipo de precauo fria com a qual estava acostumado a lidar com as outras mulheres.
E ainda havia Camila a considerar,  claro, e a convencer. No entanto, algo dentro dele parecia dizer-lhe que era uma pena ter de pensar assim, porque Margheritte sabia beijar to bemLembrando-se do beijo, Guilherme imaginava se Margheritte no saberia que estava arranjando problemas para si mesma agindo assim. Teria feito aquilo de caso pensado, procurando despertar seu real interesse, talvez esperando que Guilherme deixasse de lado o acordo que tinham feito e lhe oferecesse algo melhor?
E tinha de fato importncia qual fora a inteno dela? Independente do que tivesse em mente, isso no mudaria os resultados. Aquela carcia tinha mexido com todos os seus nervos, Guilherme reconhecia, mas devia ter feito o mesmo com ela, a julgar pelo tremor em sua voz logo em seguida.
Assim, se Margheritte estava sentindo a mesma curiosidade que Guilherme, por que no explorar juntos o que incitava a ambos? As conseqncias valeriam a pena?
Ponderando dessa maneira, Guilherme levou Annebelle para seus aposentos, para trocar sua roupa, mas, em vez de deix-la no bero, pegou seu ursinho de pelcia, seu cobertor preferido e levou-a consigo para a sala de televiso, ao final do enorme corredor.
O beb poderia dormir to bem l quanto em seu quarto, e ele assistiria ao futebol, j que ningum parecia muito interessado em sua conversa. Assim que Guilherme pegou o controle remoto, e a televiso oculta no mvel de mogno comeou a surgir, devagar, Annebelle murmurou, sonolenta:
 M
Guilherme voltou-se de imediato, encontrando Margheritte enrodilhada num dos cantos do sof, um livro aberto a sua frente, alguns papis espalhados a seu redor e um bloco de anotaes entre as mos. Ela tambm parecia surpresa com sua presena. Margheritte fora para o local mais distante da cozinha que conseguira encontrar, Guilherme notou, e no pde deixar de sorrir por isso.
 Faa de conta que eu a segui como um m. Mas Margheritte no pareceu se alegrar com a brincadeira.
 Tem certeza de que no  o jogo que o atraiu? No sabia que havia uma tev aqui. Estava apenas procurando por um lugar tranqilo onde pudesse estudar.  Inclinou-se para a frente, comeando a recolher seus papis.
 No! No v embora!  Guilherme protestou.  No quero que retire tudo o que j arrumou para cuidar de seus afazeres!
 Bem, eu no queria, mesmo, ter de levar tudo isto, agora que j separei meu estudo por partes. Portanto, se tiver outro aparelho que possa ligar, e se no se importar
 No h outra televiso.  Embora estivesse dizendo a verdade, Guilherme sentiu uma ponta de remorso.  Mas se eu mantiver o volume bem baixo, acha que o jogo vai incomod-la?
Margheritte deu de ombros e observou as folhas que espalhara sobre a mesa aparadora, logo ao lado.
 Acho que no, Guilherme. J estudei ouvindo peras, novelas e outras coisas assim. Ento, acho que uma partida, por mais animada que seja, no me incomodaria muito.  E voltou sua ateno para as anotaes que fazia.
Guilherme ligou o aparelho, retirou o som por completo e sentou-se na outra extremidade do sof. Annebelle, caindo de sono, escorregou pelas pernas do pai e, arrastando seu cobertor e o urso, foi colocar-se junto de Margheritte. Guilherme estendeu os braos, para peg-la, mas, com um sinal, Margheritte o fez perceber que no se importava com a proximidade da menina.
 Ela vai adormecer logo.
 Eu gostaria de conversar com voc, Margheritte. Sabe que me entendeu mal, no  verdade?
 De diversas maneiras, suponho  ironizou, parecendo bastante desinteressada.
 Olhe, no que eu faa objeo a qualquer das coisas que voc vem fazendo. Na verdade, nem quero que pense que no gostei daquela demonstrao, na cozinha, h pouco.
 Verdade? Bem, minha me sempre me disse que um dia eu me arrependeria de perder o controle e agir por impulso. No tinha idia do quanto ela estava certa!
 Margheritte, no me importo se continuar com aqueles olhares longos, com os sorrisos  Guilherme se interrompeu para logo depois acrescentar:  Ou com os beijos sugestivos.
Tais palavras a fizeram erguer os olhos do papel.
 Pensei que no quisesse que eu encorajasse sua av
 Vov vai achar o que quiser, de qualquer maneira. No h razo para que no possamos nos divertir com tudo isso. Quis apenas deixar bem claro que no estou interessado em nada permanente. E desde que voc entenda que
 Ah, estaria mais do que disposto a me deixar seduzi-lo, suponho.  Margheritte encarou-o.  Lembra-se do que eu disse sobre o tamanho de seu ego, no? Pois vou refazer minha frase. Ele no  suficiente para duas pessoas, mas para trs ou quatro.
A voz de Margheritte se elevara, e o tom bem mais alto fez Annebelle gemer em protesto, j que estava quase adormecida. Deixando de lado suas anotaes, ela pegou a criana em seus braos e acalmou-a, num balano suave.
 Ora, Margheritte, se aquilo no foi um convite
 Eu no estava beijando voc, Guilherme Copeland!  Margheritte protestou, por entre os dentes.
 Certo. E eu sou Papai Noel!
 Pretendia apenas provar meu ponto de vista!
 E provou, sem dvida!
 J que estamos deixando as coisas bem claras, quero que entenda, de uma vez por todas, que no estou interessada em voc. Acha que no quer nada permanente, Guilherme? Pois saiba que a simples possibilidade me causa calafrios! Na verdade, a idia de seduzi-lo j  suficiente para me provocar arrepios. Meu nico objetivo aqui  ganhar o dinheiro que me prometeu. Ser que estamos entendidos agora?
Guilherme guardou silncio por instantes, imaginando se Margheritte acreditava mesmo no ter nenhum interesse pessoal nele, pois aquele beijo dissera exatamente o contrrio. A no ser,  claro, que ela estivesse acostumada a beijar qualquer homem com tal abandono. Afinal, Margheritte beijava como ningumMas Guilherme achou melhor no divagar sobre o assunto naquele momento.
 Quer fazer uma pequena aposta?
 Que aposta, Guilherme?
 Que aquele no foi o ltimo beijo sugestivo que me deu?
Margheritte no respondeu, mas Guilherme no esperava resposta alguma, tampouco. Deixou de olh-la e, preguioso, saiu do sof e estirou-se no carpete macio para ver a partida mais de perto.
Ficaram assim, em silncio, at o intervalo, quando Guilherme deu-se conta de que Margheritte permanecera em absoluta quietude. No que precisasse olhar para v-la ali, pois sentia seu perfume suave. Ou o que estava sentindo era ainda resqucio do que ficara impregnado em sua roupa depois daquele contato to ntimo, to fsico? Fosse qual fosse a origem do aroma, ele estava l, doce e provocante.
Voltou-se devagar, para saber o motivo daquele mutismo total. Viu Margheritte na posio mais desconfortvel que pudera imaginar. Seus olhos estavam fechados, uma das pernas pendendo para fora do sof, enquanto Annebelle, profundamente adormecida, esticara-se sobre sua barriga.
Guilherme aproximou-se devagar e retirou o livro, que acabara ficando por baixo das perninhas de sua filha. Depois foi a vez do bloco de anotaes, o qual, ao ser removido de baixo do cotovelo de Margheritte, provocou-lhe alguns gemidos de desconforto.
Guilherme aguardou, paciente, lendo algumas linhas do ensaio que ela comeara a escrever. Ento, vendo que ela se acalmara outra vez, procurou ajeit-la numa posio mais apropriada.
Procurou faz-la estender-se e tomou-a pelos ombros, ficando a milmetros de distncia de suas faces, capaz de perceber o quanto seus traos eram delicados e meigos.
Agora Margheritte no estava fingindo para Camila. Aquele era seu semblante ao natural, adormecido, belo. De repente, como se estivesse sonhando, ela sorriu e ergueu um pouco a mo direita, como se fosse toc-lo. Mas o brao caiu para o lado, na continuidade do sono.
Guilherme sentiu uma vontade imensa de tornar a beij-la, e se encontrava prestes a faz-lo quando o telefone do hall tocou. De imediato, Margheritte ergueu as plpebras, um tanto alarmada. Ele se afastou depressa, lembrando-se da brusquido com que ela sara da cozinha E a expresso de Margheritte, daquele instante, no parecia muito satisfeita. No mesmo! Margheritte estivera sonhando. Embora em seu sonho as feies de Guilherme no estivessem assim to prximas
Agora no sabia o que era pior: ter criado tal impresso doce em sua mente ou ter vivido de fato aqueles momentos em que Guilherme quase a beijara. Sentia seus lbios latejarem. Seria uma reao ou um aviso? Guilherme, pensou um tanto irritada, deveria achar que era ansiedade por seu contato. Ficou ali, deitada de costas, o peso de Annebelle sobre si, no querendo se mover para no acordar a menina. Instantes depois, Guilherme retornava  sala, sem esconder a preocupao. Com destreza, pegou Annebelle no colo sem deixar que despertasse e ajeitou-a no outro canto do sof.
Margheritte sentou-se, depressa. No pretendia ficar naquela posio por muito tempo diante dele. Mas Guilherme no parecia v-la agora.
 Ms notcias?  arriscou, passando a mo pelos cabelos.
 Na certa, para minha av, no. Mas, j que foi ela quem arranjou tudo,  lgico, no deve ser nenhuma surpresa.
Margheritte suspirou.
 O que foi agora?
 No h dvida de que Camila Copeland  de uma inteligncia brilhante.
E, como se tivesse adivinhado que falavam dela, Camila apareceu  porta.
 Era a irm da sra. Wilson  Guilherme disse, assim que viu a av.  Ligou para avisar que a enfermeira no vai voltar ao trabalho esta noite. Talvez nem amanh.
Camila exultou.
 Est me dizendo que ela se demitiu?! Que maravilha! Jamais gostei
 No, vov  ele a interrompeu, muito srio. Guilherme observou Margheritte, e ela quase pde ler seus pensamentos. Se Camila tinha arranjado aquela cena, jamais admitiria que sabia do que Guilherme estava falando.
 O fato  que a sra. Wilson pegou uma gripe to forte que no poderemos contar com seu apoio pelo menos por uns dois ou trs dias.
Camila parou de sorrir e assentiu.
 Bem, o que se pode fazer? Talvez esteja de volta no sbado, ento.
 E como pode ter idia de quando ela vai retornar?  Guilherme no se conteve.
Camila ergueu uma sobrancelha.
 No tenho idia, querido. Estou apenas concluindo o que me parece bvio. E depois, mal posso imaginar um vrus forte o suficiente pra derrubar a sra. Wilson. Ademais, devemos tomar precaues para que ela no volte logo e passe a enfermidade para Annebelle. Espero que voc lhe tenha dado a semana inteira de folga.
Margheritte mal podia acreditar. Em poucos segundos, Camila deixara de ser a acusada de saber de alguma coisa e tinha colocado o neto como grande heri por ter afastado a enfermeira doente de sua filhinha. Assim, Guilherme no poderia discutir sobre o assunto!
 No, vov.  Ele tambm se surpreendeu com a percia de Camila.  Deixei essa parte para voc. Por que no liga para a sra. Wilson agora e a tranqiliza, dizendo-lhe para no se incomodar em vir trabalhar to cedo?
Camila no se deixou abalar:
 No, no. Cuidarei disso amanh. Afinal, ela pode ficar boa mais cedo. Pode ser que nem se trate de uma gripe
Margheritte continuava imaginando o que Guilherme estaria pensando: "S vai ser uma gripe se voc disser a ela para que seja, vov".
Camila sentou-se numa poltrona prxima.
 Joga bridge, querida?
No, Camila. Sinto muito, mas nunca aprendi.
 Ora, no faz mal.  que achei que voc poderia aproveitar alguns momentos para descansar do estudo.  Ela olhava para os papis espalhados sobre a mesa.  Mas amanh vai poder repousar bastante, com certeza. J que vamos s compras e depois almoar foraCamila se interrompeu e voltou-se para Guilherme. Ento, indagou:
 Meu querido, seu dia estar muito ocupado?
 Olhe, vov, se vai sugerir que eu leve Annebelle comigo para a fbrica  Guilherme meneou a cabea, mas Margheritte se adiantou:
 Pensei que tivesse resolvido tirar folga.
 Bem, dispensei os funcionrios, mas no a mim mesmo. E depois, a Copeland vai estar muito agradvel e silenciosa. Assim, poderei colocar alguns assuntos pendentes em dia.
 No quis sugerir que voc levasse Annebelle para ficar na empresa o dia inteiro  Camila prosseguiu, como se no tivesse ouvido o que diziam.  No entanto, como j fiz as reservas para o almoo, acreditei que, por uma ou duas horas
 Vov, tenho um almoo com um fornecedor muito importante.
 Muito bem, ento.  Camila esboou um plcido sorriso.  Vamos considerar que segunda-feira ser uma excelente oportunidade para Annebelle e Margheritte se conhecerem melhor. Ah! E para Annebelle praticar seus bons modos em pblico tambm. Algum de vocs gostaria de um pouco de sobremesa agora? Vou pegar para mim e, j que os dois cuidaram da loua, creio que eu mesma poderia servir.
Camila saiu, sem ao menos esperar por uma resposta. Guilherme acomodou-se no brao do sof.
 Acha mesmo que vov arranjou tudo para que a sra. Wilson no viesse trabalhar, Guilherme?
 Pensei que voc j tivesse dito algo sobre minha av ser maquiavlica Porm, no acha que, assim, tudo pareceria muito conveniente?
 Pode ser Seria uma oportunidade para que ela mesma pudesse julgar se serei ou no uma boa madrasta. No posso dizer qual seria a melhor maneira de desiludi-la quanto a isso.
 Poderia surrar Annebelle em pblico. O que acha? 
Margheritte voltou-se para o beb, que dormia como um anjo.
 Eu jamais faria tal coisa, Guilherme. Mas acho que terei de ignor-la o mximo que puder. Se fizer parecer que no gosto de ser perturbada por crianas, em especial quando voc no est por pertoMargheritte percebeu que suas palavras deixavam Guilherme mais aliviado. "Ser que isso se deve ao fato de no conseguir maltratar Annebelle ou porque ele no quer me ver ligada  menina, tanto quanto eu mesma no quero me deixar seduzir pelos encantos da pequena?"
 H um lado bom em tudo isso, Guilherme. Vai ser uma boa desculpa para impedir que a reunio que Camila convocou para sexta-feira saia de nosso controle.
 Como assim?
 Sugira que Annebelle j possa estar com a mesma gripe que afetou a sra. Wilson. Alis, ela est com o rostinho to corado que at parece febril
 Annebelle sempre foi corada assim.
 Sei disso, mas, se voc insistir no assunto, acredito que Camila no iria arriscar ter a menina doente em meio a sua festinha, porque, sem uma enfermeira para cuidar dela de modo apropriado, seus planos de ter uma tarde tranqila com os amigos iriam por gua abaixo. Alm do mais, Camila no poderia aceitar tal possibilidade sem admitir tambm que a doena da sra. Wilson  uma fraude.
Guilherme olhou-a por segundos. Depois falou:
 Margheritte, voc  quase to maquiavlica quanto minha av.
 Obrigada, se  que isso foi um elogio. Mas, pelo menos, voc no ter de confiar nos pais de Sybil para conseguir uma desculpa e manter nosso noivado em segredo. Eu, contudo, ainda acho que eles devem estar viajando para algum local muito agradvel. No entanto, podem ter levado um telefone celular
Camila havia avisado que Margheritte poderia recolher-se to tarde quanto quisesse, porque Albert prepararia seu desjejum a qualquer momento, na manh seguinte. Ela prpria, porm, estaria de p s oito horas, no deixara de frisar.
Margheritte compreendeu muito bem a mensagem que estava implcita em tais palavras e, poucos minutos depois das oito, j se encontrava descendo a escadaria da manso, encaminhando-se para a varanda, onde Camila dissera que se costumava servir o desjejum em ocasies festivas ou feriados ensolarados.
Aquele dia nascera claro demais para o ms de novembro. Por isso, Margheritte parou um pouco de andar para observar a beleza da paisagem que se podia ver dali.
Depois, respirando fundo, encaminhou-se para o lugar vazio ao lado do cadeiro de Annebelle. Acariciou os cabelos macios da menina, que comia seu mingau, e tinha um pouco dele espalhado pelas faces.
 Est gostosa esta comidinha, meu amor?  Margheritte murmurou, sentando-se.
Camila tomava seu caf e tinha um caderno diante de si, mas deixou-o de lado para dar total ateno  recm-chegada. Olhou com certo desprezo para a cala velha de jeans que Margheritte usava, e depois tocou a sineta de prata para chamar o mordomo. Ento, muito sria, comentou com Guilherme, que estava sentado na frente dela:
 No se lembra mais de que um cavalheiro se levanta quando uma dama se aproxima?
 Ol, Margheritte  cumprimentou ele, mal se erguendo da cadeira, sem se desviar do jornal que lia.
 H alguma notcia espetacular hoje ou Guilherme  sempre assim?  Margheritte ergueu as sobrancelhas diante da quase indiferena dele.
 Sempre  ele mesmo respondeu.
 E apenas um mau hbito que meu neto tem, Margheritte. Tenho certeza de que voc vai conseguir fazer com que Guilherme o abandone, querida.
"Um mau hbito", repetia Margheritte em pensamento, imaginando como e onde Guilherme o adquirira.
O desjejum poderia muito bem ser um dos piores momentos para ele, um que lhe trouxesse pssimas recordaes. Teria sido, talvez, o momento em que ele e Sybil poderiam desfrutar da companhia um do outro, sem interrupes ou telefonemas indesejados.
Agora Guilherme lia o peridico com tanta ateno Talvez para se esquecer do local vazio que Sybil ocupara  mesa. Talvez o lugar dela fosse o mesmo em que Margheritte se acomodara. Sentiu-se arrepiar em vista disso. O que seria pior para Guilherme? A cadeira vazia da esposa falecida ou olhar para ela e ver que outra estava l, apenas fingindo que era uma candidata a ocup-la em definitivo? Bem, nesse caso, no era de se admirar que ele no tentasse se desviasse da leitura..
Margheritte sentiu-se de repente to triste com tais conjecturas que baixou a cabea. Camila no seria capaz de perceber que seu neto ainda no estava pronto para amar de novo? Ou saberia, mas no daria maior importncia ao fato? Ou, pior ainda, crendo que Guilherme jamais conseguiria vir a amar outra mulher, tivesse em mente apenas um matrimnio de convenincia?
Aquelas moas todas que Camila chamara a sua residncia como possveis candidatas a esposa de Guilherme estariam cientes de que viveriam uma farsa, e no um romance?
Margheritte recusava-se a imaginar que poderia haver tanta frieza assim num casamento arranjado. Mesmo para os padres de Camila. Afinal, tratava-se de casar um homem riqussimo e bem posicionado na sociedade. Algumas jovens poderiam desejar Guilherme com ardor, sim.
De repente, Margheritte deu-se conta, em meio a seus devaneios, que Albert estava curvado junto dela, perguntando por sua preferncia para a refeio, pelo menos pela segunda vez.
 Apenas torradas e caf, Albert, obrigada  apressou-se a dizer.
 Vamos ter um dia cheio  Camila observou.  Precisar de muita energia para as compras, meu bem.
O mordomo se ps a servi-la. Margheritte disse, vacilante:
 Camila, a meu ver, no h necessidade de comprarmos nada. J que no vamos sair no sbado  noite
 Por que no?  Camila pareceu surpresa e desapontada ao mesmo tempo.
 Bem, se a sra. Wilson no estiver de volta, no acho que devamos deixar Annebelle
 Bobagem! Cr, mesmo, que me esqueci de como se d banho numa criana? Posso estar velha, mas no caduca.  Camila sorriu de leve, um tanto enigmtica.  E depois, se Guilherme fizer suas reservas para o ltimo horrio, poderemos deixar Annebelle em ordem antes mesmo de vocs dois sarem. E eu terei apenas de zelar pelo sono dela.
Margheritte sentiu-se derrotada. Sua tentativa fora to desajeitada que j no tinha como argumentar.
 E depois, voc vai precisar de algo para vestir hoje  noite  Camila acrescentou, bebericando seu caf.
"Chegou o momento de eu sugerir que Annebelle no parece bem." Entretanto, ningum em s conscincia poderia olhar para aquele beb esperto, corado e risonho e sugerir que estivesse na iminncia de pegar uma gripe. E Guilherme parecia ter chegado  mesma concluso, porque apenas deu de ombros e voltou ao jornal.
 No se esqueceu de que deve falar com os pais de Sybil, no , meu querido?  Camila mostrava um ar triunfante.  Quanto mais cedo, melhor, voc sabe. Eu detestaria que eles ficassem sabendo de seu noivado por outras pessoas.
Camila tornou a abrir o caderno que deixara de lado e, marcando uma pgina, empurrou-o para Margheritte.
 Fiz uma listinha do que precisaremos comprar. 
Margheritte nem se deu ao trabalho de ver item por item. O comprimento da lista j era suficiente para fazer seu estmago sentir-se to vazio quanto sua carteira. Guilherme dobrou o vespertino e levantou-se.
 De quanto acha que vai precisar?  Enfiou a mo no bolso.
 No seja tolo!  Camila protestou de imediato.  No pode comprar roupas para Margheritte antes do casamento. No seria apropriado. No entanto, se quiser dar-lhe um carro, como presente de noivado
 Isso  uma indireta para que eu deixe meu automvel para seu uso hoje?
 No, eu agradeo  Margheritte interveio, firme, fazendo com que Camila a olhasse, interessada.
 Quando vou s compras, prefiro tomar txis. Assim, deixo o trabalho de estacionar para outra pessoa.
Camila ergueu o rosto para que Guilherme lhe desse um beijo. Depois, indo at o cadeiro de Annebelle, ele limpou um pouco de mingau da bochecha rosada, para poder beij-la tambm e, em seguida, aproximou-se do lugar ocupado por Margheritte. 
De imediato, ela sentiu todos os nervos se retesarem. Procurou ficar imvel, sabendo que Guilherme a beijaria, mas j haviam discutido sobre o que era e o que no era um beijo sugestivo. Portanto, achou que pudesse sentir-se segura. Guilherme inclinou-se e tomou sua boca na dele, num beijo que deveria ser comum, mas que acelerou sua respirao. Sentiu os dentes dele roando de leve seus lbios, acendendo cada partcula de seu corpo. Margheritte procurou resistir e soube que ele percebeu isso quando o viu erguer o corpo novamente, com um ligeiro sorriso passando-lhe pelos lbios maliciosos.
S agora Margheritte dava-se conta do quanto ainda teria que se arrepender por ter agido num impulso, beijando-o daquela forma na cozinha, na noite anterior.
Camila aguardou at que ele se fosse, e afastou sua xcara.
 Acho que poderemos comear com a sute principal assim que voc terminar seu desjejum e ns conseguirmos limpar Annebelle  disse.  Assim voc poder pensar nas mudanas que vai querer fazer por l. E, se tivermos sorte em achar os tecidos certos, poderemos, hoje mesmo, passar por uma loja de decorao e encomendar o servio completo.
Margheritte olhou para a meia fatia de torrada que tinha na mo. Parecia-lhe loucura, mas comeava a entender porque Guilherme resistia tanto  idia de um novo casamento Uma outra esposa poderia tentar organizar sua vida tanto ou mais do que Camila j fazia.
Camila, aos olhos de Margheritte, tentaria fazer com que ela cometesse alguma gafe irremedivel e, dessa forma, fosse descartada da lista de possveis candidatas.
Margheritte queria muito cometer essa gafe. Adoraria que Camila a detestasse e que aquela situao absurda acabasse de uma vez, mas sabia que teria de armar uma situao em que Guilherme estivesse presente para ver o que se passaria, dando-lhe ensejo, assim, de terminar com aquele compromisso falso.
Pouco depois, estavam as duas entrando na sute principal da manso. Margheritte ainda vacilava, trazendo Annebelle pela mo. Camila, ao contrrio, mostrava-se bem-disposta e decidida.
O sol penetrava no ambiente enorme atravs de janelas muito bem dispostas em trs das paredes. O mobilirio era lindssimo, e o ambiente, no geral, parecia de sonho.
Margheritte entreabriu os lbios, surpresa e encantada. Seu olhar foi direto  lareira, que ocupava a parede do centro. Sobre ela aparecia uma pintura enorme, representando uma mulher belssima. Era Sybil, sem dvida, pois seus grandes olhos escuros eram muito semelhantes aos de Annebelle.
Margheritte reparou que um suave roupo de seda estava ainda sobre um diva prximo. Era estranho Seu retrato ainda acima da lareira do dormitrio, uma pea de roupa ainda sobre a moblia No admirava que Camila tivesse insistido para que Margheritte fosse at ali e visse tudo aquilo. No havia melhor maneira de mostrar o quanto a praticidade de Margheritte se opunha ao romantismo e a elegncia de Sybil.
 Como pode algum competir com uma mulher assim? Margheritte flagrou-se indagando.
 Minha opinio pessoal, minha cara, : no tente.
Atnita, mal podendo acreditar no que acabara de ouvir, Margheritte voltou-se para encarar Camila. No havia sarcasmo na voz da velhinha. Seu tom era, at, bastante casual.
Camila no procurava impression-la. Apenas atestava um fato bastante claro para Margheritte, uma confirmao de que o plano que montara com Guilherme estava, afinal, dando certo. Eles queriam que Camila considerasse Margheritte inaceitvel e pareciam estar tendo sucesso nisso. No entanto, para seu prprio espanto, Margheritte sentia aquela afirmao de Camila como uma suave bofetada em seu rosto

























CAPITULO VII


Margheritte parecia ainda estar em choque quando Camila seguiu adiante. O que houvera fora apenas uma pausa momentnea, longa apenas o suficiente para que o significado de cada slaba adquirisse seu sentido mais real.
 Eu quis dizer,  claro, que voc  diferente de Sybil, e que talvez o contraste seja parte do motivo que levou Guilherme a ach-la to atraente.
Mesmo querendo ser suave, Camila apenas conseguia fazer com que ela se sentisse pior.
Margheritte olhou para as achas de lenha que haviam sido colocadas na lareira, talvez na preparao de uma noite romntica que nunca chegou a acontecer. Mais para trs, dois armrios idnticos, que pareciam ser antigidades. Margheritte tocou de leve a porta de um deles, e esta se abriu, expondo um aparelho de televiso quase to grande quanto o que vira sair do outro mvel, na vspera.
 Ento havia outro lugar onde ele podia ver o jogo  murmurou, quase sem sentir.
 Guilherme lhe disse tal coisa?  Camila indagou, de imediato.  Decerto no queria ficar sozinho
Era como se uma frase tivesse sido deixada no ar, e ela tambm incomodava Margheritte: "Qualquer companhia seria melhor do que nenhuma".
 No entanto, no estou certa se meu neto j mandou que consertassem este aparelho  Camila continuou, casual.  Houve uma poca em que foi, digamos assim, objeto de certa frustrao.
Margheritte no compreendeu bem aquela observao, mas achou melhor no especular. Se Guilherme tinha quebrado o aparelho de tev, deveria ter tido seus motivos. Podia ser at que ainda os tivesse. Na verdade, conforme Annebelle fosse crescendo, sua solido e sensao de perda poderiam se acentuar, no s por ele mesmo, mas porque a menina jamais conheceria a me. Margheritte tornou a fechar a porta do armrio e deu alguns passos pelo aposento.
 O banheiro e o closet ficam logo ali  Camila indicou com um gesto.
Margheritte gostou de ver que os detalhes criados por Henry Bellows ainda estavam no lugar, no toalete. A banheira com ps de felino fora envolta numa cortina que, a seu ver, era ridcula, mas nada havia sido mudado na estrutura da decorao. 
E por muito tempo nada seria, Margheritte sabia, nem seria ela a responsvel por alguma modificao. No entanto, se Guilherme acabasse aceitando uma das beldades que sua av lhe apresentava como futuras candidatas a esposa, a nova sra. Copeland iria, sem dvida, querer dar seu toque pessoal quela sute.
 Bem, acho que a senhora conseguiu me sugerir algumas idias  Margheritte voltou-se para Camila.
 Espero que sim.
 Contudo, acho, que, por enquanto, j vi o suficiente. Margheritte se encaminhou para a sada, procurando no se ater aos pontos mais romnticos da criao de Bellows. No conseguia imaginar como um homem msculo como Guilherme se sentiria num quarto decorado com tanta feminilidade. Ou talvez fosse o contraste entre a intensa virilidade dele e as peas ali presentes que a deixavam to pouco  vontade. Alm do mais, sentia uma dificuldade fora do normal em imaginar Guilherme e Sybil naquela cama enorme.
Quando Margheritte chegou  soleira, Annebelle soltou um gritinho, tendo nas mos um chinelo com plumas que retirara de debaixo do diva.
 Estou aqui, e vov, logo atrs de voc, meu amor  Margheritte confortou-a.  No vamos deix-la sozinha. Annebelle fez um biquinho to cativante que foi impossvel a Margheritte no voltar para busc-la. E pensar que no iria mostrar interesse pela menina quando fossem passear
 Bem, o txi estar aqui daqui a pouco, e quero comear logo com nossos afazeres de hoje  Camila avisou, passando pelas duas.
 No vamos levar a cadeira de Annebelle para coloc-la no carro?  Margheritte quis saber, quando j desciam as escadas.  No teremos onde acomod-la quando estivermos fora do automvel.
 Sinto muito, mas no vou ficar levando uma cadeirinha de beb de loja em loja. J teremos muitos pacotes para carregar. Alis,  por isso que, quando vou s compras, alugo um carro para o dia inteiro.
Esse era o tipo de extravagncia que jamais teria ocorrido a Margheritte.
 Parece bvio que perteno  classe operria.  Ergueu uma sobrancelha.
O dia seguinte ao feriado de Ao de Graas era, por tradio, o mais movimentado do ano nas lojas, o incio oficial da temporada de Natal. Parecia que todas as pessoas de Chicago tinham ido s ruas nessa ocasio, pois estavam cheias de carros e pedestres. Caixas e sacolas pareciam emergir de todos os lugares, e um burburinho generalizado se instalara no centro da cidade.
O motorista do txi acabou encontrando um local para estacionar numa via lateral pouco movimentada, e Camila desceu depressa, dirigindo-se a um estabelecimento pequeno, que parecia abandonado.
L dentro, Margheritte deu uma olhada geral e foi, aos poucos, percebendo por que o local no tinha quase fregueses. Havia apenas um vestido, colocado num manequim, logo  entrada, mas Margheritte se deu conta de que aquela pea de roupa deveria custar mais do que todas as que j usara na vida juntas.
A atitude de Camila ao traz-la ali poderia lhe dar duas interpretaes: a velhinha estaria sendo gentil em quer-la num local sofisticado e caro, sem se importar em gastar com Margheritte, ou teria resolvido usar de mais um artifcio para deixar evidente o quanto Margheritte no pertencia ao estilo de vida que Guilherme levava.
Margheritte recordou a atitude dele, puxando a carteira para oferecer-se para pagar por suas despesas. Mesmo se Camila no lhe tivesse mostrado a impropriedade do gesto, Margheritte no teria aceitado um centavo sequer, pois seria apenas mais uma quantia que teria de devolver-lhe no futuro.
 No tenho condies de comprar nada daqui  sussurrou, sem notar.
 Talvez nem tudo seja to inacessvel quanto imagina. 
Margheritte encarou Camila e a custo conteve uma gargalhada.
 Sou capaz de jurar que no tenho o suficiente sequer para comprar as etiquetas dos trajes!
Camila riu de tal comentrio e seguiu observando as mercadorias.
 Minha querida,  lgico que no posso comprar-lhe panelas e potes de gelia para o Natal. Mesmo se voc viesse a precisar deles, no seria muito divertido. Alm do mais, presentes tm de ter um certo tom de frivolidade, no ? Ento, por que no um vestido? Um muito lindo e nada prtico. O que acha?
Margheritte fitou o belo vestido exposto no manequim.
 Se essa  sua idia de falta de praticidade, acho que poderamos apenas alug-lo
Annebelle aproximou-se, caminhando devagar, parecendo tambm deslumbrada com tudo o que via. Apontou para o manequim e disse, em seu jeito peculiar de falar:
 Bonito.
Sentindo-se como que coagida pela opinio geral, Margheritte acabou rendendo-se s evidncias.


Guilherme e o fornecedor com quem almoaria ocupavam uma das mesas de fundo do restaurante. Apesar da atmosfera tranqila do lugar, os dois ambientes estavam repletos nesse dia. Risadas, conversas e at uma voz de criana pequena enchiam os ouvidos.
 Papai!
O som daquela simples palavra fez Guilherme imaginar quem poderia ter trazido um beb para um local como aquele. At mesmo Camila, que adorava comer ali, mudara suas reservas quando soubera que teriam de ir s compras com Annebelle.
De repente, a ligao estava feita. Camila no mudara as reservas! Voltou-se, ento, deparando com o rostinho de Annebelle por trs de uma das cadeiras de espaldar alto, trs ou quatro mesas adiante.
 Sinto muito, Jack, minha filha est logo ali, e acabou de me achar.  Guilherme se levantou, diante do sorriso do outro.
Annebelle logo ergueu os bracinhos para ser erguida.
 No olhe para mim assim  disse ele  menina.  Duvido que esteja desconfortvel a. E aposto que se divertiu muito mais no passeio do que se tivesse ido comigo  fbrica comigo.
Annebelle aquiesceu, parecendo ponderar sobre o que escutara. Naquele momento, Jack apareceu por trs de Guilherme, muito alegre.
 No acha que mereo ser apresentado?
O olhar dele, Guilherme notou, estava fixo em Margheritte. Um tanto a contragosto, fez as apresentaes:
 Senhoras, este  Jack Baxter. Jack, minha av, Camila Copeland, minha filha Annebelle, e esta  Margheritte Griffin, minha noiva.
Jack pareceu perder o brilho e o entusiasmo. Camila, cheia de tato, observou que o garom que os servia estava um tanto confuso com a situao.
  um grande prazer conhec-lo, sr. Baxter  cumprimentou-o.  Entretanto, acho que j ficamos por aqui tempo demais, e ainda temos muito a fazer.
Guilherme soltou as amarras que prendiam Annebelle ao cadeiro e dirigiu-se a Margheritte:
 Como esto indo as coisas?  Ele percebera que quase no havia pacotes e, para seu desagrado, notava que Margheritte parecia pouco  vontade em relao a Jack.
 Sua av j enviou um carro para casa abarrotado de sacolas. Devia ter me avisado que Camila era uma compradora compulsiva.
Guilherme achou graa e deu-lhe um beijo rpido na face.
 E olhe que hoje vov est muito mais lenta do que h alguns anos
 Sei. Est me dizendo isso apenas para me consolar, no ? Bem, vejo voc hoje  noite, se eu sobreviver at l.  Margheritte sorriu em direo a Jack, muito educada, e seguiu Camila, que j deixava o estabelecimento, no parecendo demonstrar cansao algum.
Instantes depois, quando voltavam a seus lugares, Jack ainda parecia um tanto encantado. Guilherme observava-o, sem poder conden-lo. Afinal, o homem fora exposto  viso direta de Margheritte em seu jeans bastante justo. 
Na fbrica, ele jamais se dera conta, mas naquele ambiente, em comparao s outras mulheres, Margheritte parecera-lhe, no mnimo, impressionante.
Era estranho, mas Guilherme reconhecia que, no local requintado em que se encontravam, as roupas simples de Margheritte tinham parecido muito autnticas, quase excntricas, e isso a destacara. A impresso que passara a todos era a de uma jovem segura demais de si para se importar com a opinio alheia, disposta a usar o que bem entendesse, e muito, muito sensual.
Com Annebelle nos braos, ento, ela parecera Os pensamentos foram interrompidos de repente. Guilherme sabia que era melhor parar por ali. Enquanto podia.


Os preparativos para a pequena reunio planejada por Camila estavam em andamento quando Guilherme voltou para casa naquele fim de tarde.
O andar de baixo tinha uma atividade agitada, o que contrastava com o andar superior. O quarto de Camila permanecia fechado, bem como os aposentos agora ocupados por Margheritte. E o de Annebelle encontrava-se vazio.
Guilherme bateu com suavidade  porta do quarto de Margheritte e, ao no obter resposta, perguntou-se se elas podiam ainda estar nas lojas. Instantes depois, no entanto, uma ligeira fresta foi aberta, suficiente apenas para que divisasse parte do rosto dela.
 Quase no o ouvi
 Eu no queria que minha av escutasse  Guilherme explicou.  Podemos conversar um instante antes de a festa comear?
Margheritte demorou a responder, depois convidou:
 Acho melhor voc entrar.
Ela usava um grande robe, que lhe ia at os ps. No fosse pela abertura, por onde vislumbrou parte de uma perna bem torneada,Guilherme acharia que aquele roupo nada tinha de interessante. De repente, ao imaginar que ela poderia no estar usando nada por baixo, ficou tenso.
 Estranho, no?  Olhou-a, um tanto encabulado. Quando sou convidado a entrar em seu dormitrio, quase no h tempo para aproveitar esse convite.
 Olhe, no comece com insinuaes, porque De repente, um chamado agudo veio do banheiro:
 M!
 Annebelle est na banheira  Margheritte apressou-se a explicar e voltou-se, na inteno de ir at a menina.
Guilherme observou o vestido que fora deixado sobre a cama e se desapontou. Era de um tom escuro, meio esverdeado e reto, com gola alta e mangas longas. Teria sido escolha de Margheritte ou de sua av?
 H uma banheira muito boa no quarto de Annebelle. Por que ela estava tomando banho a?
 J notou como aquele lugar  sem graa?  Margheritte rebateu, de l de dentro.  E depois, estava ficando tarde, e achei mais prtico trazer Annebelle para c. Assim, posso me arrumar enquanto ela brinca.
Guilherme sorriu.
 No me faa mudar seus planos
 Eu no sabia que no se importava em me ver escovar os dentes e fazer gargarejo, Guilherme! Bem, sobre o que quer conversar, afinal?
Guilherme foi at o toalete e, aproximando-se, sentou-se na borda da banheira, vendo Annebelle empurrar um barco de plstico em sua direo.
 Pensei que voc iria ignor-la  No pde conter a ironia.
 Tentei, mas tive tanto sucesso quanto voc, hoje, no restaurante.
 Sei como .
 Olhe, no me entenda mal. S trouxe Annebelle para c porque sua av estava cansada demais quando chegamos, e os empregados esto muito ocupados com os preparativos para a festinha de logo mais.
Annebelle brincava, feliz, espalhando gua e espuma para todos os lados. Margheritte aproximou-se do espelho, com um pincel de rimei na mo.
 O que queria conversar comigo, Guilherme?
 S desejava dizer que no consegui falar com os Herrington.
Margheritte no sabia a quem Guilherme se referia.
 So os pais de Sybil.
 Eu no lhe disse que deveriam estar viajando?
 Mas deixei um recado com a empregada. Annebelle cansou-se do banho de repente e levantou-se, querendo sair da banheira. Guilherme enrolou-a em uma toalha e segurou-a no colo.
 Voc no contou  empregada, contou?  Margheritte parecia alarmada.
 Evidente que no. Apenas pedi para que os Herrington me ligassem assim que chegassem.  Ps-se a enxugar os cabelos da menina, com todo o carinho.
 Onde ser que eles esto?
 A moa sabe que no deve informar.
 Pelo menos isso vai atrasar o anncio de Camila por algum tempo. No que seja uma grande surpresa
Guilherme colocou a filha sentada sobre o mrmore da pia e apanhou o secador.
 Minha av tem razo quando diz que esse  o tipo de anncio que no se mantm em segredo por muito tempo, Margheritte. Parece-me um tanto tarde para retroceder, agora que j a apresentei at para um fornecedor, no  mesmo?
Margheritte tomou o secador dele.
 Desse jeito, Annebelle vai parecer to assustada quanto se tivesse visto uma bruxa ou coisa parecida  repreendeu-o pelo modo desajeitado com que Guilherme secava as mechas finas da menina. Continuou, pondo-se a realizar a tarefa com bem mais habilidade que ele:  Voc no precisava ter me apresentado. Podia ter dito que eu era uma amiga da famlia.
 E ficar ali parado enquanto Jack a devorava com o olhar? E depois, eu teria de explicar tudo a minha av.
 Acha mesmo que Jack se interessou por mim?
Guilherme no gostou da pergunta. Margheritte estaria to encantada com aquele primeiro encontro quanto Jack ficara?
 Olhe, se Jack Baxter a impressionou tanto, quando tudo isso terminar poderei apresent-los de novo, se quiser.
Um sorriso leve apareceu nos lbios de Margheritte e, por alguns segundos, Guilherme achou que ela iria rir de si mesma. Isso deixou-o mais aliviado. A idia de v-la cobiando Jack Baxter no o agradava nem um pouco. Porm, o que Margheritte afirmou deixou-o perplexo:
 Obrigada, Guilherme,  um grande sujeito. Vou me lembrar disso. Agora, me diga: voc arrumar Annebelle para a festa ou eu mesma devo fazer isso?


Camila j estava na sala de msica quando Guilherme desceu, muito paciente, visto que Annebelle insistira em vir por si mesma, descendo degrau por degrau da enorme escadaria.
Assim que viu o neto, Camila ajeitou o arranjo que colocara sobre a cabea e indagou, apontando de leve para o delicado vestido de veludo que a bisneta usava:
 E ento, no fizemos excelentes aquisies?
 No sei bem.  Guilherme serviu um clice de licor  av. Parecia descontente.  O que a levou a comprar tal roupa para ela?
 Como assim, meu querido? No gostou do tom do veludo?
 Estou falando de Margheritte. Camila pareceu atnita.
 Ora, achei que  Ela se interrompeu, vendo que Margheritte acabara de entrar.
Guilherme, voltando-se, teve de conter a respirao. O traje, que parecera to simples sobre o leito, mostrava-se agora muito diferente, aderindo ao corpo de Margheritte como uma luva. Caa com suavidade sobre as curvas bem-feitas e, embora no sendo muito curto, deixava as belas pernas  mostra o suficiente para parecerem ainda mais bem torneadas.
A gola alta, na verdade, era apenas um efeito que tornava o pescoo de Margheritte ainda mais elegante e gracioso.
Por alguns instantes, Guilherme sentiu-se feliz por Jack Baxter no estar ali para v-la. Se Margheritte, em jeans, o tinha deixado sem fala, trajada daquela maneira faria dele um pobre idiota apaixonado.
 No o acha atraente?  Camila quis saber, de modo inocente, referindo-se  roupa.
Guilherme parecia ainda desconcertado com a viso, mas murmurou, mesmo assim:
 Eu apenas quero saber quem o escolheu.
 Annebelle,  claro. Embora eu ache que a pequena estava mais interessada na textura do que propriamente no modelo.
Annebelle caminhara at junto de Margheritte e colara o rostinho ao tecido suave. Margheritte lhe acariciava os cabelos. Naquele momento, a campainha soou, anunciando a chegada dos primeiros convidados. Guilherme notou que Margheritte endireitava a espinha e respirava fundo, ao ver Albert se apressar para atender.
Guilherme aproximou-se dela.
 No se preocupe. Todos vo estar to mais interessados no vestido que mal tero tempo de lembrar-se de quem est dentro dele.
 No admira que Camila o tenha aprovado. 

Logo os convivas apareceram, cercando-os. Mais de uma hora se passou at que Guilherme e Margheritte tivessem oportunidade de trocar mais algumas palavras em particular.
Guilherme bebericava um usque quando Margheritte chegou perto.
 Pelo jeito, todos sabem, Guilherme. E, embora olhem muito para o anel, ningum fez nenhum comentrio. Camila deve ter lhes contado como se fosse uma confidencia
 Seja o que for que tenha dito, logo algum vai falar alguma coisa. Bem, quanto a essa roupa Quem a escolheu? Foi vov?
 Por qu? Acha que a idia foi minha? Estvamos no fim da tarde, meus ps comeavam a arder, Annebelle tinha adormecido, e sua av continuava bem-disposta. Vi-me exaurida demais para discutir com ela, fosse sobre o que fosse. Diga-me, quantas das mulheres aqui presentes foram suas namoradas um dia, Guilherme?
 Nem tantas quantos so os homens que gostariam de ser seus namorados agora.
 No sou eu,  o vestido, lembra-se? Voc mesmo observou que o efeito dele seria maior do que esperava. Vamos, quantas aqui j namoraram voc. Fale isso, e lhe direi quem so.
 Aposto que no consegue. H trs.
 S? Esperava pelo menos cinco.  Margheritte passou os olhos pela sala, avaliando as jovens ali presentes, e foi falando devagar:  Aquela loira segurando um martni e aquela com os cabelos bem curtinhos, mais atrs. Parece que esto confabulando, no acha?
Guilherme assentiu, grave, elogiando:
 Nada mal, garota!
 Bem, elas so bvias. Quanto  terceira  Margheritte observou-o de cima a baixo, como se nunca o tivesse visto antes, e em seguida tornou a observar as moas.  Diria que  aquela morena escultural que est flertando com aquele rapaz. O que parece militar.
Guilherme estava impressionado com a preciso.
 Devia ter apostado, Margheritte.
 No seria justo com voc. Elas so, de fato, todas muito bvias. O que as denunciou foi a maneira como me olharam quando viram o diamante em minha mo. Tem certeza de que no h mais nenhuma?
 Estamos ou no falando sobre minhas ex-namoradas? Se no sei quem daqui j saiu comigo
 Devo dizer que tambm aposto que aquela ruiva que Camila convidou para sua mesa de bridge  muito suspeita. Ela me encarou da mesma forma.
 Ah, ela No foi exatamente uma namorada.
 No? Eu j imaginava
Havia um certo tom irnico na voz de Margheritte. Assim que ela deu-lhe as costas, na inteno de se afastar, Guilherme tomou-a pelo brao e a fez virar-se.
 Espere um pouco. Aonde vai?
 Ouvir o que elas tm a dizer sobre mim e voc,  lgico. Camila ficaria muito triste se eu no aproveitasse a oportunidade para descobrir o quanto as garotas consideram nosso noivado ridculo.
Atrs de Guilherme, Albert pigarreou, chamando-lhe a ateno.
 Sinto perturb-lo, senhor, mas h um telefonema O sr. Herrington disse que o assunto  muito importante.
Margheritte voltou-o de imediato. Guilherme, contrariado, deixou a sala e foi atender. Ele demorou muito para voltar, e Margheritte contou cada segundo.
Camila organizou as mesas de bridge, e os jogadores colocaram-se em seus lugares. Margheritte ouviu alguns comentrios maliciosos sobre Guilherme e ela, em especial das antigas namoradas dele. Annebelle, aborrecida por ter de ficar num cercadinho a um dos cantos da sala, bateu os ps e gritou. Grata pela desculpa de ter algo a fazer, Margheritte se dirigiu at a menina e ergueu-a nos braos, saindo com ela dali para a biblioteca, logo ao lado, onde se sentou junto  lareira, acalentando a garotinha.
De onde estava, podia ver grande parte do outro ambiente e dos convidados. Isso, porm, no acontecia com eles, porque a biblioteca estava em penumbra. Talvez tenha sido por isso, imaginou ela, que Guilherme no a procurou assim que retornou.
Ele se juntou a um grupo e passou a conversar e rir, muito animado. Margheritte, no entanto, achava-o um tanto preocupado. Sua risada parecia forada, diferente.
Pouco mais tarde, o jogo e a festa terminaram. Assim que o ltimo convidado se foi, Camila aproximou-se e retirou Annebelle, j adormecida, do colo de Margheritte, levando-a para seu quarto.
 Eu tambm vou me recolher.  A senhora dirigiu-se  escadaria.  Amanh cedo poderemos comentar sobre a reunio.
Margheritte massageou os ombros, que pareciam doloridos por ter segurado a menina por tanto tempo. Guilherme, sentado no brao de uma poltrona prxima, observava-a com uma expresso estranha. Albert recolhia copos e pratos.
 Albert, por que no deixa o resto do servio para amanh?  Guilherme sugeriu, de repente, surpreendendo o mordomo.
Com uma mesura, Albert retirou-se, sem contestar.
 Venha, acompanharei voc at seus aposentos.  Guilherme, sem dar tempo a Margheritte para falar, conduziu-a naquela direo.
J no hall superior, ela se voltou para encar-lo.
 O que houve? O que o sr. Herrington disse?  indagou, ansiosa.
 Roger Herrington? Ora, o que voc j poderia esperar. Evidente que Margheritte no sabia a que Guilherme se referia, e ele devia saber disso. Assim, por que no lhe dera uma resposta direta?
Por outro lado, ela analisava, o comentrio vago parecia fazer sentido. Afinal, aquele assunto no era de sua conta. No importava o que Guilherme tivesse dito ao ex-sogro ou o que tivesse ouvido dele. Tratava-se de um assunto que parecia pertencer exclusivamente aos dois homens que haviam amado Sybil.
Se o compromisso que fingiam ter fosse real, ento Margheritte teria todo o direito de saber como o pai de Sybil recebera a notcia. Mas esse no era o caso. Margheritte sentiu um frio no estmago. Teria ido longe demais e perdido o sentido da realidade? Haveria interpretado sua parte to bem que agora j no achava que era apenas um papel que estivera desempenhando? Voltou-se,  soleira de seu dormitrio, e procurou no fitar Guilherme de frente.
 Estou muito cansada. Talvez possamos conversar pela manh.
Guilherme no respondeu. Ergueu a mo direita e passou-a, muito de leve, sobre a gola macia do vestido dela. O toque de seus dedos pareceu lanar uma corrente eltrica por todo o corpo de Margheritte, obrigando-a recostar-se ao batente. Queria poder afastar-se dele e no deix-lo perceber o que a simples carcia de seus dedos era capaz de provocar
 Todos os rapazes que estiveram aqui quiseram fazer isto  murmurou ele, parecendo encantado com o traje muito feminino.
 Nenhum deles tentou. Guilherme sorriu de leve, rebatendo:
 No, at agora.
Ela esperava que Guilherme a puxasse para si e repetisse a incrvel experincia fsica que fora o beijo trocado na cozinha.
Porm, Guilherme no o fez. Ao contrrio, aproximou-se muito devagar, passando os braos ao redor dela, impedindo-a de escapar, caso quisesse. Depois baixou a cabea e tocou-lhe os lbios, a princpio numa carcia controlada, suave, at que Margheritte entreabriu a boca, dando-lhe a permisso pela qual parecia estar esperando. Guilherme, ento, aprofundou o beijo, exigente e sedutor. Quando se afastou alguns milmetros, Margheritte tinha as pernas trmulas. Queria poder mostrar a ele que no estava to abalada, que aquele fora apenas mais um ato sem conseqncias, mas no conseguia.
 Por que fez isso, Guilherme? No estamos em pblico, portanto, no precisamos enganar ningum.
 Eu a beijei porque quis, e voc correspondeu pelo mesmo motivo. Guilherme a estudou de cima abaixo.  Acho que no vai me convidar para entrar, vai?
 Pode apostar que no.  Contudo, Margheritte queria dizer o contrrio.
Ele deu de ombros.
 Ento, vou continuar tentando.  Esboou um meio sorriso.
Margheritte entrou no quarto e trancou-se depressa, com a respirao acelerada. Era loucura querer um homem que ainda amava a esposa falecida. E seria tolice imaginar que fazer amor e amar pudessem ser a mesma coisa.
O que Guilherme deveria estar sentindo era puro desejo fsico e, depois que tivessem se amado, ele se afastaria sem o menor remorso.
Se Margheritte aceitasse estar com Guilherme, ele se divertiria; apenas isso. E, se continuasse a dizer-lhe "no", ele no insistiria muito, apenas sorriria, como acabara de fazer, e se afastaria, ridicularizando a situao. O fato era que ela, Margheritte, nada significava em sua vida.
Ento por que sentia tamanha vontade de abrir de novo aquela porta e aceitar os carinhos dele?









CAPITULO VIII


Guilherme j estava  mesa, na manh seguinte, quando Margheritte desceu para o desjejum. Annebelle estava praticamente escondida por trs do jornal que ele lia. Camila no se encontrava l. A menina ergueu os braos para Margheritte assim que a viu. E, embora um tanto vacilante, lembrando-se ainda do beijo da noite anterior, Margheritte conseguiu murmurar, pegando o beb:
 Bom dia. Espero que tenha dormido bem. Guilherme deixou o peridico.
 Na verdade, no tanto quanto poderia ter sido  disse, lanando um olhar ardente por todo o corpo de Margheritte.
Naquele momento, Camila apareceu  porta da varanda, impecvel, como sempre.
 Bom dia!  saudou, muito alegre.  Bem, tudo j est em seu devido lugar. Voc vai ver, minha cara, que administrar uma casa deste tamanho no  to complicado se h funcionrios competentes fazendo o servio. E ento? Que planos vocs tm para hoje?
 Pensei em levar Annebelle at o Aqurio Municipal, se Margheritte estiver de acordo.  Guilherme erguia a xcara para que Albert, que acabara de entrar, a enchesse de novo com caf.
 Preciso estudar para uma prova que terei na segunda-feira  Margheritte respondeu de imediato.
 Estaremos de volta na hora do almoo, Margheritte. Voc ter a tarde toda para fazer o que quiser.  O tom de voz dele deixava claro que j havia decidido, e no queria contestaes.
 Se espera encontrar Roger Herrington l, meu filho, creio que ele no faz parte da diretoria j h algum tempo.
 Nem me lembrei que Roger era um dos diretores, vov. Margheritte manteve-se em silncio, tentando entender aquela conversa.
Guilherme no parecia ter contado  av que recebera um telefonema de Herrington na vspera. Mais tarde, quando j estavam no carro a caminho do aqurio, ela no pde evitar a indagao:
 No falou com Camila sobre o telefonema de seu ex-sogro?
 Falei. Logo cedo.
 E sua av no se aborreceu por saber apenas hoje?
 No, quando lhe disse o que ele queria.
 Ento, o sr. Herrington no pareceu muito satisfeito
 No.
 Bem, mas isso  bom para ns, no? Quero dizer, se o pai de Sybil no gostou da idia de nos ver casados, Camila deve achar que  Margheritte meneou a cabea, tentando colocar os pensamentos em ordem.  Sabe, esta situao est ficando complicada demais.
 Tem razo. Alis, voc continua achando que minha av a considera inadequada.
 Voc tambm pensaria assim se tivesse ouvido o que ela me disse ontem.
 J a escutei falar muitas coisas, e vrias delas so contraditrias, Margheritte. Em minha opinio, devemos simplificar nosso plano.
 Como assim?
 Voc deve partir meu corao.
 Mas em que isso ajudaria?
 Se vamos nos envolver um pouco nesta farsa
 Ah, j entendi aonde quer chegar!
 No me interrompa! Se vamos levar nossa farsa at o fim, nada impede que tenhamos bons momentos juntos, certo? E, quando tudo acabar, posso fingir que voc me deixou e que estou com o corao em frangalhos, sofrendo como louco. Assim, vov vai me deixar em paz, pelo menos por algum tempo.
Margheritte aquietou-se, pensativa. Quando ergueu os olhos outra vez, percebeu que estavam passando por uma rua residencial, onde as casas tinham estilos arquitetnicos muito interessantes.
 Est gostando?  Guilherme pareceu adivinhar seus pensamentos.  Quer que pare o automvel? Podemos dar umas voltas por a a p. O carrinho de Annebelle est no porta-malas.
Animada, Margheritte aceitou a sugesto de pronto. Pouco depois, Guilherme j montava o carro da menina e a colocava nele.
 Nunca lhe perguntei que tipo de arquiteta quer ser.  Guilherme afivelou a faixa que passava pelo peito do beb.
 Do tipo que recebe servios.
 Isso no  resposta.
 , sim, quando se precisa muito de dinheiro, como eu. Vou fazer o que me pedirem.
 Voc me pareceu muito interessada em residncias. Por que no se especializa nelas?
Margheritte encarou-o. Havia sinceridade em Guilherme, e isso agradou-a.
 Fui assim to transparente?  Tentou sorrir.  Adoraria me ocupar apenas delas, mas  o campo mais difcil, sabia?
 No me parece ser do tipo que desiste com facilidade, Margheritte.
 Isso depende da competio. H muitos e grandes arquitetos com essa preferncia. E no so muitos os que contratam profissionais dessa rea, por no se importarem se sua casa ter um design especial ou no. Sabe o que eu gostaria de fato? De poder realizar trabalhos por conta prpria e ter tanto servio que poderia recusar aqueles cujos proprietrios no seguissem uma boa linha de construo. Afinal, todo lar tem uma alma. Guilherme achou graa.
 Nada mal para quem est comeando! Por que no cria um teste de qualificao para os clientes em potencial? Assim vai poder escolh-los a dedo.
 Ora, por que no pensei nisso antes?! Bem, mas o que importa  que terei de me esforar muito antes de ter todos os recursos de que vou precisar. H tantas dvidas a pagar!
Guilherme se manteve em silncio por alguns minutos, e Margheritte imaginou se ele estaria se lembrando da devoluo que ela prometera fazer.
 No tem muita sada, no , Margheritte? Precisa se desdobrar para poder continuar os estudos e, mesmo assim, no tem tempo suficiente para faz-lo.
Margheritte deu de ombros.
 Prefiro pensar nisso como um desafio, para no esmorecer.
 Talvez eu possa dispens-la de me reembolsar.
 Como? Desenhando uma casa nova para voc? No acredito que queira sair da obra-prima de Bellows.
 No, no era isso o que eu tinha em mente. Escute, no quer me mostrar seu trabalho? Talvez, se eu gostar, possa abater um tanto do que vai me dever depois que nossa farsa chegar ao fim.
Margheritte no sabia o que pensar. A vida de Cinderela que estava tendo nos ltimos dias era maravilhosa, mas o sonho terminaria dentro de vinte e quatro horas, e teria de voltar  linha de produo da fbrica, o que no era nada agradvel.
Olhou para Guilherme, quando ele tirava a filha do carrinho e comeava a brincar com ela. Ele armara todo o plano para poder estar com Annebelle, e era assim que deveria ser.
Margheritte sentia que tudo acabaria bem, e estava feliz por ele. No entanto, as coisas que Guilherme lhe dizia, s vezes, pareciam to irreais Como o fato de querer que ela construsse algo para poder pagar se dbito. Que idia mais estranha!
Andaram pelas redondezas, observando as construes durante quase a manh inteira. Ento, pararam numa lanchonete para comer um sanduche. Ao sarem, o cu parecia estar preparando uma nevasca. S a Guilherme se deu conta de que no se lembrava de onde deixara o carro, e demoraram muito a encontr-lo, andando quase quarenta minutos na busca.
O ar fresco da manh e o exerccio da caminhada foram bons para os trs.  tarde, enquanto Margheritte se recolhia para estudar, Guilherme dedicou-se a fazer o beb dormir, e acabou por pegar no sono tambm. Quando acordou, Annebelle ainda permanecia adormecida em seu colo, e a biblioteca, onde se sentara com ela, se encontrava em penumbra.
Dali Guilherme podia ver sua av tricotando na poltrona favorita na sala de msica. Margheritte acomodara-se no tapete, prxima a Camila. Assim que percebeu que Guilherme acordara, se levantou e aproximou-se.
 Estive aqui faz pouco, para ver se precisava de ajuda com Annebelle, mas, pelo que vi, voc tinha tudo sob controle.
Atrs de Margheritte, Albert pigarreou para anunciar sua presena.
 Com licena, senhor, mas a sra. Wilson me pediu para avis-lo de que est de volta e pronta para retomar seus afazeres.
Guilherme cerrou um pouco os olhos e depois voltou-os para a av, que continuava a tricotar. Camila se mostrara certa, desde o princpio, de que a enfermeira s retornaria no sbado, e agora isso parecia confirmado, mostrando que Camila, de fato, tramara aquela situao para saber o quanto Annebelle e Margheritte se dariam bem.
Contudo, quando a enfermeira apareceu  soleira, Guilherme teve de admitir que ela estava, de fato, um tanto plida e abatida. Seus olhos, porm, mostravam-se atentos como sempre, e, assim que viu Annebelle deitada sobre a barriga do pai, fechou o cenho.
 Vou levar a menina para cima.
 Annebelle est muito bem aqui. Eu a levarei para o quarto assim que acordar.
 Acredito que a garota tenha sido to mimada nos ltimos dois dias que vou levar semanas para p-la nos eixos de novo.
  provvel que no tenha de fazer isso  Margheritte interveio.  Afinal, um pouco de mimo  sempre bom para Annebelle, se  que um pouco de ateno possa ser considerado mimo.
Ela enfrentou o olhar duro da sra. Wilson por alguns instantes, e depois saiu dali pisando firme. Guilherme nem se importou em segui-la. Estava satisfeito demais vendo a expresso chocada no semblante da bab.

O restaurante que Guilherme escolheu era desconhecido de Margheritte. Tratava-se de um local exclusivo, luxuoso, e o garom conduziu-os a uma mesa afastada, quase separada do resto do salo principal.
Margheritte retirou dos ombros o casaco de pele que Camila lhe emprestara e colocou-o no espaldar de uma cadeira. Pensara em recusar a oferta, mas Camila fora por demais insistente e, no fundo, Margheritte gostara de usar algo to delicado e bonito. Sentia-se como se fosse Cinderela e a meia-noite estivesse se aproximando. Queria usufruir ainda um pouco daquela atmosfera fantstica.
 Sinto muito por ter interferido na conversa, esta tarde, quando a sra. Wilson chegou, Guilherme.
O garom se afastou com o pedido de vinhos.
 No se preocupe com isso, Margheritte. Adorei cada minuto. Devo dizer que a sra. Wilson e minha av no se do muito bem, e acho que voc acabou por impression-la colocando-se contra uma ordem da enfermeira.
Margheritte ergueu as sobrancelhas.
 Foi lamentvel, no ?
Guilherme, para seu espanto, no parecia preocupado com isso.
O garom voltou com a bebida e serviu-os. Ainda sentindo o gosto refinado, Margheritte indagou:
 Os Herrington costumam ver Annebelle com freqncia?
 No muita. Acho que vo ficar mais interessados quando ela for mais velha.
Margheritte sabia que a menina era muito parecida com a me, e talvez fosse difcil para o casal estar junto dela. Acreditava que, em vez de ser um conforto, a viso de Annebelle se transformasse numa tortura para ambos.
O antepasto chegou, e Guilherme experimentou-o, mas sua expresso no era muito satisfeita.
 Algo errado com a comida?  Margheritte indagou, curiosa.
 No.  que, embora este lugar seja muito agradvel, acho que nosso almoo foi bem melhor hoje. Lembra de Annebelle tentando morder seu hambrguer?
A recordao a fez rir.
 Talvez, da prxima vez, possamos traz-la aqui conosco. J imaginou o desespero do matre? O sorriso de Margheritte desapareceu devagar. Deu-se conta de que no haveria uma outra oportunidade.
Bebeu mais um gole do vinho, disposta a aproveitar aquela noite ao mximo.
Mais tarde, quando j estavam no prato principal, Guilherme comentou:
 Pretendo construir uma fbrica nova. 
Margheritte fitou-o calada, at que entendeu aonde Guilherme queria chegar.
 Era nisso que estava pensando quando falou sobre me oferecer um projeto de construo, esta manh? Olhe, eu poderia tentar
Guilherme encarou-a, atento.
 Mal a estou reconhecendo. Esta  a mesma Margheritte que, dias atrs, aceitou uma grande quantia de dinheiro para me ajudar numa pequena trapaa?
 Sabe muito bem que precisarei dele e que vou devolver cada centavo.
 Precisa aprender a desenvolver certa confiana nos clientes, j que pretende ser uma boa arquiteta.
 Entendo No confia em mim o suficiente. Ou no estava se referindo ao projeto da fbrica esta manh?
 Claro que no. No vou me limitar a algumas plantas e maquetes quando posso ter algo mais de graa.
 No compreendo.
 Um dia, ser capaz de olhar para um cliente no fundo dos olhos e pedir-lhe uma verdadeira fortuna. E vai consegui-la, no tenha a menor dvida.
Margheritte sorriu.
 Quer que eu comece praticando com voc, ento? 
A sinceridade na expresso dele cativou-a. As vezes, no sabia o que pensar de Guilherme. Ele lhe parecia fleumtico, srio, mas havia algo mais que fazia com que Margheritte sentisse ternura, confiana e segurana a seu lado. 
Quando deixaram aquele canto isolado e dirigiram-se ao salo, para sair do restaurante, Margheritte percebeu que uma mulher, em uma das mesas mais prximas, olhava-a com extrema ateno. Ao passarem por ela, Guilherme deteve-se.
 Que coincidncia incrvel!  exclamou ele, oferecendo a mo  elegante senhora.  Marilyn, quero que conhea
 No, voc no quer  Marilyn o interrompeu. Falava baixo e com certa agressividade.  Ento,  isso o que pretende colocar no lugar de Sybil?
 Isso, no. Esta linda jovem.
Margheritte sentiu-se enregelar. No conseguia desviar-se da senhora, que s poderia ser a me de Sybil.
 Jack Baxter nos disse que voc havia lhe apresentado sua noiva, Guilherme.
 Eu devia saber que Jack no perderia tempo. Alis, isso tambm explica esta "coincidncia".
 Acertou em cheio. Eu tinha de ver por mim mesma. Mal pudemos acreditar quando Jack nos contou.  Marilyn encarou Margheritte, sem tentar disfarar a reprovao.
 E que escolha a sua! Bem que ele nos disse que a garota estava usando jeans num restaurante refinado!
Guilherme parecia frio, mas um sorriso estranho apareceu em seus lbios.
 Jack tambm falou como Margheritte fica dentro do jeans?  Piscou, malicioso.  Quase melhor do que est com esse vestido.
 Evidente que no seria pior do que fica dentro do casaco de pele de Camila  Marilyn devolveu, rspida.  Uma menina brincando de se vestir bem, mas que no sabe se conduzir em sociedade.
Margheritte comeava a sentir-se mal com a situao. Quase sem notar, ergueu a mo para tocar o agasalho que usava e, nesse momento, Marilyn viu seu anel.
 Esse  o anel de Sybil?!
 Claro que no, Marilyn!
 Ao menos esse bom senso voc teve!  Marilyn parecia aliviada.  E depois, no acha que deve alguma coisa a nossa filha?!
Naquele momento, um homem alto, de cabelos brancos, aproximou-se.
 No cr que, sob tais circunstancias, deveramos ficar com a jia de Sybil, para guard-la para Annebelle?  Marilyn sem sequer deu chance ao cavalheiro de perceber o que estava acontecendo.
 O que acho, Marilyn  Guilherme falou por ele ,  que voc deve ficar fora do que no  de sua conta.
 Olhe, rapaz  Roger Herrington interferiu, notando que sua esposa estava recebendo uma resposta deselegante.  No vou permitir que
 Quanto a Sybil  Guilherme ignorou-o , devo lembr-la de que est morta e que no devo a ela o resto de minha vida. Se no conseguir ser educada com minha noiva, espero que se mantenha longe de ns, ento.
Margheritte tremia, tanto pelo encontro com os Herrington quanto pela defesa que recebera de Guilherme. Teria sido melhor ainda se tudo fosse de verdade
De repente, caiu em si: seu sonho de Cinderela, embora prximo do final, tinha, de fato, existido. Conhecera seu prncipe encantado e se apaixonara por ele. Perdidamente. E nada havia agora que pudesse fazer parar o relgio

CAPTULO IX


Essa revelao pessoal foi um choque para Margheritte. Passou a ter diante dos olhos imagens soltas, como a raiva no olhar dos pais de Sybil, o espanto nos semblantes das pessoas que freqentavam o restaurante naquela noite.
Sentiu que Guilherme passava um brao por seus ombros, amparando-a na sada. O vento gelado que os recebeu l fora a fez estremecer, apesar do casaco de pele. Gostaria de esconder o rosto no peito de Guilherme, mas sabia que isso nada tinha a ver com o frio que sentia.
Ele fez um sinal ao rapaz que cuidava dos automveis e murmurou:
 Sinto muito pelo que acabou de acontecer, Margheritte.
 Eles devem estar sofrendo muito ainda  foi o que conseguiu dizer.  Por que no lhes conta a verdade?
Guilherme pareceu pensar. Depois, respondeu, sombrio:
 Meus ex-sogros sabero tudo no tempo certo.
  pior para eles, voc sabe. Camila no sofrer as conseqncias de nossa farsa, mas o casal perdeu a filha
 O problema no  voc, Margheritte. Eles fariam objeo a qualquer uma.
 Por isso mesmo, Guilherme. Precisa falar para os Herrington que  tudo mentira. Ou melhor, que no h ningum com quem se preocupar.
Voltaram para casa em silncio absoluto. E Margheritte deu graas a Deus por isso. Ainda estava surpresa consigo mesma pelo que descobrira sobre seus sentimentos. Procurava arranjar desculpas para o que lhe ia no corao, achando que um amor forte e verdadeiro no poderia ter se desenvolvido em apenas alguns dias. No entanto, entendia que no podia se enganar. A proximidade de Guilherme era forte demais.
Quando chegaram, ela voltou-se depressa para sair do veculo, no querendo sequer olhar para Guilherme. Se ele interpretasse isso como um convite a um novo beijo, como na vspera, estaria perdida.
 Margheritte?  Guilherme chamou-a, fazendo-a parar.  Voc sabe lidar muito bem com as situaes.
Ela assentiu, decepcionada com tais palavras. Ento, era apenas isso o que ele tinha em mente a seu respeito? Tal observao estava longe de ser o que queria de Guilherme, mas precisava se conformar e aceitar o fato de que no teria nada alm disso.
Em vez de dirigir-se a seus aposentos, Guilherme viu-se com a mo na maaneta da sute principal. Abriu a porta devagar, entrando como se entra num santurio. Foi at a lareira e ergueu os olhos para o retrato de Sybil. Lembrou-se das palavras de Margheritte, dizendo-lhe que deveria contar o que realmente acontecia aos Herrington. Ele o faria, com certeza. Assim que soubesse, de fato, o que se passava.
Aps o jantar de domingo, Margheritte encolheu-se numa das poltronas da biblioteca, tentando estudar para a prova que faria na manh seguinte. No entanto, era-lhe difcil concentrar-se. Sentia-se perdida por amar um homem ainda devotado  esposa morta e, ao mesmo tempo, ouvia-o caminhando pela manso toda, inquieto.
Na terceira vez em que Guilherme entrou naquele ambiente, sem nada dizer, Margheritte no se conteve:
 Seja o que for que o incomoda,  melhor falar logo. Se quiser me levar para casa, diga! O fim de semana est quase terminado. Algumas horas a mais ou a menos no faro diferena.
 Quer ir embora?
 L eu poderia estudar em paz.
 Sinto muito. No quis perturb-la.  que Annebelle est em seu quarto, e a casa parece to vazia!
  verdade. Bem, vou subir e arrumar minhas coisas. Depois, s precisarei me despedir de Camila.  Margheritte saiu depressa dali, no querendo fitar Guilherme, para no correr o risco de perceber algum tipo de alvio em suas feies.
No demorou muito para arrumar o que faltava, pois j havia colocado na valise tudo o que trouxera. Pendurou os vestidos que Camila lhe comprara no guarda-roupa e decidiu dar uma ltima olhada em Annebelle.
Abriu a porta devagar, esperando no encontrar a sra. Wilson ali. Afinal, a enfermeira mantivera um olhar desaprovador sobre ela desde o incidente no dia anterior.
Procurando no fazer rudo algum, para o caso de Annebelle estar adormecida, Margheritte percebeu que a bab falava ao telefone e no notara sua presena.
 Estou saindo agora mesmo  dizia a mulher.  Fique a postos.
Margheritte pigarreou, de leve, e a sra. Wilson voltou-se, parecendo furiosa.
 J ouviu falar em invaso de privacidade, senhorita?  protestou, com fria entonao.
 Sinto muito, no pretendia ser indiscreta.
No bero, Annebelle ergueu os bracinhos em sua direo, sorrindo e balbuciando:
 M!
Margheritte tomou a criana nos braos e explicou:
 Vim apenas para me despedir dela.
 No acho que seja conveniente. Eu ia lev-la para dar um passeio.
 Entendo. Mas isso pode esperar um ou dois minutos, no?  Margheritte mal podia sentir o corpinho de Annebelle, envolto que se encontrava em grossas roupas de inverno e um cachecol que quase lhe cobria o rosto todo. Margheritte acalentou-a junto a si, procurando evitar as lgrimas. Era incrvel como se apegara ao beb em to pouco tempo Depois, dando-lhe um beijo, entregou-a  enfermeira.
Foi, ento, a seu quarto e apanhou sua bagagem. Algo em seu ntimo parecia avis-la de algo, mas Margheritte no conseguia compreender o qu.
De repente, uma suspeita apareceu mais clara em seus pensamentos. Notara, no dormitrio de Annebelle, que a sra. Wilson iria levar uma mala com fraldas para o passeio que pretendia dar. No entanto, iria to longe assim? Pretenderia trocar a menina no parque, com todo aquele frio?
Margheritte deixou suas coisas sobre o piso do hall, e Albert a viu.
 Alguma coisa errada, senhorita?
 Onde est Guilherme?  apressou-se em perguntar.
 Na sala de televiso. Posso
Margheritte observou a parte de cima da manso. A sra. Wilson ainda no aparecera no topo da escadaria.
 Atrase a enfermeira o quanto puder, sim?  Margheritte recomendou ao mordomo e, sem esperar por uma resposta, foi correndo  sala de tev.
Guilherme levantou-se assim que a viu!
 Achei que estava ansiosa para partir, mas no tanto!
Ao ouvi-lo se expressar com um certo humor, Margheritte sentiu-se um tanto ridcula. Estaria exagerando? Uma enfermeira experiente sabia o que fazia. E se estivesse desconfiando demais da pobre mulher? Mas agora j era tarde para ponderaes. Tinha de comunicar o que sentia a Guilherme.
 A sra. Wilson vai levar Annebelle para um passeio.
 Sei. Devo ficar feliz ou preocupado com isso?
  que venha e a observe.
 Quem? Annebelle?
 No. A sra. Wilson. H algo errado com ela. Estava ao telefone quando entrei no quarto de Annebelle, planejando encontrar-se com algum. Por favor.
Guilherme franziu o cenho, mas algo na expresso de Margheritte pareceu convenc-lo. Decidiu, ento, segui-la. No hall, Albert parecia estar tendo problemas para armar o carrinho da menina. A sra. Wilson observava-o, parecendo tensa.
 Deixe que eu fao isso  disse ela, por fim, adiantando-se.
O mordomo pareceu aliviado ao ver que Guilherme e Margheritte se aproximavam e entregou o carro sem discutir. A bab montou o transporte com presteza e, levantando-se, notou a presena de Guilherme. Seu jeito foi mais do que suficiente para convencer Margheritte de que no desconfiara em vo.
 Diga adeus ao papai, Annebelle.
 Vo passear, sra. Wilson?  Guilherme adiantou-se, colocando-se em frente ao beb.  Acho que iremos juntos. Seria um excelente exerccio, no acha, Margheritte?
 Claro!
 Bem, eu no  A sra. Wilson parecia no saber o que dizer. At que pensou em algo: 
 Est to frio l fora
 O ar mais fresco ser muito bom para nossos pulmes.
 No acha melhor impedi-la de sair, Guilherme?  Margheritte segredou-lhe ao ouvido, enquanto a enfermeira ia em direo  porta.
 E acus-la de qu?
Guilherme j seguia a bab, mas parou de repente, fazendo com que Margheritte desse de encontro com suas costas.
 O que houve?  indagou ela, fitando o lado de fora. L, um luxuoso carro preto parecia aguardar, do outro lado da alameda.
  o Cadillac de Roger Herrington.  Guilherme ergueu uma sobrancelha.
 No lhe parece que seja uma visita informal a esta hora, no?
As coisas pareciam fazer sentido agora. A mala que a sra. Wilson preparara deveria conter vrias roupas de Annebelle. Ela estivera a ponto de entregar a menina aos avs maternos!
Guilherme chegou ao automvel uma frao de segundo depois da sra. Wilson. Margheritte vinha logo em seguida.
De dentro do carro, Marilyn Herrington encarava-os com desdm e raiva.
 Quanta gentileza nos visitar agora!  Guilherme exclamou, irnico.
 Viemos para conversar com voc, rapaz  Roger Herrington desligou o motor.
 E mesmo? No seria melhor entrarmos, ento? A sra. Wilson tambm deve vir conosco e deixar o passeio para mais tarde.
O semblante da ex-sogra de Guilherme no se mostrava nada agradvel, mas no houve alternativa a no ser todos voltarem para dentro da manso.
Margheritte pegou Annebelle e sentou-se com ela na poltrona mais distante da sala de msica, querendo mant-la longe daqueles que quase a tinham raptado.
 Que surpresa!  Camila disse, assim que viu o casal entrando.  Preciso dizer que  boa?
Margheritte j ouvira aquele tom malicioso antes. E, voltando-se para o mordomo, a velhinha acrescentou:
 Albert, traga ch e alguns biscoitos, sim?
Os Herrington acomodaram-se num dos sofs enquanto a bab ocupava uma cadeira lateral, empertigada como sempre.
Margheritte livrou Annebelle das roupas muito quentes de inverno, recebendo um abrao apertado da garotinha, que olhava assustada para os avs.
 A que devemos esta honra?  Camila indagou, cheia de charme.
Guilherme achou melhor falar por eles:
 A um quase seqestro, suponho.
 Proteger uma criana do mal no  seqestro!  Marilyn protestou.
 Pois o que considera mal no tem o mesmo significado para mim  Guilherme rebateu, muito srio.
 Exato. E voc deseja expor nossa neta a uma ignorante, inculta
  melhor parar por a!  Guilherme comeava a perder o controle.
 Olhe para ela!
 Estou olhando, Marilyn. E sei que minha filha est muito bem.
 E voc tem estado perto de Annebelle tempo suficiente para saber se est ou no bem?
 Por qu, Roger? Vocs tm se dedicado mais ao beb do que eu?
 Olhe, j conversamos com nossos advogados
 E eles aprovaram essa atitude despropositada?
 Vamos entrar com os papis amanh para conseguirmos a guarda da menina.
 Se esto to certos de que vo conseguir, por que tentaram lev-la hoje?
 Porque, se voc fosse avisado, iria sumir com nossa neta primeiro.
Guilherme respirou fundo.
 Acho que j ouvi o bastante. Queiram sair daqui, sim? 
Albert retornou com o ch, mas no havia atmosfera para que quem quer que fosse aceitasse uma xcara, a no ser,  claro, Camila, que parecia muito tranqila.
 Guilherme, eles esto agindo assim porque amam Annebelle  Margheritte opinou, acariciando os cabelos da garotinha.
 Parece-me um tipo de amor muito estranho  ele contraps, teimoso.
 Os avs no querem que Annebelle sofra nenhuma influncia minha  Margheritte prosseguiu, expondo seu ponto de vista.  Mas voc disse que os Herrington no gostariam de ter nenhuma moa como madrasta de sua neta
Margheritte se voltou para o casal.
 Ainda esto sofrendo tanto pela perda de Sybil que no aprovariam nenhuma outra jovem junto de Guilherme, no ?
Guilherme percebeu o que ela estava prestes a fazer e tentou intervir, mas Margheritte ergueu a mo, pedindo-lhe que no o fizesse. Prosseguiu, calma:
 Guilherme no vai colocar ningum no lugar de Sybil, estejam certos. E esta situao, alm de embaraosa,  desnecessria.
 Pare com isso, Margheritte!
 No, Guilherme, j est mais do que na hora de esclarecermos tudo. No h noivado algum, nunca houve. Foi apenas um plano.
Roger e Marilyn estavam desconsertados. Guilherme baixou a cabea, murmurando algo inaudvel. Camila sorriu e se ofereceu:
 No vo aceitar o ch agora?
Margheritte voltou-se para v-la, sem compreender tal atitude, e continuou sua explicao:
 Guilherme queria que Camila parasse de pression-lo a se casar outra vez. Ele achou que, trazendo algum invivel para c bem, sua av no iria gostar, e ficaria muito aliviada quando ns desmanchssemos o compromisso. Assim, ela o deixaria em paz.
Camila nada disse. Apenas tomou um gole da bebida fumegante e encarou o neto.
 A verdade  que Guilherme jamais pensou em se envolver comigo nem com nenhuma outra  Margheritte finalizou.
Uma quietude pesada caiu sobre a sala e s foi quebrado quando Camila resolveu se pronunciar:
 Margheritte, querida,  melhor verificar o que Annebelle est fazendo com os botes de sua blusa.
Baixando os olhos sobre si mesma, Margheritte viu que a menina j abrira trs, expondo a renda cor-de-rosa de seu suti. Apressou-se a fech-los, sem conseguir deter um sorriso. Afinal, aquele era um final inusitado para uma tarde terrvel.
Margheritte retirou o grande anel do dedo, ento, e estendeu o brao para devolv-lo a Guilherme, que a fitava, contrariado. Annebelle, porm, foi mais rpida e apanhou a jia, deixando-a cair logo em seguida sobre o tapete. O solitrio rolou at os ps de Camila, que mantinha-se em silncio.
 Bem, acho que j vou indo  Margheritte estava ansiosa por poder sair dali, j havia bastante tempo.
 Voc fez seu pequeno discurso, mas no pense que vai me deixar aqui.  Guilherme a deteve.  Pelo menos, no enquanto eu no esclarecer certos pontos.
Annebelle, tendo sido deixada na poltrona por Margheritte e perdido o anel que queria segurar, se ps a chorar.
 No acho que este seja o local ou o momento apropriado para esclarecerem nada  Camila opinou.
Margheritte notou que a velhinha mal podia esperar para ver-se livre dela.
 Mais tarde, est bem, Guilherme? Sei que tem muitas coisas a acertar agora. Voc sabe onde me encontrar.  Ela deixou a sala, notando, ao passar, que a cadeira antes ocupada pela sra. Wilson estava vazia.
Os Herrington tambm se levantaram, e Roger chegou a oferecer a Margheritte, no hall:
 Aceitaria uma carona, senhorita?
  muito gentil de sua parte, mas prefiro andar. Tenho muitas coisas a pensar pelo caminho. Obrigada.
Assim que o casal se retirou, Albert providenciou a bagagem de Margheritte, que deixara guardada num armrio prximo. Da sala de msica, o som da voz de Camila foi claro:
 Aqui est a jia, Guilherme. No vai querer perd-la, vai?
Ele respondeu alguma coisa, mas num tom to baixo e rouco que Margheritte no foi capaz de compreender.
 Foi pego, no, meu querido?
Margheritte podia sentir a reprovao de Camila.
 Srta. GrifFin?  Albert chamou-a.  Eu gostaria de dizer que sinto muito. Na verdade, todos os criados sentem.
Margheritte cerrou os dentes, para evitar chorar. Agradeceu, ento, e saiu da casa. Queria ter se voltado ainda uma vez para admirar as linhas arquitetnicas da propriedade onde vivera momentos inesquecveis. Mas no o fez. No tinha mais nada a ver com Cinderela. O sonho se acabara. Na verdade, sentia-se como a abbora da histria, amassada e sem valor.




CAPTULO X


A avaliao de segunda-feira foi ainda mais difcil do que Margheritte esperava. Sabia muito bem a matria, mas seu estado psicolgico no era dos melhores, o que atrapalhou, e muito, sua concentrao. Quando saiu da sala, sua amiga Ellen a esperava.
 Prova difcil, hein? Bem, mas agora voc pode ir para casa e descansar.
Margheritte, porm, sabia que haveria ainda um teste mais complicado naquele dia: voltar ao trabalho e encarar Guilherme Copeland como seu patro.
 E ento, como foi o feriado?  Ellen quis saber.  Voc disse que me contaria tudo depois Meus pais saram para jantar no sbado  noite e disseram que a viram com um homem muito atraente, que parecia rico. E ento, vai contar ou no?
Quando dobraram a esquina, rumo ao edifcio de Margheritte, notaram que um furgo de uma floricultura passava devagar diante das residncias,  procura dos nmeros.
 Por favor, poderiam me ajudar a encontrar um endereo?  perguntou o rapaz, por trs do volante.  Wilson Court  aqui, no?
Elas assentiram, e o jovem estacionou logo adiante, descendo e abrindo a parte de trs do veculo, de onde tirou um ramalhete enorme.
 Conhecem  Ele olhava o nome num bloco que trazia no bolso.  Margheritte Griffin?
 E ela!  Ellen apontou, enquanto o corao de Margheritte disparava. Vamos, Margheritte, pegue as flores!
Ela assim o fez, surpresa e atnita, sem ousar imaginar que Guilherme poderia ter sido capaz de um ato to gentil. Queria muito acreditar que sim, mas procurava enganar-se, achando que talvez Camila tivesse mandado o arranjo. No queria sofrer. No podia continuar com o sonho impossvel.
 Ento, queria me convencer de que tudo estava acabado, no, espertinha?  Ellen repreendeu-a, empurrando-a com carinho at a porta de seu apartamento.
L dentro, Margheritte apressou-se a abrir o pequeno envelope que estava grampeado ao plstico. "Sentimos muito por a termos julgado mal", dizia o carto. "Marilyn e Roger Herrington."
A esperana que nascera por breves momentos se esvaiu como fumaa, deixando Margheritte ainda mais triste. Entregou o carto  amiga e disse apenas:
 Cuide das flores. Tenho de me arrumar para ir para a fbrica.
Mesmo decepcionada, Margheritte via a parte boa daquilo: os Herrington tinham apreciado sua honestidade. Era como se aquela atitude deles restitusse a confiana de que agira da maneira mais certa. Esperava que Guilherme tambm reconhecesse o mesmo. Se no fosse assim, a conversa que ainda iriam ter no seria muito agradvel

A Copeland estava funcionando, barulhenta como sempre. Margheritte entrou na produo s quatro horas, aceitando o fato de que sua vida voltara ao normal. Em especial, o servio duro. No houve recado algum para que se dirigisse ao escritrio da presidncia, o que, de certa forma, a decepcionou. Talvez Guilherme j tivesse esfriado a cabea e resolvido deixar que tudo seguisse seu rumo. Afinal, o que teriam ainda a dizer um ao outro? Margheritte lhe devolvera o solitrio, e era mais do que bvio que Guilherme no a chamaria a sua sala para acertarem detalhes do projeto arquitetnico que ele mencionara.
Pouco antes do intervalo da meia-noite, o operrio na mquina ao lado comeou a fazer suas costumeiras gracinhas:
 E ento? Tem planos para o intervalo? Vai distrair o patro um pouquinho?
 Poderia repetir o que acabou de dizer?  Guilherme estava logo atrs de Margheritte, e surpreendeu os dois.
O funcionrio mal conseguia falar:
 No, senhor Foi s s uma brincadeira Guilherme ignorou-o e dirigiu-se a Margheritte:
 H quanto tempo isso vem acontecendo?
 Desde meu primeiro dia aqui. Por que acha que eu estava to ansiosa para deixar a linha de produo?
 . Ficou to ansiosa que  comeou outro homem, mais adiante, mas parou logo, ao deparar com a expresso glida de Guilherme.
 Quero vocs dois em meu escritrio amanh, assim que chegarem para seu turno. E ordeno que seu supervisor os acompanhe. Margheritte, venha comigo agora para fazer um relatrio completo dos fatos.
O olhar dos homens seguiu-os at que desaparecessem no corredor contguo. L, Margheritte livrou-se de seus protetores de ouvido e encarou Guilherme.
 Agora  que minha situao aqui vai ficar insustentvel!
 Mas, que droga, Margheritte, por que no disse o que estava se passando por l?
 Para qu? Voc no teria acreditado se no tivesse ouvido por si mesmo. Alis, se no me conhecesse, poderia at imaginar que eu estivesse fazendo por merecer tal tratamento. Alm do mais, o que pretende fazer a respeito? Ficar atrs de mim o tempo todo para garantir que eles no digam mais nada?
 Posso fazer muito, comeando por demitir aqueles dois idiotas.
 Nossa, isso vai me deixar muito popular entre os colegas, no acha?
Guilherme parou de andar e se voltou.
 Muito bem, o que deseja, ento?
De repente, foi como se toda a raiva tivesse passado e s restasse o cansao.
 No sei, confesso. Porm, no acho que tenha sido para isso que voc foi at a produo. O que queria?
Guilherme no respondeu. Continuou caminhando at que chegassem a sua sala. L, Margheritte sentou-se na poltrona que lhe foi indicada e aguardou.
 Achei que j tivesse ido para casa  comeou ela, parecendo pouco  vontade.
 Assim estaria livre de mim, no?  Ele se acomodou diante dela.  Tive problemas mais graves para resolver, coisas que no podiam esperar.
 Os Herrington?
 Tambm. Tive de rever toda a histria do provvel seqestro, porque, afinal, nada havia contra a sra. Wilson. Ela apenas levou a menina para que os avs a vissem.
 No acha estranho que eles tenham ido a sua manso para pegar Annebelle? Se tivessem se encontrado com a sra. Wilson no parque, estariam muito mais seguros. Parece que queriam ser flagrados
 No me interessa explorar a mente deles a esta altura, Margheritte. Mas sei que seus advogados ficaram bastante irritados com a atitude que tomaram e no creio que terei problemas com eles no futuro.
 E quanto  enfermeira?
 Desde que no me pea referncias, vou deix-la seguir seu caminho.
 Ento, a sra. Wilson pediu demisso Estou surpresa por voc estar aqui ainda, e no com Annebelle. Muito bem, vamos falar depressa para que possa voltar logo ao aconchego do meu lar. Sinto muito por ter dito a verdade e estragado seu plano, mas era a coisa mais sensata a fazer, at mesmo pela segurana de Annebelle. Quanto ao dinheiro, no precisa se preocupar. No espero que cumpra sua parte no trato, j que no cumpri a minha.
Margheritte se levantou, disposta a sair logo dali.
 Espero que no tenha nenhum sentimento de rancor para comigo.
Guilherme pareceu ignorar tudo o que ela dissera.
 Mas ainda vai precisar do dinheiro.
 Tenho um emprego.  Margheritte sentia que um n comeava a se formar em sua garganta.  A no ser que queira me demitir
Guilherme se levantou tambm e foi at sua mesa, de onde retirou a caixa do anel.
 Tome. Pode vend-lo, se quiser.
Margheritte segurou a caixinha. Sentia que Guilherme queria se livrar dela o mais rpido possvel, e isso a deixou zangada.
 Como acha que poderei vender uma jia de dez mil dlares sem levantar suspeitas?
 Vinte e cinco mil  ele corrigiu. Margheritte arregalou os olhos, perplexa.
 Oh, isso me faz sentir bem melhor  ironizou.
 O anel no vai lhe garantir um estilo de vida elegante, mas
 No tenho um estilo de vida elegante! Alis, no foi por isso mesmo que me contratou? No, Guilherme, pode ficar com o solitrio, obrigada. Ele vai faz-lo lembrar sempre que no deve se envolver em farsas.
 Engraado foi isso mesmo o que minha av disse 
No havia mais o que falar, mas Margheritte sentia uma dificuldade enorme em sair daquele local.
Dali para a frente, teria de v-lo apenas como o patro, nada mais. Fazendo um esforo sobre-humano, deu-lhe as costas, muito devagar e foi at a porta. Ainda no a tinha alcanado quando ouviu:
 Annebelle chamou por voc hoje cedo. 
O corao dela se apertou.
 Lamento, Guilherme. Eu no tive a inteno de
 Sei disso.
 Se quiser, posso ir v-la de vez em quando, mas acho que isso s iria piorar as coisas.
 Gosta muito do meu beb, no ?
  claro. Quem em seu juzo perfeito no a adoraria?
 Nem todos teriam agido como voc, jogando para o alto um acordo muito vantajoso apenas em benefcio de uma criana. E como sei que ainda precisa daquela quantia, estive pensando Olhe, voc pode ter tudo de que precisa, sem a preocupao de ter de devolv-lo.
 Entendo. E qual seria o preo?
 Eu. Um casamento de convenincia.
Margheritte no podia acreditar no que acabara de escutar. T-lo, mas apenas no nome? Poderia ser a me da filha dele, mas jamais teria um filho seu em seu ventre?
 Acho que acabamos nos dando bem.
 Espere um pouco, Guilherme. Voc chegou a sugerir que tivssemos um caso, e agora vem com essa histria?
  que no estou pedindo que me ame ou que deixe sua carreira, mas Annebelle precisa de uma me. E depois, o amor no  a nica base para garantir o sucesso de um matrimnio.
Margheritte manteve-se quieta por instantes, pensativa. Guilherme parecia tenso, no sabia quais argumentos usar para convenc-la.
 Eu me casei com uma mulher que no me amava uma vez. Por que no posso repetir a dose?  Esboou um meio sorriso.
 Sybil no o amava? Como  possvel? Qualquer mulher  Ela se interrompeu a tempo.
 O que ia dizer? "Qualquer mulher" 
Margheritte encarava-o, os olhos mergulhados nos dele. Era melhor esclarecer logo o que estava sentindo, para evitar maiores problemas no futuro. Sempre gostara de honestidade em tudo, ento, por que no confessar?
 Eu ia dizer que qualquer mulher o amaria. Como eu amo.
O silncio que se seguiu deixou-a ainda mais aturdida. Dissera a verdade, e Guilherme no reagia.
 Isso posto, acho que no temos mais nada a conversar. Ento, boa noite.
 No ouse me deixar sozinho!  Guilherme aproximou-se e tomou-a nos braos, muito srio.
Beijou-a com a mesma intensidade que Margheritte j conhecia, at faz-la render-se aos carinhos de sua boca.
 Voc me ama, de fato!  murmurou ele, quando afastou os lbios, deixando-a sem flego.
 Agora que j sabe, aposto que vai querer me levar para sua cama, no ?
 S se insistir. Posso esperar at que se case comigo.
 Mas no vou me casar com voc!
 No?!
 No!
 Por que no, se eu te amo?  evidente que Annebelle precisa de uma me, mas no foi apenas por isso que pedi que fosse minha mulher. Mas achei que poderia convenc-la, se no me amasse.
 Voc no tem, mesmo, experincia com as mulheres Como pde achar que eu no o amava?
 Conheo muito bem o sexo feminino, sim, mas nunca conheci algum especial como voc. Talvez seja por isso que demorei tanto a perceber que te amava. E ento? Vai se casar comigo?
 No sei Sybil pode ainda estar entre ns.
 Sybil? Eu me encantei com ela, sim, mas logo percebi o quanto era narcisista. J era tarde, porm, pois Annebelle estava a caminho, e tivemos de regularizar nossa situao. Mas Sybil amaldioou a gravidez at o final, porque estava estragando seu corpo Tivemos muitas brigas depois disso.
 Chegaram a quebrar o televisor da sute numa delas, no ?
 Ela quebrou, pouco antes de sair como uma louca, no dia em que sofreu o acidente.
 Agora entendo por que voc no queria se envolver a srio outra vez Mas e sua av? Por que Camila no entendeu seu sofrimento?
 Vov nunca soube de nossas desavenas. Bem, entretanto voc no me respondeu: aceita ser minha mulher?
 Camila deve ainda achar que no formamos um belo par.
 Eu no me importo muito com o que ela pensa, mas ontem vov me disse que voc  muito melhor do que eu. Ento, suponho que, mesmo contra nossos planos anteriores, minha avozinha querida acabou por ser conquistada. E sabe do que mais? Roger veio falar comigo hoje e disse que parecia ser uma excelente garota, Margheritte. Partindo dele, tal observao vale muito. Perguntarei pela terceira vez, e, se voc no responder continuarei perguntando pelo resto de meus dias: vai se casar comigo ou no?
Margheritte sorriu, feliz.  Como eu poderia dizer "no"?
Guilherme tomou a beij-la, daquele modo s seu, que levava Margheritte ao paraso.
 Sabe de uma coisa, meu amor? Lembro-me de t-la achado perfeita desde o primeiro momento.
 Para enganar sua av?
 Tambm. A mulher certa para ser minha companheira em tudo. Minha amiga, minha esposa, me de meus filhos, arquiteta da nova fbrica, de nossa nova casa Tudo, enfim. Simplesmente perfeita, Margheritte! Para mim!
 
EPLOGO


"Querida Margheritte:

H alguns pontos que queria esclarecer com voc. Poderia conversar pessoalmente, mas admito que sou um tanto cnica. Sendo assim, optei por escrever.
Do alto de minha longa experincia de vida, aprendi a ler o corao das pessoas com uma incrvel facilidade. Espantei-me quando vi que, apesar de to jovem, j aprendeu essa arte tambm, querida. E apreciei essa sua faceta.
Quando meu neto a trouxe para casa pela primeira vez, um misto de frustrao, raiva e ternura invadiu meu peito. Olhei para voc e vi algum inadequado para meus padres, mas com uma alma cndida. Por isso, apesar de disfarar muito bem, fiquei desconcertada. O que fazer com uma garota que no tem maldade dentro de si?
Desejei, sim, v-la a quilmetros de distncia. Guilherme se casara com uma jovem que poderia ser comparada a uma diva do cinema, cheia de glamour e refinamento. De onde ele tirara a idia de se envolver com uma simples operria de unhas curtas?! Entretanto, toda vez que a encarava, eu via em seu semblante uma nobreza de carter muito difcil de se encontrar hoje em dia. Pensei que j sabia de tudo e que, por ser to idosa, no tivesse mais nada a aprender. Engano meu. Com sua inteligncia, amabilidade e boas intenes, conseguiu fazer com que eu visse que h valores bem mais importantes do que o verniz que o convvio em sociedade nos d.
Notei, meu bem, que no tinha sido contaminada pela hipocrisia a que todos estamos sujeitos se no prestamos ateno a nossas atitudes e s alheias.  fcil menosprezar algum por sua falta de traquejo social, por sua simplicidade de vocabulrio. Por isso, devemos nos esforar para ter sempre o corao aberto. Quando o fechamos, s ns temos a perder, pois nos entregamos ao preconceito, que aniquila o amor e a tolerncia. Vivi muito, conheci quase todos os pases do mundo, gente de variadas culturas. Porm, devo admitir que sempre tive uma certa altivez que me impediu de olhar no mesmo nvel os menos favorecidos pelos ventos da fortuna financeira.
Voc conseguiu ultrapassar com louvor essa barreira. No dia em que ouvi Annebelle cham-la de "me", com aquele seu jeitinho de beb, um vu pareceu cair de sobre minha vista, e pude enxergar com clareza a pessoa que havia diante de mim. Algum que conquistava o amor puro de uma criana to depressa s podia ser muito especial.
A partir da, comecei a lhe dar algum crdito. Conversei a seu respeito algumas vezes com Albert, que  seu f nmero dois. O um, lgico,  Guilherme. Meu mordomo, que me acompanha h dcadas e a quem dedico uma grande afeio, disse-me que, depois de sua falecida mulher, nunca mais encontrou uma moa de alma to grandiosa, at conhec-la, Margheritte. Isso, vindo de um sujeito sisudo como ele,  um elogio e tanto!
Tive de concordar com Albert.
A nica coisa que eu queria era que meu Guilherme fosse feliz, junto daquela criaturinha maravilhosa que  Annebelle. A pobre garota foi rejeitada pela me desde o ventre. Meu neto no sabe que sei disso, mas no era preciso ser adivinho para notar o quanto Sybil se arrependia de ter engravidado. Por isso, morri de medo de que Guilherme errasse de novo e acabasse se envolvendo com outra mocinha ftil.
Desse modo, cada atitude, cada gesto seu foi por mim avaliado. Por favor, no se indigne. Minha inteno no era menosprez-la, como deve ter imaginado. Eu quis apenas proteger meus entes queridos. Meu neto sofreu demais com Sybil. Ele pensa que no sei, mas nada me passou despercebido. Conheo-o desde de nen, afinal.
Enfim, o que pretendo dizer com tudo isso  que a quero como a uma filha. Seja bem-vinda entre ns, e cuide para que meu Guilherme e minha Annebelle tenham em voc tudo de que necessitam. Sua compensao ser todo o amor do mundo, estou certa disso. Estarei a seu lado sempre, para tudo de que necessitar, sejam conselhos, seja apoio, seja carinho.
Agora, tente imaginar-me dizendo-lhe estas coisas olhando no fundo de seus olhos. Meu quase permanente esgar de ironia a deixaria ou no em dvida sobre minha sinceridade?
Deus a abenoe, minha querida. A partir de j, somos uma famlia.

Camila Copeland."

Margheritte enxugou a lgrima que lhe correu pela face. A carta de Camila empurrava para longe todas as dvidas de que poderia ser feliz com Guilherme e Annebelle. A bondosa velhinha no s a aceitava com carinho como a admirava.
 Ah, Camila, voc no poderia ter me dado presente melhor!
Dirigiu-se a seu quarto, no minsculo apartamento. J era hora de comear a se arrumar para a cerimnia simples que a aguardava na manso dos Copeland. Aquele seria o dia mais feliz de sua existncia, pois se uniria a Guilherme e passaria a ser me do beb mais lindo que j vira. Ellen iria dividir com Kasey as despesas em seu lugar. Assim, ningum sairia prejudicado.
Em cima da cama, acariciou o vestido branco, com corpete de renda e pequenas prolas, com que Camila fizera questo de presente-la. Pertencera  me de Guilherme, que fora felicssima em sua longa unio com o pai dele.
Margheritte fizera questo de uma reunio s para os amigos ntimos e parentes, em vez da pompa com que Camila sonhava.
 Sou uma moa simples, Camila, e adoro ser assim  afirmara.
O projeto da nova fbrica ficara pronto, e Guilherme no cansava de avisar a todos que sua futura mulher era uma brilhante arquiteta. O rudo da maaneta girando indicou que Ellen chegava, atarantada, para auxiliar Margheritte com os preparativos.
 Pronto! Aqui estou! Agora, sente-se diante da penteadeira, e comearei a fazer sua maquiagem. Voc, que sempre foi linda, vai ficar deslumbrante, Margheritte. At que enfim meu sonho de v-la bem-arrumada se realizar!
Margheritte achou graa. Ellen, a amiga que sempre estivera a seu lado, estava se dando muito bem com Jack Baxter, a quem fora apresentada fazia poucas semanas.
 Prometo que eu mesma cuidarei de tudo quando voc resolver se casar com Jack.
 Margheritte! Eu o conheo h pouco mais de quinze dias! Bem, fique quieta. Tenho muito a fazer por aqui.

Uma hora depois, uma limusine parou diante do velho prdio de Margheritte, que se dirigiu  igreja com Ellen e Kasey. Margheritte, em pensamento, despediu-se da antiga vizinhana. Seu prncipe a aguardava, ansioso, para fazer dela a mulher mais feliz do mundo.

* * *








 
 









DICAS


s vezes tenho dores de cabea terrveis, que no passam nem se eu tomar duas aspirinas de uma vez. Ser que devo aumentar a dose?
Se suas dores de cabea, alm de intensas, se concentram num dos lados da cabea e se acompanham de vmitos e de distrbios visuais, pode ser que voc esteja sofrendo de enxaqueca. Esse mal pode s vezes responder bem  aspirina ou ao paracetamol, mas o mais comum  que essas drogas no consigam aliviar bem os sintomas. Mas o mdico pode lhe receitar outros preparados que, tomados assim que aparecem os primeiros sintomas, conseguem cortar a crise.
Se uma pessoa toma uma dose excessiva de analgsicos, basta faz-la vomitar?
 preciso tomar providncias rpidas, mas nunca tente cuidar sozinho de um caso desses: chame imediatamente socorro mdico ou leve a pessoa ao hospital mais prximo. Voc pode achar que a pessoa j vomitou todo o medicamento, mas parte dele pode j ter entrado na corrente sangnea e se espalhado pelo organismo, exigindo cuidados mdicos especializados. O paracetamol, por exemplo, pode causar leses hepticas vrios dias depois da ingesto excessiva. Muitas vezes o doente apresenta sintomas leves e algumas horas depois entra em coma.
Meu marido recusa-se a tomar analgsicos quando tem dor de cabea, pois alega que o lcool  um medicamento melhor. Ele tem razo?
Se a dor de cabea foi causada apenas por tenso fsica ou mental, uma dose de bebida alcolica pode alivi-la to bem quanto um analgsico. Mas  bom no exagerar nas quantidades e no esquecer que, fora dos casos citados, o lcool  ineficaz e pode mesmo ser perigoso para o doente.
Disseram-me que tomar aspirina pode provocar o aparecimento de uma lcera.  verdade?
Comprimidos de aspirina (cido acetilsaliclico) podem aumentar a acidez estomacal, causar indigesto e, em conseqncia, piorar o estado de quem j sofre de lcera. No entanto, no h indicaes de que a aspirina provoque a afeco.
Tenho um amigo que sofre de lcera do estmago. Agora descobriu que ela  maligna.  comum acontecer isso?
No. Apenas uma pequena porcentagem, no caso de lceras do estmago (gstricas), pode degenerar em cncer. As lceras malignas tendem a surgir em partes do estmago diferentes daquelas onde incidem lceras benignas. Se houver qualquer dvida quanto ao carter benigno ou maligno de uma lcera, retira-se pequena parte do tecido lesado (bipsia) para exame ao microscpio. Caso o resultado seja positivo, extirpa-se a lcera por meio de cirurgia.
H vinte anos tive uma lcera e na ocasio fiquei internada num hospital, para repouso. Quando, recentemente, reapareceram os sintomas, o mdico receitou-me apenas comprimidos. Por que ocorreu essa mudana de tratamento? Vinte anos atrs havia bem poucos medicamentos eficazes no combate s lceras. Recorria-se ento, principalmente, ao repouso, um recurso que auxilia o tratamento, mas que no se equipara  eficcia da terapia atual com drogas como a cimetidina.
Meu marido diz que eu tenho lcera porque vivo preocupada e nervosa. Ele est certo?
Mesmo que voc seja uma pessoa bastante tensa,  difcil dizer at que ponto seu marido tem razo. As preocupaes podem cooperar para o surgimento de uma lcera, mas isso  impossvel de ser comprovado.


LEIGH MICHAELS trabalhou em vrios empregos antes de comear a escrever romances. Foi comerciante de peas antigas, consultora de casamentos, arquiteta Todavia, sentiu que ser escritora era a carreira perfeita para ela. E como estava certa!
